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'A dica para quem vai ingressar na faculdade é estar aberto às transformações do mundo'

Segundo especialista, cenário em constante mudança cria necessidade de evolução frequente, tanto em termos profissionais quanto pessoais

Entrevista com

Cynara Bastos, supervisora do Ibmec Carreiras

Alex Gomes, Especial para o Estadão

31 de maio de 2021 | 05h00

A beleza de ser um eterno aprendiz. A ideia que ecoa na frase imortalizada na voz de Gonzaguinha é exatamente o que tem orientado cada vez mais o meio acadêmico e o mercado de trabalho. O assunto do momento é o Lifelong Learning – um nome gringo e formal para o que o poeta já cantou.

No Brasil, o Lifelong Learning também é conhecido como educação continuada e trata essencialmente de manter-se atualizado e em constante processo de aprendizado. Isso envolve ter a mente aberta e a curiosidade ativa, bem como ter a humildade de entender que nunca saberemos tudo, que vamos viver aprendendo.

“A dica para quem vai ingressar na faculdade é estar aberto às transformações do mundo, um cenário mutante que a cada dia precisa de novos acrônimos para ser definido”, afirma Cynara Bastos, supervisora do Ibmec Carreiras. Ela lida diretamente com o direcionamento e a orientação profissional dos alunos do Ibmec. Na entrevista a seguir, Cynara aborda as características e os desafios da educação continuada.

O que um estudante de graduação pode fazer para já adotar o Life Long Learning?

Conversamos muito com alunos, mesmo os do ensino médio, que estão escolhendo as graduações. Digo que no passado havia a ideia de que o estudante iria estudar, se formar e assim estar pronto. Isso mudou. O mundo nos desafia a rever nossas formações, entender os principais desafios da área de atuação. A dica para quem está em um curso superior ou vai ingressar na faculdade é estar aberto às transformações do mundo, um cenário mutante que a cada dia precisa de novos acrônimos para ser definido, como o VUCA, que na tradução para o português se refere a Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade. Isso nos desafia a perceber que temos de aprender continuamente, rever crenças e ideias tidas como imutáveis nas carreiras. Veja, por exemplo, o Direito, uma área tão tradicional, mas ao mesmo tempo com diversas mudanças, principalmente com o uso da tecnologia nos processos. Na Medicina, temos novidades revolucionárias, como as cirurgias remotas. Isso mostra ao jovem que é preciso romper com ideias preconcebidas. 

Há alguns temas que poderiam ser tidos como de utilidade geral, que todos deveriam aprender?

É sempre bom estudar temas de relevância universal, como a economia e o design thinking. O objetivo deve ser tornar- se um profissional T shaped. O termo é explicado a partir da imagem da letra T. O traço vertical do caractere seriam os conhecimentos da área de atuação, já os outros saberes diversos que agregam um diferencial são representados na barra horizontal, do topo.

Como as empresas podem contribuir para estimular a cultura da formação continuada?

Primeiramente, devem ter a cultura do desenvolvimento e investir nisso. Promover ações que instiguem as pessoas a buscar mais saberes, incluir isso no plano de desenvolvimento individual, o PDI, dos colaboradores. Vale também desafiar os times a se relacionarem com outras áreas da empresa, contribuindo uns com os outros e expandindo o aprendizado. Quando os profissionais convivem com outras áreas, o interesse pelo conhecimento é estimulado. A empresa também pode criar plataformas de aprendizado que facilitem o acesso aos conteúdos e tenham recursos que instiguem as pessoas a ir além dos temas que já são de interesse. Os colaboradores podem ser motivados a ensinar. Quando mostram os talentos para o grupo, mesmo o pouco que sabem pode gerar um compartilhamento valioso que gera engajamento.

Educação continuada pressupõe aprender sempre. Academicamente, é possível estabelecer um cronograma para esse aprendizado? Quando se deve priorizar uma pós ou um curso livre, por exemplo?

Acredito que sim. À medida em que se vai avançando na carreira, nas experiências de mercado, vão surgindo novos interesses, que não necessariamente estão vinculados a uma pós-graduação. Então é importante ter em mente, primeiro, o que a pessoa quer, quais são as opções disponíveis, quais cabem no seu bolso. É preciso também saber o que se almeja com o curso. Algumas vezes, será suficiente um curso mais curto, de extensão. Em outras, é necessário um aprofundamento maior, que será adquirido em uma pós-graduação. Tudo deve estar dentro de um planejamento de carreira mais amplo. Por exemplo: uma pessoa que acabou de concluir a pós pode esperar para ver como estará sua situação e seu interesse após um tempo, uns dois anos, para aí decidir o que estudar. Outra pode se comprometer a aprender algo novo a cada seis meses. É uma decisão pessoal. De toda forma, é importante que as pessoas também tenham compreensão do tempo de aprendizado. Aprender continuamente não significa que o avanço na carreira será meteórico. Nem tudo será fast. No geral, a pessoa tem de ter planos e metas de desenvolvimento, fazer uma reserva financeira, ter tempo para se dedicar, com energia psíquica e física, avaliar as opções. Vale também conversar com pessoas que já estudaram os cursos de interesse. Isso ajuda muito na decisão.

E como estabelecer a cultura do aprendizado em meio a propagação do falso aprendizado, com as fake news?

Há um tempo, escrevi um texto sobre o conforto cognitivo, uma expressão utilizada pelo economista Daniel Kahneman no livro Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar, no qual falo sobre quando temos familiaridade e conforto com um tema e a tendência é tomá-lo como uma verdade. Um dos grandes perigos das fake news é justamente proporcionar um conforto cognitivo, que leva as pessoas a acreditar nelas. Sendo assim, temos de considerar o valioso valor da dúvida. Questione primeiro e pesquise muito. 

O lifelong learning colabora para um processo de aprendizado mais personalizado, não é? Quais são as vantagens disso?

Casa com a ideia de que somos cada vez mais livres para fazer nossas escolhas, de acordo com o que faz sentido para cada um. Eu, como psicóloga, decido estudar neurociência, porque tem a ver com meus anseios e planos e também posso estudar economia. E posso fazê-lo em suas diversas modalidades, o que é muito interessante. Mas há os riscos também. As opções são inúmeras, mas nem todas são boas escolhas, porque há muita oferta, de diversas escolas, nem sempre qualificadas para tal. Daí a importância de conhecer bem a escola ou empresa e tentar conversar com pessoas que já fizeram o curso.

A bonança financeira e o reconhecimento profissional são levados muito em conta no momento de direcionar o aprendizado. Como incluir a felicidade e o bem-estar nesse processo? 

Quando pensamos em nossa carreira, a felicidade é uma parte fundamental. Estamos acostumados a diferenciar a vida profissional da pessoal, mas a vida do ser humano é uma só. Acho que a felicidade na carreira envolve ver primeiro quem você é, seus anseios e o que justamente é a felicidade para você. A ideia não tem o mesmo sentido para cada um. Precisamos de uma jornada na qual encontramos satisfação. Não tem essa de que depois de atingir o sucesso iremos ser felizes. É um mito que nos iludiu. Só vou ter sucesso se eu for feliz. 

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