A importância de ensinar as crianças a conviver com a diversidade

Enquanto o debate sobre a violência nas escolas se fechar em torno de questões policiais, muito pouco poderá ser feito eficientemente. É compreensível que tanta gente prefira abordar o tema por aí: é praxe cobrar ação de autoridades inoperantes e condenar as medidas repressivas que jamais darão conta desse caldo fumegante que transbordou das famílias.Tocar na raiz do problema é mais difícil e trabalhoso. Porque requer uma ação estratégica duradoura junto aos pais e educadores, em todas as camadas sociais. Controle sobre armas e combate ao tráfico, PM nos portões, e mesmo medidas contra o desemprego, redução da violência na TV, lazer nos bairros, punição aos corruptos e demais psicopatas poderosos, enfim, todas as iniciativas saneadoras e humanizantes são imprescindíveis, mas é preciso estabelecer alvos estruturais. Se a incapacidade de conviver com a diversidade é o explosivo desta bomba, então é aí que se deve aplicar o remédio mais forte. O ódio e a intolerância que se cultiva em casa e se permite nas escolas é a coluna-mestra onde se penduram o preconceito e o medo, forças que separam crianças e adolescentes em grupos e gangues de abandonados, acuados e raivosos, com um oceano de instrumentos perversos para concretizar seus pavores. Por isso os pais e educadores são a ferramenta tática mais importante para esta longa operação. Para isso, precisam de ajuda para mudar atitudes.Entre os pais, o grande desafio é reaprender a cuidar dos filhos, sem a estupidez do autoritarismo mas com regras claras e coerentes. Com limites afetivos. Terão de assumir de fato sua função de condutores do desenvolvimento emocional dos pequenos, frustrando seus impulsos e amparando-os na revolta, para torná-los capazes de transformar a raiva bruta em agressividade criativa, em energia do desejo. Nas escolas, a ação mais urgente é desarmar o preconceito. Não só aquele evidente e denunciável entre raças ou entre sulistas e nordestinos, mas o preconceito entre os simplesmente diferentes. O dos bons alunos contra os não tão bons, o dos craques contra os que não curtem futebol, o das panelinhas... E as possibilidades de combinação são enormes, pela própria diferença física: uns são altos e outros são baixos, alguns usam óculos... Outros nem são da escola e até são mais pobres... São inúmeras as formas de preconceito sutil, irônico, velado, socialmente aceito.Pessoas podem ter lá seus preconceitos, mas quando ele é notado e tolerado na omissão das instituições, legitima-se. É mais do que o ódio precisa para eclodir, seja em massacres ou em matanças e suicídios a conta-gotas. É assim nas agressões mútuas e bobagens fatais de todo dia. Educadores devem cuidar de suas crianças e adolescentes. Devem defender e valorizar quem é alvo de comparações e gozações, precisam estar atentos aos sinais de desmotivação, às manifestações de vergonha, irritação, raiva, medo... E intervir, mostrar presença ativa junto a eles, rejeitando o preconceito, amparando-os no desconforto dos pequenos conflitos, mostrando que são apenas e tão somente parte da vida. Enfim, as escolas precisam ajudar os alunos a assumir naturalmente os atritos que surgem das diferenças elementares. É o contrário do que tantas fazem hoje.Há um trabalho sistemático que tenta encobrir ou extingüir os conflitos, desde as creches e maternais. Isolam e rotulam os "briguentos", protegem os prodígios, formam turmas que estudam "sem criar problemas". Sem choques afetivos não há amadurecimento, e por aí se alimenta a raiva bruta. De quebra, cristalizam-se os grupos de "iguais", com exclusão, rejeição e a conseqüente rivalidade agressiva.É fundamental, portanto, que a escola seja também um lugar onde se constrói a capacidade de afeto e desejo. É indispensável rever a prioridade insana que se dá ao aprendizado intelectual, preparando para um mercado de trabalho ultracompetitivo blá-blá-blá... Crianças e adolescentes precisam de cuidados afetivos para aprender a viver, e não lhes dar isso é abandoná-los. Aí o vandalismo se alastra com suas tintas e bombas. É a resposta irada dos carentes - pobres e ricos - chamando para que alguém venha detê-los, falar com eles, sobre eles. E se vierem apenas pitos, grades e vigilância, eles certamente inventarão formas mais eficazes de denunciar sua miséria afetiva. Estão inventando.Eles pedem limites e apoio para encarar a frustração de cada "não". Porque querem se sentir cuidados e porque querem ser humanos. Seria mais fácil - e menos perigoso - se as ferinhas não chegassem tão selvagens às mãos dos professores. Mas não é assim. E por isso a escola precisa ser também um instrumento de orientação dos pais. Adultos envolvidos na educação das crianças e adolescentes, em casa ou na sala de aula, têm de estar sintonizados, têm de ser parceiros, com uma linguagem coerente, dando a segurança de que haverá sempre alguém cuidando, protegendo das agressões, ajudando a não revidar jamais, até sendo chato. É assim que se mostra a eles o poder maior do respeito humano e o prazer maior da convivência em meio às diferenças - que incomodam e enriquecem a vida. Essa é a noção básica que vai lhes revelar o ódio, o preconceito e a violência como algo sem sentido. Naturalmente.Texto originalmente publicado em 9/5/99

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