Gustavo Magalhães/MRE
Gustavo Magalhães/MRE

A torre de Babel do Itamaraty

Diplomata agora tem de saber árabe, russo ou chinês; saiba como funcionam cursos

Cedê Silva, especial para o Estadão.edu,

21 Abril 2012 | 20h38

Os atuais calouros do Instituto Rio Branco são a primeira turma obrigada a aprender idiomas não-ocidentais. Além de estudar inglês, francês e espanhol – conhecimento avaliado já no concurso –, os jovens diplomatas devem ter duas aulas de duas horas por semana de um destes idiomas: árabe, chinês ou russo. A maior turma é a de chinês, com 16 alunos; a menor é a de russo, com 5.

 

“Precisamos de pessoal com domínio desses idiomas”, diz o diretor adjunto do Rio Branco, Sérgio Barreiros. “A China, por exemplo, é um desafio. Todos querem compreender melhor a sociedade chinesa e a língua é muito difícil.”

 

O concurso não avalia a capacidade de expressão oral. É por isso que o aprendizado dos idiomas cobrados na prova continua no Rio Branco. As turmas são divididas em níveis, porque se alguns sabem só o suficiente para passar no concurso, outros têm mestrado no exterior.

 

Como nas outras disciplinas, a nota em idiomas contribui para a classificação no ranking após a formatura. Melhores alunos têm preferência na escolha de postos no exterior.

 

O professor sírio Abdulbari Nasser, de 50 anos, chegou a Brasília em 1990 para trabalhar na embaixada do país. Formado em Agronomia pela Universidade de Damasco, ele leciona árabe no Rio Branco há oito anos, mas sem regularidade. Hoje trabalhando para o governo do Catar, Nasser elogia a iniciativa brasileira de se aproximar dos países da região. “O povo árabe ama o Brasil, um país neutro e sem inimigos. Durante a Copa do Mundo, vê-se bandeiras do Brasil na Síria.” Para ele, a vantagem do árabe é a possibilidade de negociar diretamente com mais de 20 países. “Sem falar que todo muçulmano precisa saber o idioma para rezar.”

 

A maior dificuldade do aprendizado é o alfabeto. “Conto aos alunos que nos primeiros dois meses eles vão desenhar, não escrever.” Dez letras do árabe não existem em português. Da mesma forma, o idioma não tem letras como G e P. “Mas os alunos são talvez os mais inteligentes da sociedade brasileira.” Em poucas semanas, eles aprendem a manter conversas curtas.

 

É preciso bem mais tempo para aprender os mais de 4 mil ideogramas necessários para ler literatura chinesa. Mas Jianxu Wang, que já deu aulas no Usbequistão e no Canadá, elogia a dedicação dos brasileiros. “Eles passaram por um exame difícil e são muito concentrados.” Wang, de 32, estudou Pedagogia e Letras na Universidade Normal de Hebei. Chegou ao País em 2010, graças a um programa do Instituto Confúcio, ligado ao governo chinês.

 

Uma dificuldade do estudo do mandarim é que muitas palavras têm apenas uma sílaba – conceitos complexos são formados pelo encaixe delas, em geral de duas a quatro. Outra complicação é que cada sílaba pode ser pronunciada em até quatro tons diferentes, e cada um quer dizer uma coisa.

 

“Bi”, por exemplo, significa “caneta”, dependendo da entonação. Mas há um significado impublicável – digamos apenas que um diplomata deve ter muito cuidado ao, dirigindo-se a uma embaixadora da China, pedir emprestada a caneta dela.

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