HELVIO ROMERO/ESTADÃO
HELVIO ROMERO/ESTADÃO

A precária casa dos futuros advogados do País

Moradia de estudantes da Faculdade de Direito da USP busca verba para reforma; presidente Temer morou no local

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2018 | 02h00

SÃO PAULO - O letreiro já gasto, em cima da porta principal com vidros quebrados, dá a única pista da identidade de um prédio bastante desgastado na Avenida São João, em Santa Cecília: Casa do Estudante. Em dez andares, o edifício abriga alunos do mais notável curso de Direito do País, a Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP)

Inaugurada em 1949, a Casa do Estudante nunca passou por amplas reformas e acumula problemas elétricos e hidráulicos, além de não corresponder às necessidades de uso dos alunos. Por isso, os moradores se mobilizaram para arrecadar por financiamento coletivo, até o fim do ano, R$ 500 mil para uma grande revitalização da casa, que é de propriedade do Centro Acadêmico XI de Agosto e nunca recebeu recursos da universidade.

Com três apartamentos de dois quartos por andar, o prédio foi construído para receber jovens de famílias ricas do interior que iam estudar na prestigiada faculdade paulistana. O prédio teve, entre os moradores, o presidente Michel Temer (MDB), por exemplo. Nos últimos anos, porém, ganhou um caráter social, abrigando estudantes de baixa renda, sem condição de pagar aluguel no centro da capital paulista. 

A moradia é a única opção para alunos como Erick Araújo, de 19 anos, que ingressou na faculdade este ano. Criado no Itaim Paulista, no extremo da zona leste, ele estudou a vida toda em escola pública e sempre teve o sonho de estudar Direito na USP. "Sempre quis estudar no lugar de onde saíram os principais dirigentes do País. Eu queria ocupar esse espaço, mas não imaginava que, mesmo depois de entrar no curso, seria ainda mais difícil permanecer", conta. 

Com o pai desempregado e a mãe diarista, ele tentou uma bolsa auxílio pela universidade, mas não foi contemplado. Os pais também não tinham condições de pagar um aluguel para que ele morasse próximo à faculdade - já que o trajeto do Itaim Paulista ao Largo de São Francisco leva mais de 2 horas pelo transporte público. "Eu não poderia participar de todos os projetos da faculdade ou me dedicar tão bem aos estudos se tivesse que gastar mais de 4 horas de transporte todos os dias", diz. 

O aumento na demanda por vagas na casa deve se acentuar nos próximos anos já que, a desde 2015, a faculdade passou reserva parte de suas 460 vagas de ingresso para alunos de escola pública – o porcentual vem aumentando gradativamente e chegará a 50% em 2021. Atualmente, só três estudantes de Direito moram no Conjunto Residencial da USP (Crusp), na Cidade Universitária, na zona oeste da capital - número muito pequeno diante da possível demanda por moradia já que só neste ano, do total de ingressantes, 101 foram contemplados com algum tipo de bolsa auxílio pela USP. 

Mais vagas

O projeto de reforma prevê reformular os quartos, que são individuais e espaçosos, para que possam comportar duas pessoas. Hoje, moram no prédio 63 estudantes da graduação e pós-graduação, selecionados pelos critérios de renda e vulnerabilidade social da USP.  "A Casa do Estudante foi feita para jovens ricos já que a faculdade era elitista e feita para eles. Com a chegada dos alunos de escola pública, é preciso repensar o uso desse espaço. O prédio nunca teve superlotação, mas, neste ano, os calouros já estão dividindo quartos. Eu, por exemplo, divido com mais um colega", conta Araújo.

A residência é financiada pelo centro acadêmico, que repassa R$ 24 mil por mês, e pelo aluguel da parte térrea, onde funcionam duas lojas. Também há uma taxa opcional de R$ 50 por morador, mas atualmente paga por apenas seis pessoas. O valor é suficiente para as contas de água, luz e internet e manutenções emergenciais. 

“Sempre estudei em escolas públicas de Brasília. Sem a Casa do Estudante, não teria como ficar em São Paulo. O curso ainda é muito elitista e o gasto com livros e cursos de idioma, muito alto. Por isso, a taxa de R$ 50 é opcional. O valor pode parecer pequeno, mas para quem tem dificuldade até de comprar livros, ele faz muita diferença”, diz Gabriel Prado, de 21 anos, diretor e morador da casa. 

Além de ampliar as vagas na casa, a reforma também é necessária para dar mais segurança aos moradores. Os fios elétricos estão soltos e aparentes, não há iluminação nos corredores, não há acessibilidade e são comuns vazamentos de água - há alguns meses a conta de água chegou a R$ 20 mil por conta de uma vazadura. 

“Não há risco iminente no prédio, mas as fiações estão expostas; os degraus, desgastados; e há vazamentos. O edifício não tem acessibilidade nem local de estudos. É só um dormitório. Os moradores quase não ficam aqui porque as condições são insalubres”, diz o arquiteto Gabriel Pietroroia, responsável pelo projeto.

O projeto também prevê reformar a cozinha comunitária, que foi feita de forma improvisada há alguns anos. "O prédio não foi construído com cozinha, nem mesmo nos apartamentos. Eram jovens ricos, que tinham dinheiro para comer fora. Agora, os estudantes, que moram aqui e não têm a mesma condição financeira, precisam de um espaço adequado para cozinhar", diz Pietroroia. 

O professor Floriano Marques, diretor da Faculdade de Direito, diz que a Reitoria já se dispôs a reformar a casa desde que passasse a administrá-la. A medida não foi aceita pelos alunos, pois as vagas teriam de ser abertas para os alunos de toda a USP.

No entanto, ele se diz sensibilizado e preocupado com a segurança dos estudantes no local e se compromete a buscar, junto à Reitoria, formas de viabilizar a reforma. "Não faz sentido termos uma política consistente de inclusão, com as cotas, mas não darmos condições para que eles possam se dedicar aos estudos. Temos que garantir os meios para que eles cheguem ao final do curso", diz.

Questionada sobre a situação da Casa do Estudante, a Reitoria não fez nenhum comentário. Em nota, disse que "os estudantes classificados como prioritários, considerando-se os critérios da assistência social, e que se inscreveram no programa de bolsas e auxílios, estão recebendo algum tipo de benefício social da Universidade". 

Desde 2011, a USP não aumenta o número de vagas nas moradias estudantis em São Paulo e nos câmpus do interior. Há sete anos, a USP oferece as mesmas 2.703 vagas. Questionada, não informou se pretende ampliá-las. O auxílio-moradia, um valor pago para que os estudantes possam alugar um lugar para morar, também não é reajustado desde 2013 e é de R$ 400. 

"Querem que a USP e a Faculdade de Direito sejam menos elitistas. Aprovaram as cotas e nós da escola pública chegamos aqui. Mas a universidade só vai deixar de ser elitista no dia em que nós tivermos as mesmas condições dos outros estudantes, que não tivermos que brigar para ter um lugar para morar", diz Araújo. 



 

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