Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'A formação no Brasil é generalista'

Para especialista, ensino técnico garante eficiência, qualificação que será procurada como inovação

Entrevista com

James Wright, coordenador do Instituto Profuturo

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 05h00

A preparação para a busca de emprego em profissões do futuro começa agora. As tendências do mercado, de acordo com especialistas, apontam as qualificações que serão mais procuradas nos próximos anos. Em entrevista ao Estado, o coordenador do Instituto Profuturo, James Wright, defende que inovação e eficiência são dois dos principais caminhos para se ter sucesso nas novas carreiras. 

Quais carreiras estarão em alta nos próximos anos?

Na área de saúde, o envelhecimento da população exigirá novas especialidades: cuidados médicos de geriatria, de nutrição, de fármacos, de apoio social aos idosos, como aposentadoria. Até o sistema imobiliário deve ser coerente com as mudanças que estão acontecendo. O modelo tradicional que temos hoje de idosos serem cuidados pelos filhos não vai ser predominante por mais 20 anos. As famílias são menores, têm muitas separações. A célula familiar está se transformando. Essas mudanças requerem qualificações diferentes.

Em que outros setores deve haver expansão?

Outras áreas que crescerão são as de engenharia ambiental, relações internacionais, turismo, engenharia de alimentos, computação, farmácia, bioquímica e administração de empresas. O gerente de ecorrelações, ou de sustentabilidade, é um exemplo de carreira com caráter multidisciplinar. Esse profissional deverá fazer os aspectos ambiental, social e econômico funcionarem em linha. Há também o especialista em inovação e lançamento de produtos. Aquele que vai identificar uma necessidade do mercado, interagir com o engenheiro em um laboratório e lidar com os profissionais de marketing e do comercial para a venda do produto ao público final. Tem ainda a biotecnologia, associada à área farmacêutica, de interpretação de DNA, a criação de medicamentos sob medida e a telemedicina. Outro campo interessante é o da agroindústria, que ainda dará grandes saltos. 


Que tipos de conhecimentos serão necessários?

Qualquer solução duradoura virá somente com uma revolução do ensino fundamental. Precisamos formar jovens que saibam ler e interpretar textos e o ambiente em que trabalham. Na formação superior, precisamos buscar uma especialização maior. O sistema educacional brasileiro tende a enfatizar uma formação extremamente generalista, nas graduações de ciências, tecnologia, engenharia e saúde. Esse ensino consegue ser de alto padrão só em um número pequeno de universidades. Para formar profissionais mais qualificados, precisamos de formação mais especializada. Por outro lado, também é necessário formar uma nova categoria de profissionais interdisciplinares. Isso requer competência de articular vários campos de conhecimento. 

Alguns especialistas defendem uma formação generalista sólida, em que a especialização vem depois, segundo a demanda. Como o senhor avalia?

No Brasil, geralmente damos pouco valor à formação técnica e muito valor à formação superior generalista. O engenheiro recém-formado, que não sabe fazer nada específica e concretamente, agrega menos valor do que o técnico especializado. Isso está enraizado na nossa cultura. Uma solução para isso é formar engenheiros menos generalistas, com nível de formação técnica especializada, que possam produzir com eficiência desde o começo e, ao longo do tempo, fazer pós-graduações. Na China e na Alemanha, por exemplo, o engenheiro sai formado com uma especialidade. 

Quais as dificuldades das escolas para se ajustarem às demandas das carreiras do futuro?

Há interação bastante fraca com o setor produtivo. As universidades têm um viés acadêmico forte e a pesquisa aplicada não é valorizada adequadamente nos sistemas de progressão de carreira docente. Há também uma falta de visão de investimento em longo prazo das empresas. É mais fácil licenciar um produto do exterior do que investir em um projeto mais longo, brasileiro, que poderá render dividendos no futuro, por termos a tecnologia. Esse distanciamento é grande, e o resultado é um academicismo enorme. A internacionalização das universidades é outra necessidade. Evoluíram, mas com dificuldade. O Ciência sem Fronteiras (programa do governo federal que envia universitários para o exterior) é uma das iniciativas positivas. Mas o esforço de internacionalizar ainda é limitado.

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