Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

3º ano do ensino médio vira cursinho em escola de São Paulo

Colégios encurtam programas para que o último ciclo seja voltado para o vestibular; foco em revisões recebe apoio dos pais

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 04h00

SÃO PAULO - Para focar mais na preparação para os vestibulares, escolas particulares de São Paulo estão “encurtando” o ensino médio para que o último ano seja voltado para a revisão do conteúdo. Nesses colégios, todo o currículo é ensinado nos dois primeiros ano do ensino médio. Assim, o terceiro ano funciona como uma espécie de cursinho, apesar de ainda ter presença e provas obrigatórias.

No Colégio Renovação, na zona sul da capital, há dois anos o período de revisão passou de seis meses para todo o terceiro ano. Sueli Bravi Conte, diretora da unidade, diz que a mudança ocorreu depois de avaliarem que o tempo era muito curto para revisar todas as disciplinas.

“Até porque o segundo semestre só tem quatro meses. Então, era muito corrido. O conteúdo do ensino médio, na verdade, é o que foi ensinado no fundamental, mas de forma mais avançada. Por isso, dois anos são suficientes para todo o conteúdo”, diz Sueli. Ainda assim, os alunos têm avaliações com notas, que são os simulados de vestibulares.

Segundo semestre. No Colégio Porto União, na zona leste da capital, a revisão começa no segundo semestre do último ano. Segundo Marcos Trotta, coordenador do ensino médio da escola, o modelo faz com que os pais se sintam mais seguros sobre a preparação dos filhos para o vestibular e gastem menos. “Víamos que muitos pais colocavam o filho no cursinho já no 3.º ano do médio para garantir que ele fosse bem. Com essa nossa estrutura, eles não precisam pagar um curso por fora”, afirma.

Às vésperas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ocorre neste sábado e domingo, a tradutora Ana Paula Figueiredo, de 42 anos, disse estar tranquila com a preparação obtida pelo filho Victor César, de 19 anos. “A revisão foi muito importante para ele se encontrar e se organizar mais nos estudos”, ressalta. “Alguns pais acham que o filho precisa fazer cursinho já no ensino médio, mas eu considero muita pressão em cima do adolescente em um ano que já é complicado”, diz.

Cursinho opcional. Já outros colégios oferecem reforço de disciplinas no contraturno, em uma espécie de cursinho para os alunos interessados. E sem valor adicional na matrícula.

No colégio Mater Dei, na zona oeste, desde o início de agosto os alunos podem ficar no período da tarde para uma revisão do conteúdo cobrado nos vestibulares. Para isso, foram contratados outros professores para que as aulas tivessem um “ritmo” mais parecido com o de cursinho, segundo Regina Ratto, coordenadora do colégio.

“Vimos que os alunos não estavam estudando à tarde e os pais estavam preocupados com isso. Alguns até optavam por pagar um cursinho para o filho estudar”, comenta Regina. Dos 50 alunos no último ano, pelo menos 25 frequentam as aulas de reforço à tarde.

No Colégio Mary Ward, na zona leste da capital paulista, o reforço opcional começou já em fevereiro para cinco disciplinas: Química, Física, Matemática, Biologia e Redação. “O foco são os conteúdos que mais caíram nos últimos vestibulares. Então, a aula é bem diferente do currículo normal, mais abrangente”, diz José Antônio Galiani, coordenador do colégio.

Ele conta que este é o primeiro ano que o “cursinho optativo” durou todo o ano e surgiu para trazer mais comodidade aos pais e alunos. “Tínhamos muitos alunos que faziam cursinho em outro lugar. Neste ano, são só quatro, porque a maioria se sentiu mais segura e preparada com o nosso reforço.” Dos 50 alunos, 80% decidiram frequentar as aulas da tarde.

Pressão. Para especialistas em educação, a mudança na estrutura do ensino médio em escolas particulares para reforçar a preparação nos vestibulares resulta da pressão das famílias, mas é preocupante por não focar em uma formação total do aluno.

“Há uma crise de identidade do ensino médio. As pessoas acham que ele só serve como preparação para entrar no ensino superior. Ele é uma etapa importante para a formação do adulto. Não deve ser só conteudista”, afirma Maria Márcia Malavasi, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para Maria Márcia, a procura dos pais por escolas que “mostrem mais resultados” faz com que os estabelecimentos adotem estratégias mais radicais. “O ensino médio já é curto demais e é tão importante para o desenvolvimento pessoal que ‘correr’ para dar todo o conteúdo em dois anos pode ser muito prejudicial”, afirma. Ela diz ainda que o 3.º ano já é estressante para o aluno e pressioná-lo como em um cursinho pode, por exemplo, atrapalhar a escolha do curso que vai prestar.

Silvia Colello, professora de Psicologia da Educação da Universidade de São Paulo (USP), considera que os pais precisam avaliar se escolas que têm a estrutura voltada para o vestibular conseguem proporcionar ao aluno toda a formação que depois vai ser exigida deles. “A escola não tem de dar só o conteúdo das disciplinas, mas também abordar as questões sociais, políticas, ajudar a desenvolver habilidades relacionais”, diz.

Sem vida. Para Colello, com as escolas cada vez mais focadas apenas nos vestibulares, os alunos estão preparados para entrar nas universidades, mas muitos não têm preparo para a vida universitária. “Vemos na universidade muitos alunos que não têm senso crítico ou que não sabem trabalhar em grupo, apesar de terem entrado em cursos muito concorridos. Isso é o que justifica, em parte, a evasão no ensino superior, porque o aluno se sente deslocado”, diz Silvia.

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