Arquivo Pessoal
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A classe C cruza a fronteira

Programas de intercâmbio entram no radar de jovens das classes médias da população, às custas de algum sacrifício e muita ambição

Carlos Lordelo e Cedê Silva, Estadão.edu

13 Dezembro 2011 | 02h23

O garoto sorridente em Times Square na foto ao lado não é mais um brasileiro que aproveitou as férias de fim de ano para fazer compras em Nova York. Filho de taxista com dona de casa, Caio Allan dos Santos, de 17 anos, economizou o salário de auxiliar administrativo e, com ajuda do pai, chegou aos EUA há dez dias para estudar inglês. Foi o primeiro da casa a viajar de avião, o que, por si só, já é motivo de orgulho para uma típica família da classe C.

“Posso fazer outras mil viagens, mas não tem como esquecer desta. Até dos momentos burocráticos, como tirar visto”, diz Caio, que volta ao Brasil no dia 24. O estudante acaba de concluir o ensino médio em uma escola estadual da zona leste de São Paulo e passou no curso de Administração com ênfase em Comércio Exterior da Universidade São Judas.

Caio precisou convencer a mãe da importância do intercâmbio, já que, para ela, o investimento de R$ 8 mil era “absurdo”. “Falei que meu objetivo não era passear, mas estudar”, conta o garoto, aluno de um cursinho de inglês há três anos. Para ele, o intercâmbio pode ser um aliado no objetivo de “trabalhar numa multinacional.”

A possibilidade de fazer cursos no exterior começa a se tornar acessível para jovens de famílias com renda entre R$ 1.200 e R$ 5.174 (definição da Fundação Getulio Vargas para a classe C). Os motivos vão do real valorizado às facilidades de parcelamento.

Segundo Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da FGV, pesquisas mostram que, quando a família sobe da classe D para a C, os gastos com turismo triplicam, enquanto os com alimentação duplicam. “Mudar de classe implica mudar de aspirações. As pessoas da classe média usam o poder de compra para estudar no exterior, e não trabalhar, porque veem a educação como mecanismo de ascensão social.”

“A classe C está sentindo uma necessidade de qualificação e tem acesso ao crédito com muita facilidade. O programa de intercâmbio pode ser vendido em várias vezes sem juros”, diz Marcelo Albuquerque, diretor da IE Intercâmbio. Segundo ele, quando a agência abriu as portas, há 14 anos, as classes A e B representavam 80% do faturamento. Agora a liderança é da C, com 55%.

“Fiz intercâmbio nos anos 70, quando poucas pessoas tinham acesso. Meus pais fizeram um baita sacrifício: da minha turma só fui eu. Hoje 20 amigos do meu filho já fizeram alguma viagem desse tipo. Não tem mais números pequenos”, diz Maura Leão, presidente da Belta, entidade que reúne agências de intercâmbio do País. “A classe C tem mais acesso à informação, consegue se planejar. Tem servidor público mandando filho para o exterior.”

A funcionária pública baiana Márcia Brito Silva, de 53, guardou dinheiro por três anos para que o filho pudesse fazer intercâmbio em Toronto. “Quando contei para minha família que Matheus ia estudar no Canadá, ficaram encantados. Só duas primas tinham ido ao exterior, para a Disney.”

Matheus, hoje com 17, ficou fora do País de novembro do ano passado a fevereiro. Estuda inglês desde os 14 em um dos melhores cursinhos de Salvador, com bolsa integral, por ter se destacado na escola pública. 

Matheus aproveitou para conhecer outras cidades; na foto, ele enfrenta o frio em Quebéc

“Tinha muita vontade de mandá-lo para um intercâmbio, mas aquilo parecia distante”, lembra Márcia. Soube que o investimento valeu a pena no dia em que falou por Skype com o filho e a família canadense que o abrigou. “Foi gratificante vê-lo intermediar a conversa, traduzindo. Eu só conseguia dizer ‘Thank you very much’ e ‘I love you’ para o pessoal.”

Matheus, claro, não cansa de agradecer à mãe. E também ao pai, pintor, que o ajudou mandando dinheiro para comprar roupas de frio. “Fui um adolescente e voltei um rapaz maduro e independente”, diz o estudante, que vai fazer cursinho e tentar vaga em Engenharia Civil na Federal da Bahia. “Depois que estiver trabalhando, vou aproveitar as férias para fazer outros intercâmbios.”

Trigêmeas

Para Santuza Bicalho, diretora executiva da agência STB, clientes com o perfil de Márcia ainda são exceção. “As pessoas dessa faixa de renda que fazem intercâmbio ou são muito organizadas, ou investiram na realização de um sonho.” Mas projeções da empresa indicam que a demanda das camadas médias por intercâmbio chegará com mais força ao mercado dentro de 3 a 5 anos. “Haverá um movimento natural de pessoas que primeiro vão consumir turismo e, depois, programas como cursos de idiomas de curta duração ou de trabalho no exterior.”

Santuza aposta no programa de Au Pair para atrair jovens da classe C. Nos Estados Unidos, essa modalidade, regulada pelo governo, é exclusiva para garotas de 18 a 26 anos, que trabalham como babás por um ano. Na STB, as interessadas pagam US$ 980, e recebem US$ 195,75 por semana de trabalho. Como moram com famílias, praticamente não têm gastos.

Em 2007, Vanessa Fernandez começou a fazer cursinho de inglês e soube pela professora do programa de au pair. Viu que cumpria parte dos pré-requisitos. Entre eles o de ter experiência comprovada com crianças. Vanessa foi babá aos 15 anos em Artur Alvim, zona leste de São Paulo, onde morava com a mãe, pensionista do INSS, e trabalhou numa escola infantil antes do último emprego aqui, em um call center.

Religiosa, Vanessa acredita que recebeu um “sinal” da hora de ir ao conhecer a história das crianças que desde janeiro deste ano estão sob seus cuidados, na Carolina do Norte. São trigêmeas nascidas na mesma data da morte do pai da brasileira. Vendeu o carro, investiu o dinheiro e só pretende resgatá-lo quando voltar ao Brasil, com o objetivo de fazer uma pós – ela é tecnóloga em Marketing. 

Vanessa (em pé) com a host family; trigêmeas tinham 2 meses quando ela chegou aos EUA

 A au pair chegou aos EUA a uma semana de completar 27 anos e elogia a host family, um engenheiro e uma conselheira escolar que têm outro filho, de 3 anos. “Meu horário de trabalho é das 7h30 às 16h30. Depois posso fazer o que eu quiser. Meu foco é estudar e aproveitar. Não vim guardar dinheiro.”

Vanessa fez vários pequenos cursos: de inglês como segunda língua (ESL), para melhoria do sotaque e um preparatório para o exame de proficiência Toefl. Nos 15 dias de férias aos quais as au pairs têm direito, viajou com babás brasileiras para cidades como Los Angeles e Washington e países como Bahamas e Porto Rico.

Vanessa pediu à agência que gerencia as babás nos EUA para trabalhar mais um ano, em outro Estado. Quer cuidar de crianças mais velhas, para ter mais contato com a língua. E fazer cursos livres de marketing, negócios ou inglês em universidades. “Achava que intercâmbio não era para mim. Mas fiz um investimento pequeno para aprender conhecer outra cultura, viajar e amadurecer.” 

 

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