A arquitetura escolar e seu papel no aprendizado

Para professora da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, o espaço físico da escola funciona como um "terceiro professor", influenciando a forma como as pessoas convivem e estimulando o ensino

Entrevista com

Doris Kowaltowski

Isabela Palhares, O Estado de São Paulo

25 Fevereiro 2018 | 03h00

Como a arquitetura e a organização física de uma escola podem influenciar o aprendizado dos alunos? Segundo Doris Kowaltowski, professora da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, o ambiente escolar funciona como o "terceiro professor". O espaço físico influencia a forma como as pessoas convivem nele e também estimula e facilita o ensino. Para Doris, o projeto arquitetônico deve dialogar com a pedagogia da escola e a construção dve ser feita em parceria com a comunidade escolar. 

Como o espaço escolar pode influenciar no aprendizado do aluno?

Já temos pesquisas que demonstram a importância da percepção de que há valorização naquilo que é oferecido para que o aluno também o valorize. Se o aluno percebe que o prédio é bem cuidado, que funciona bem, tem um atrativo, isso cria uma percepção positiva e ele vai se dedicar muito mais à atividade que aquele prédio propõe que é o ensino, o aprendizado. Se o jovem se sente seguro, ele pode desligar dos problemas e se dedicar aos estudos. 

A segurança psicológica proporcionada pelo prédio também é muito importante e vem de vários fatores. Se um prédio é confuso, mal cuidado, com muitas grades, o aluno vai se sentir inseguro. Ele precisa dessa segurança porque está longe de casa, dos pais, dos irmãos, dos parentes. O que também faz diferença é a sensação de bem estar naquele lugar. Se está muito calor ou muito frio, se o estudante precisa segurar as folhas do caderno para não voarem ou se não enxerga por causa do sol, ele não consegue se dedicar e se concentrar no ensino e não vai aprender tudo o que poderia. 

Uma pesquisa de 2015 feita na Inglaterra comparou escolas bem cuidadas, bem construídas arquitetonicamente com aquelas menos cuidadas. Eles analisaram os resultados dos alunos dessas escolas em uma mesma prova de matemática e inglês e viram que, nas escolas que ofereciam um bom ambiente, as pontuações eram 25% maiores. Se o trabalho de um arquiteto consegue melhorar as notas dos alunos, isso justifica a nossa profissão. 

A senhora falou da presença de grades nas escolas. Como esse tipo de recurso pode impactar no ambiente escolar e na percepção do estudante?

A gente vive em uma sociedade complicada, temos muita violência, insegurança física. Como um diretor vai se proteger contra esse ambiente adverso? Ele tem responsabilidade por essas crianças e jovens e por aquele espaço. Se o arquiteto não oferece uma estrutura em que os professores e funcionários se sentem no controle, eles vão colocar grades, portões, muros altos. Essa é a nossa resposta para a violência, mesmo que nem sempre funcione. Se o arquiteto não resolve o problema de maneira inteligente, o diretor vai colocar grades em vários locais com a impressão de que isso aumenta a sensação de segurança. 

Quais são os principais aspectos a serem levados em conta na construção de uma escola?

A arquitetura deve priorizar a segurança e a saúde dos alunos, depois o conforto. Além disso, os conceitos usados na arquitetura daquele prédio devem trabalhar juntos com a pedagogia que será utilizada. É preciso demonstrar pela arquitetura que aquela escola usa uma metodologia montessoriana, wladorf, etc. As questões tecnológicas também precisam ser resolvidas para tudo funcionar bem. Se um professor não consegue usar algum recurso porque não funciona, ele vai desistir de usá-lo e quem fica sem é o aluno. 

Também é preciso pensar que o ensino não se resume apenas ao conteúdo das disciplinas, mas também passa pela socialização. O ambiente deve permitir uma boa convivência, relações pacíficas e saudáveis. Costumo dizer que a arquitetura é o terceiro professor dentro de uma escola. Precisamos primeiro cuidar do professor, garantir que ele saiba ensinar e seja bem pago para realmente se dedicar à causa. O segundo professor são os materiais didáticos, a tecnologia, a alimentação. E o terceiro, é o ambiente. Ele deve servir à educação e também pode ser usado para ensinar. 

Algumas escolas particulares já adotaram a ideia de consultar e envolver os alunos na mudança dos espaços físicos e do mobiliário escolar. Essa participação é importante para o desenvolvimento de uma arquitetura mais condizente com a realidade e as necessidade dos alunos?

Antes de se elaborar o projeto arquitetônico de uma escola, é preciso uma reflexão profunda sobre os problemas do público e de cada região, sobre a pedagogia que vai ser adotada. Sem essa análise prévia e uma conversa com as pessoas que vão usufruir aquele espaço, a oportunidade de oferecer uma escola apropriada para aquele contexto é perdida. Esse momento é importante não só para o arquiteto, mas também para as pessoas repensarem o ensino, o que deve ser mantido ou não. Nesse caso do Tocantins, os arquitetos tiveram uma situação muito favorável que foi a de discutir essas questões com quem já estava naquele espaço e continuaria o utilizando. Em uma escola pública urbana isso é muito raro, porque as pessoas se locomovem e mudam muito. 

Quais são os cuidados e características que precisam ser levadas em conta ao pensar em um projeto arquitetônico para crianças e adolescentes? 

Para cada faixa etária é preciso pensar em situações e soluções diferentes. Piaget defendia que durante o desenvolvimento do jovem ele precisa de momentos para se dedicar ao que está apto. O prédio precisa responder nesse sentido também, dar a oportunidade para esse desenvolvimento. A escola precisa estar estruturada para atender a modalidade de ensino que é utilizada. Hoje a metodologia recomendada corresponde a três momentos do aprendizado e o prédio precisa responder a essa variedade de etapas de ensino. 

Para que se aprenda algo, é preciso que alguém apresente novas informações. Então, nesse primeiro momento é necessário um espaço de exposição, que pode ser uma sala de aula, um auditório, um laboratório com bancadas de boa visibilidade para que o aluno enxergue aquela nova situação apresentada. O segundo momento do aprendizado é absorver essa informação apresentada e conseguir desenvolver conhecimento, por isso, o aluno precisa de um espaço em que possa fazer exercícios, trabalho em grupo, enquanto é orientado pelo professor. E, há um terceiro momento fundamental em que ele reflete e compreende aquele novo conceito individualmente. Para isso, é preciso um espaço em que possa estudar sozinho, no seu tempo, com calma, sem barulho. 

Por isso, a escola atual precisa oferecer no mínimo esses três tipos de ambiente. Em algumas salas de aula tradicionais, o professor até consegue acomodar esses três espaços de forma improvisada. No entanto, seria muito melhor se a escola já oferecesse essa estrutura e o professor pudesse focar no ensino. 

 

 

 

 

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