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'A conectividade é um direito', diz representante da Unesco no Brasil

Para especialista em educação, é necessário discutir políticas públicas que contemplem o ensino remoto e o híbrido

Entrevista com

Marlova Jovchelovitch Noleto

Alex Gomes e Ocimara Balmant, especial para o Estadão

24 de setembro de 2021 | 05h00

A inclusão digital é um direito fundamental dos estudantes, principalmente após a experiência que tivemos com a pandemia. É o que afirma Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil. “A ONU defende que a conectividade é um direito desde 2012. Por isso, o que precisamos é, de fato, um retorno às salas de aula e investimentos em mecanismos que permitam pensar em formato híbrido. Após 52 semanas com escolas fechadas, o momento é de rever os currículos, (de fazer) planejamento escolar e investir em programas que apoiem os alunos dentro e fora da escola.” Confira a entrevista completa.

Quais os principais desafios do Brasil em relação à conectividade?

O Brasil tem um grande problema de conectividade. A pesquisa TIC Domicílios (feita pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil), apontava, em 2019, que 28% dos lares no Brasil não tinham acesso à internet, aproximadamente 20 milhões de domicílios. Nas favelas, conforme dados da Central Única das Favelas (Cufa), há um imenso desafio para ter conectividade, pela carência de equipamentos e pacotes de dados nas famílias. Em muitos lares brasileiros, vários filhos têm de dividir o mesmo celular dos pais para assistir às aulas. Então, estamos falando de uma desigualdade muito profunda para os jovens que estão menos favorecidos nessa escala de distribuição de riquezas. Estudantes de classe média têm outro tipo de acesso.

Quais critérios podem ser adotados para um modelo de ensino que inclua o uso de tecnologia?

Temos de estar atentos à disponibilização de equipamentos adequados e à capacitação dos professores. Vemos muitos educadores tendo de usar seus próprios equipamentos e pacotes de dados; tiveram de improvisar. Temos de discutir políticas educacionais que contemplem o ensino remoto e o formato híbrido. Mas é preciso considerar as diferenças e combater as desigualdades. A Unesco fez dez recomendações sobre o ensino a distância, nas quais sugere aos países escolher as tecnologias mais adequadas de acordo com os serviços de comunicação de cada região. A proposta aqui é lembrar a necessidade dos programas serem inclusivos, com formatos que priorizem os calendários de forma eficiente, que apoiem os pais e professores no uso da tecnologia, e com regras para avaliação dos alunos. Não é só abrir uma câmera e o professor falar. A didática precisa ser respeitada; a conectividade tem de estar garantida.

Você pode citar exemplos no País de bom uso dos recursos digitais na educação?

Temos casos exemplares, como o Paraná, em que foi desenvolvido um programa no qual os alunos têm aulas por um aplicativo e em canais de TV. São Paulo investiu no ensino híbrido, com auxílio a professores e estratégias voltadas à implantação. No Piauí, temos a cidade de Oeiras, muitos dizem que é a Finlândia Brasileira: com boas práticas de gestão, é referência no ensino público de qualidade e está investindo no ensino híbrido. A cidade contempla a participação das famílias na educação, a valorização dos professores e o incentivo à leitura.

De forma geral, como a Unesco pensa o papel da escola na sociedade?

Para a Unesco a escola é um território sagrado, não apenas o locus privilegiado dos processos cognitivos. Representa uma parte fundamental da rede de proteção social. Quando os alunos estão em sala de aula, casos de depressão, violência doméstica e abuso sexual diminuem. Consideramos o papel da escola relacionado aos quatro pilares da educação para o século 21, elaborados pelo professor Jacques Delors: aprender a ser, a conhecer, a fazer e a viver juntos. Crianças fora da escola estão perdendo essas quatro dimensões. 

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