A ‘camarotização’ da Fuvest

'São poucos os alunos que terão direito a usar o crachá ou o abadá que lhes darão acesso ao "camarote" da USP', diz professor

Gilberto Alvarez, O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2015 | 16h37

A “camarotização” – tema cobrado aos alunos na prova de redação da Fuvest – caiu como uma luva para descrever a imagem de um dos mais concorridos vestibulares do País e que dá oportunidade de ingresso à maior universidade pública do Brasil, a USP. O termo foi usado pela banca examinadora para descrever o crescente fenômeno de segregação social do acesso a determinados espetáculos públicos.

Orgulho da elite paulista, a Universidade de São Paulo sempre se caracterizou pela profunda elitização. Para início de conversa, a taxa de inscrição no vestibular da Fuvest 2015 foi de R$ 145,00. E os exames são concebidos de forma a que só os privilegiados que cursaram os caríssimos colégios particulares conseguem passar. São poucos, muito poucos, os alunos que terão direito a usar o crachá ou o abadá que lhes darão acesso ao “camarote” da USP.

O tema para a redação deste ano usou como base um texto que cita os estádios de futebol como exemplo. Ele diz que no passado os estádios de futebol eram mais “democráticos”, pois não havia diferença entre os assentos. Hoje, ao contrário, os endinheirados têm o direito de usar camarotes e áreas VIPs. O texto não fala, mas o mesmo fenômeno ocorre no carnaval de Salvador, na Bahia, e nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Ao contrário da Fuvest, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) oferece uma gama de oportunidades aos estudantes que se submetem ao seu crivo. Os números do exame são muito interessantes e mostram uma nova realidade do Brasil. Nada menos que 8,7 milhões de alunos fizeram a prova no final do ano passado. O Enem se consolidou como ferramenta que abre oportunidades aos jovens e promove a democratização do acesso a programas federais.

A nota obtida no Enem é critério de acesso à educação superior, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e do Programa Universidade para Todos (ProUni). É também requisito para obtenção do benefício do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e para participação no programa Ciência sem Fronteiras.

Além disso, houve grande adesão de instituições públicas ao Enem. As 59 universidades federais do país utilizam o sistema; 50 delas aderiram ao Sisu. Há cinco anos, o Enem era critério de seleção exclusivo para acesso a 45 mil vagas da rede pública. No ano passado, esse número chegou a 171 mil.

O Brasil mudou. A educação superior no país deu uma guinada nos últimos dez anos. De acordo com dados do IBGE, a participação dos mais pobres na universidade cresceu quatro vezes entre 2004 e 2014. Na outra ponta, os mais ricos deixaram de ser maioria entre os estudantes da rede, no mesmo período.

O estudo “Síntese de Indicadores Sociais 2014”, que leva em conta o rendimento mensal familiar per capita, aponta que em nove anos o acesso dos com rendimentos mais baixos saltou de 1,7% para 7,2% em universidades administradas pelo Estado. Nas particulares, a fatia desses alunos mais que dobrou. Se, em 2004, os 20% mais pobres representavam 1,3% dos estudantes, em 2013 alcançavam 3,7%. Já os 20% mais ricos foram de 55% para 38,8%, no ensino superior público; e de 68,9% para 43%, no privado.

Em outras palavras, o Brasil de hoje ampliou as oportunidades de acesso ao ensino superior. Os mais ricos, que eram ampla maioria em 2004, passam a ter participação menor. Houve um aumento de vagas, cotas e crédito educativo que fez crescer a participação dos mais pobres.

Voltando à Fuvest, o que não se entende é porque a USP teima em manter sua política de fazer um exame unicamente para ela. Por que não se criar um sistema unificado de vestibular que dê acesso a todas as universidades públicas do Estado (USP, Unesp e Unicamp)? Ou por que não aderir ao Enem como prova de ingresso de novos alunos?

O reitor da universidade, Marco Antonio Zago, deixou vazar para jornalistas de que tem simpatia pela segunda proposta. No início do segundo semestre do ano passado, a USP começou uma consulta informal sobre a adoção de novas alternativas, além da Fuvest. Mas o processo ainda peca pela lentidão.

No caso, se pretende escolher os alunos mais preparados para ingressar na universidade, nada melhor que a USP optar pelo Enem. Um exame do qual participam alunos de todo o país; que este ano teve mais de 8 milhões de candidatos. Muito diferente da Fuvest, que escolhe seus futuros estudantes num universo de apenas 140 mil alunos.

No Brasil de hoje não há mais lugar para regras elitistas que permitem o uso de abadás e crachás para ingresso nas universidades públicas e privadas.

Gilberto Alvarez é diretor do Cursinho da Poli, de São Paulo, e presidente da Fundação PoliSaber

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