A equação do clima

Meteorologia e climatologia usam matemática para decifrar o tempo de amanhã ou do futuro distante

Carolina Stanisci e Paulo Saldaña, Especial para o Estadão.edu

23 Fevereiro 2010 | 00h03

O que para a maioria das pessoas é outra chuva forte de fim de tarde, trazendo o risco de enchentes na volta para casa, para eles é mais uma variável numa equação que vai prever o tempo da semana que vem ou o clima na virada do século. Na carreira dos profissionais do clima, é preciso ser bom de cálculo e ótimo observador para lidar com uma avalanche de dados numéricos sobre variáveis como chuva, vento, temperatura, umidade e pressão.   Saiba mais:  Sob chuva e (muita) pressão  Onde estudar meteorologia  Física aplicada  Evitando tragédias   Processadas por supercomputadores, informações coletadas por satélites sofisticados, radares ou até simples termômetros se transformam literalmente em equações matemáticas. Esse processo complicado gera projeções, gráficos e mapas. Cabe a meteorologistas e climatologistas decifrá-los e elaborar boletins prevendo se vai fazer sol no feriado ou relatórios sobre o aquecimento da Terra.   Na interpretação dos dados, a experiência conta muito. "Todo mundo recebe os mesmo modelos, mas quem faz a previsão é o meteorologista", diz Fabiana Weycamp, da empresa Climatempo. Mesma opinião tem o professor da pós em Meteorologia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Nelson Jesus Ferreira: "Imagem não faz previsão do tempo. Quem interpreta tem que entender de modelos, de números."   Imagens de satélite são essenciais para tornar previsão mais precisa   Lidando com os mesmos dados e enfoques diversos, climatologistas e meteorologistas muitas vezes têm formação diferente. Para fazer previsão do tempo, é preciso ter curso superior em Meteorologia. Já os climatologistas podem vir de outras áreas – desde que façam a pós-graduação em Meteorologia com especialização em climatologia.   "Somos como médicos, mas com especialidades diferentes, fazendo diagnósticos diversos", diz o climatologista Gilvan Sampaio, de 39 anos. Há 15 anos ele trabalha no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe, em Cachoeira Paulista, no Vale do Paraíba.   Sampaio, formado em Meteorologia na USP, é mestre em climatologia pelo Inpe. No órgão, ele faz projeções climáticas – traduzindo o jargão: prevê o clima no futuro. "Passo a maior parte do meu dia em frente ao computador analisando dados por meio de mapas e cálculos." Ele procura descobrir o impacto do desmatamento e queimadas no clima para revelar, por exemplo, como será a região da Amazônia daqui a 30 anos. Para meteorologistas que trabalham com previsão do tempo no CPTEC, o horizonte é muito mais próximo: passados cinco dias, a previsão começa a perder confiabilidade.   Alguns aliam a pesquisa à prática, como Caroline Vidal, de 27 anos. Ela chegou a Cachoeira Paulista no ano passado para o mestrado em climatologia, para investigar ciclones extratropicais. Em janeiro, entrou na equipe de previsão de tempo do CPTEC.   "Quando era só pesquisadora, eu me considerava uma estudante. Aqui, eu vejo tudo acontecendo", diz. "Ver tudo acontecendo" é uma frase recorrente na sala da equipe formada por três técnicos em meteorologia e sete meteorologistas que se alternam em três turnos de seis horas por dia – aos sábados, domingos e feriados também.   A primeira turma chega às 6 horas. Após observar cinco telas de computador com informações sobre tempestades, ventos e outras variáveis, o grupo analisa desenhos que representam a atmosfera em altitudes variadas, as cartas sinóticas. Depois disso tudo, divulgam os boletins.Grande parte dos dados recebidos no CPTEC vêm das 812 estações de previsão do tempo convencionais e automáticas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). "Existe uma política internacional, comandada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que é aplicada ao Brasil também", explica Luiz Cavalcanti, 53 anos, chefe do centro de análise e previsão do tempo no Inmet.   O Brasil envia dados regionais do clima a Washington e recebe informações da capital americana e do mundo inteiro. "O clima não tem fronteira, a gente precisa dos dados dos países vizinhos para fazer a previsão", diz Cavalcanti.   Evasão Como há apenas nove cursos de Meteorologia no País – todos em universidades públicas –, o grupo do CPTEC é formado por profissionais de diversos Estados. Caroline se formou na Universidade Federal do Rio. Completam o turno da manhã Naiane Araujo, de 29 anos, da Federal de Pelotas (RS), Kelen Andrade, de 34, da USP, e Olívio Bahia Neto, de 41, da Federal do Pará.   Desde a faculdade, os profissionais têm de provar ser bons com números. "A gente tem muito cálculo e física", conta Kelen. Muitos desistem. Kelen lembra que na sua formatura, no fim dos anos 90, só restavam 10 dos 20 colegas do primeiro ano do curso.   Além de ser pouco procurada (na Fuvest de 2010 foram menos de 5 candidatos por vaga), a Meteorologia é geralmente a segunda opção dos vestibulandos. "No fim, entram alunos que não têm a melhor formação e começam a encontrar dificuldade de acompanhar o curso", diagnostica o presidente da Comissão de Graduação do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Amauri Pereira de Oliveira.   O professor Ferreira, do Inpe, lamenta a alta taxa de evasão dos alunos. Para ele, muitos chegam ao curso achando que é parecido com geografia e se assustam com os cálculos exigidos. "Para ser um bom meteorologista, é preciso ser bom observador, gostar de informática e de estatística", enumera. "A profissão também demanda muita paixão."   Apaixonado pelo trabalho, o grupo do CPTEC lamenta quando, mesmo avisando a Defesa Civil em caso de chuvas fortes, acontecem tragédias como os deslizamentos que mataram mais de 50 pessoas em Angra dos Reis, no Rio.   "É uma super responsabilidade mandar os avisos para a Defesa Civil. A gente manda quando tem tempestade, e a Defesa dá os alertas. Mas não tem como a gente definir se o morro X ou Y vai cair", diz Naiane. Para Bahia Neto, o Brasil ainda não tem uma cultura de precaução. "Nem sempre a população sai das casas", concorda Naiane.   Iniciativa privada Como a oferta de especialistas não é alta, o mercado profissional é variado. Além de órgãos governamentais como CPTEC e Inmet, os formados também podem trabalhar em empresas como a Climatempo e a Somar. "Ao contrário de outros ramos, é comum a gente ter a vaga e não encontrar uma pessoa", diz Alexandre Nascimento, da Climatempo, que tem uma carteira de 2 mil clientes dos ramos da construção, energia, agronegócio, entre outros.   A preocupação nesses centros é adaptar a previsão às necessidades do cliente. "Uma forte ventania pode não ser problema para uma obra rodoviária, mas pode prejudicar uma empresa de energia", diz Nascimento.   O desafio de usar a matemática para decifrar a natureza animou Lucas Paiva, de 18, a fazer o curso de Meteorologia. "Engenharia é uma carreira já saturada. Acho que, com as notícias de aquecimento global, a área vai ganhar cada vez mais importância", aposta o calouro da USP.

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