A dura escolha de quem escolheu mal

Não é fácil tomar a decisão de desistir da faculdade. Depois do esforço para entrar num curso concorrido, após anos de estudos, qualquer um se frustra ao se dar conta que está na carreira errada. A sensação de tempo perdido, a cobrança da família, a insegurança para saber se desta vez vai acertar na escolha somam-se à ansiedade natural de todo vestibulando.Carina Pedro (foto), de 22 anos, já passou por essa situação duas vezes ? abandonou as faculdades de Arquitetura e Rádio e TV. Hoje, estuda História na Universidade de São Paulo (USP) e tem certeza de que, desta vez, vai até o fim.VantagensMesmo tendo contado com o apoio dos pais nas horas difíceis de (in)decisão, ela acha que a pressão fica maior para quem já havia passado no vestibular: ?No segundo ano em que fiz cursinho, parei de sair como antes, dediquei mais tempo ao estudo.?Por outro lado, fazer várias provas teve vantagens para Carina. ?Ao mesmo tempo em que sentia o peso maior da responsabilidade, da última vez em que fiz vestibular fiquei mais confiante e com maior domínio da matéria.?A estudante confessa sentir uma ?certa angústia? ao ver os antigos colegas já formados ou para se formar, enquanto ela ainda está na metade do caminho. ?Mas não acho que foi tempo perdido, valeu por tudo que aprendi?, afirma.Várias escolhasEncarar as passagens pelas diferentes carreias como experiência e não como erro é um dos melhores caminhos para evitar o nervosismo à beira do novo vestibular, aconselha o psicólogo do Cursinho da Poli, André Meller. ?Não existe certo e errado, existe o mais adequado naquele determinado momento?, afirma Meller. ?A questão profissional é uma escolha que você vai fazer várias vezes durante toda a vida?, completa.Supervalorizar o curso universitário também contribui para aumentar desnecessariamente a ansiedade. Segundo o psicólogo, a faculdade deve ser colocada dentro de um projeto maior de vida, em vez de ser o único projeto.Para não ficar pingando de curso em curso, o vestibulando precisa passar por dois processos antes de escolher a carreira que vai seguir: autoconhecimento e informação.Projeto de vidaPrimeiro, é preciso dedicar um tempo para refletir sobre seu projeto de vida, que tipo de rotina prefere, com o que gostaria de trabalhar, onde gostaria de morar Depois de se conhecer, chega a hora de investigar a profissão e o curso.Quem vai passar quatro, cinco ou seis anos em uma faculdade deve pelo menos saber que disciplinas tem pela frente. Levantar como são os estágios e empregos da área também faz parte das ações necessárias para avaliar se a carreira se encaixa no seu perfil.Muitos abandonos, afirma Meller, são causados porque os alunos tinham uma imagem errada da profissão. ?Eles vêm na TV o médico rico, cheio de prestígio, e não sabem que o médico recém-formado dá cinco plantões de 12 horas por semana, quase sempre em periferia.?CobrançaFoi pensando em como gostaria de se ver no futuro que Bruno Eduardo Saito, de 19 anos, resolveu abandonar a Administração para tentar a Medicina. ?Não conseguia me ver como um administrador ou engenheiro, mas como médico sim?, afirma.Agora, às portas do segundo vestibular, Saito sente a cobrança por causa de sua decisão. ?A família inteira era contra eu abandonar a Administração, por isso tenho a obrigação de passar?, avalia. Apesar da pressão, ele diz que prefere enfrentar tudo de novo a continuar um curso no qual estava infeliz.O estudante diz ter prestado Administração por influência de colegas. ?Mas aquilo não tinha nada a ver comigo.? leia também Há desistências até nas universidades mais concorridas

Agencia Estado,

08 de novembro de 2003 | 15h15

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