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A escolha da escola

É preciso saber se ela vai formar uma geração para questionar, entender e mudar

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

A pandemia trouxe mais um componente para a tarefa de famílias da rede particular que precisam escolher uma escola para os filhos. Em 2020 e 2021, muitas instituições deixaram pais descontentes porque se atrapalharam para oferecer o ensino remoto, outras porque tomaram tempo demais dos adultos para dar conta de ajudar as crianças em tantas aulas online. E ainda houve as que demoraram mais para voltar ao presencial e também perderam alunos. 

Isso se soma às inúmeras questões que assolam a cabeça das famílias neste segundo semestre, quando começa o período de inscrições para matrículas para 2022. Realmente soa exagerado falar da escolha de escola particular como um grande problema, em um país com quase 600 mil mortos por covid, milhões de desempregados, aumento da fome, da desesperança e um presidente cuja lista de adjetivos ruins não tem fim. Sem contar um ministro da Educação que não acredita na educação.

Mas pais da classe média e alta – os que não foram para a rede pública por causa da crise econômica – perdem noites de sono questionando qual a melhor escola para o filho e a preocupação é legítima. A melhor dica, no entanto, é simples: a melhor escola em geral é aquela que a criança gosta de ir. Durante a pandemia, é aquela da qual o aluno teve saudade. E não é porque é “fraca”, “solta” ou “deixa brincar demais”, segundo imaginam alguns pais. 

Mas, quando as crianças gostam, é porque estão estabelecendo uma relação incrível com o conhecimento, ajudando a construir o próprio aprendizado. Fazendo amigos, se relacionando de forma saudável, com a mediação de bons professores. Mesmo que ainda não saibam ler aos 6 anos como o amigo da outra escola ou errem nas contas.

A pergunta principal é o que queremos com a aprendizagem dos nossos filhos. O objetivo é que eles entrem em uma ótima universidade logo ao sair do ensino médio? Ou que sejam verdadeiros cidadãos, prontos para os desafios no novo século, numa sociedade que valoriza cada vez mais as grandes ideias, mas preocupada com o bem-estar das pessoas, com o ambiente e em reduzir desigualdades?

Eu fico com a segunda opção. Teorias e evidências científicas já provaram que a educação não acontece como nas antigas escolas tradicionais (muitas que ainda estão por aí), em que o professor despeja informações como se fosse um Google piorado. 

Os alunos aprendem e são felizes quando refletem, opinam, confrontam as próprias crenças, colocam-se diante de desafios. Nesse processo, pode demorar mais para um do que para outro, mas eles vão escrever, vão ler porque gostam, vão adorar Matemática ou ter curiosidade natural pelas ciências. E vão se importar com as pessoas. 

Mesmo pais progressistas em tantas outras áreas às vezes questionam, por exemplo, quando não há muita lição de casa. Não confiam que a educação humana e desafiadora dá belos resultados. Com conteúdo, sim, mas onde ele não é mais importante. Com provas, sim, mas com menos treino e mais avaliações durante todo o processo.

Ao optar por uma escola ou outra é preciso entender qual está preparada para formar uma geração que vai questionar, entender – e mudar. Fale com a diretora, mas também conheça as famílias que já estão lá.

Claro que sempre vai ter aquele amigo que diz: “Todos nós estudamos em escolas tradicionais, puxadas, conteudistas, e estamos ótimos”. Não, não estamos. A situação atual do País deixa claro que a sociedade brasileira precisa de uma educação melhor. Devemos desesperadamente investir mais na educação pública para os pobres, com os mesmos objetivos. Mas a elite, que tem o privilégio de fazer sua escolha, também tem muito o que melhorar.

É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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