Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

São Paulo reabre 3,5% das escolas estaduais no primeiro dia de retomada e procura é baixa

Duzentas unidades de ensino administradas pelo Estado abriram as portas nesta terça-feira. Autorização de funcionamento depende de aval das prefeituras e cumprimento ao plano estadual de reabertura das atividades

Júlia Marques e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 18h01
Atualizado 08 de setembro de 2020 | 23h13

Com poucos ou nenhum aluno e cercadas de cuidados, escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo reabriram nesta terça-feira, 8 pela primeira vez depois de quase seis meses fechadas para conter a disseminação do coronavírus. Segundo o governo, 200 escolas da rede estadual retomaram as atividades nesta terça, mas só 10% a 15% dos estudantes foram às unidades. 

O retorno em setembro foi autorizado pelo governo paulista em municípios há mais de 28 dias na fase amarela do plano de reabertura, mas o aval depende das prefeituras, que sofrem pressão contrária dos professores. Segundo a Secretaria da Educação do Estado, 128 municípios sinalizaram abertura em setembro - a lista das cidades não foi divulgada. Cotia, que havia dado permissão para abrir a rede estadual recuou nesta terça após pressão dos docentes. 

Sorocaba e São Carlos concentraram a maior parte das escolas estaduais que retornaram. As 200 unidades abertas correspondem a 3,5% do total da rede estadual. Nem todas as 5,6 mil escolas da rede estão em áreas autorizadas a reabrir. Para Henrique Pimentel, subsecretário de Articulação Regional da Secretaria de Educação, o número de unidades que voltaram é bom. 

"Algumas receberam estudantes gremistas, estudantes acolhedores, até para bolar o plano de reabertura. É um retorno lento, gradual, sem pressa para as escolas." Em setembro, a volta é facultativa e não serão oferecidas atividades curriculares. O retorno com as aulas está previsto para o mês de outubro. 

Segundo Pimentel, embora a procura dos estudantes tenha ficado na faixa dos 15%, houve unidades que registraram interesse de mais alunos pelo retorno presencial nesta terça-feira. "Tivemos escolas que nem conseguiram atender todo o contingente hoje e fizeram um modelo de revezamento. A maior demanda que tivemos foi em São Carlos, onde as escolas já estavam mais organizadas, fizeram seus planos."

Em Sorocaba, das 81 escolas, houve registro de atividades em três. A Escola Estadual Professora Ana Cecília Martins abriu as portas para número reduzido de alunos. “Foi mais para explicar como é que vai funcionar a partir de agora, com poucos alunos em cada classe, as carteiras distantes umas da outras, com medição de temperatura, álcool gel, sem contato nenhum”, disse a estudante Silvia Delgado, de 13 anos.

Em visita a Sorocaba, o secretário Rossieli Soares encontrou apenas 17 alunos na escola Ana Cecília Martins, que normalmente acolhe 1,2 mil estudantes. Alguns fizeram agendamento para usar o laboratório de informática. “É uma volta gradativa e importante, porque pouco a pouco a gente vai aprendendo a fazer esse retorno.” 

Conforme o dirigente regional de Ensino, Marco Aurélio Bugni, as escolas foram orientadas a realizar atividades extracurriculares e de preparação para a retomada definitiva das aulas, prevista para 7 de outubro. Segundo ele, todas as escolas da cidade estão prontas ou em fase final de preparação para receber os alunos, com as limitações previstas para a reabertura. As atividades são opcionais.

Na Ana Cecília, no bairro Wanel Ville, zona oeste, foram instalados dispensadores de álcool em gel em todos os setores do prédio. As salas de aulas receberam marcação nas carteiras para garantir o distanciamento e o limite de alunos. O pátio externo e a quadra esportiva estão dotados de lavatórios para as mãos. Os alunos têm a temperatura corporal medida na entrada.

Na Escola Estadual Antonio Padilha, na região central, uma das mais tradicionais da cidade, o estudante Luan Santos Santana, de 16 anos, era o único aluno presente na manhã desta terça. Mas isso tinha uma explicação: ele é filho do zelador da escola, Dorivaldo Santana, e mora no prédio. “Mesmo estando dentro da escola, só tenho assistido aulas à distância e feito lições pelo celular”, disse o adolescente. A administração informou que a escola ainda está sendo preparada para a volta às aulas e que os pais serão avisados.

Na Escola Estadual Fernando Rios, a direção estava apenas cadastrando os pais que querem levar os alunos para aulas presenciais de reforço. A prioridade é para estudantes sem acesso à internet ou com dificuldade para absorver os conteúdos. Só podem comparecer alunos que não estão nos grupos de risco. Além disso, o pai ou responsável deve levar o filho e esperar por ele até o fim da aula.

Escolas municipais também reabrem, mas sem alunos

Em Taubaté, as escolas municipais reabriram, mas os alunos não apareceram. O plano dos dirigentes era colocar os laboratórios de informática à disposição dos estudantes e dialogar sobre a retomada das atividades presenciais, mas não houve procura. Na rede particular, as escolas também abriram, mas a adesão dos pais de alunos foi muito baixa. Dirigentes de escolas consultados pelo Estadão disseram que a maioria dos pais ainda reluta sobre a retomada e o comparecimento ficou abaixo de 10%.

A prefeitura informou que as escolas de ensino fundamental e médio reabriram apenas para utilização dos laboratórios de informática, mediante agendamento, por alunos sem acesso à internet, com até 10% da capacidade. “A retomada não é obrigatória, por isso as atividades remotas serão mantidas a todos os níveis de ensino nas escolas municipais”, disse em nota. 

As escolas privadas infantis foram autorizadas pela gestão municipal a retomar atividades presenciais para acolhimento afetivo e atividades complementares. Já as escolas particulares de ensino fundamental e médio foram liberadas para adotar as orientações da Secretaria de Educação do Estado.

Em Rio Claro, as aulas foram retomadas também nas escolas municipais, mas apenas na forma remota. Com as escolas fechadas nos últimos meses, os alunos praticamente se desligaram do ensino, pois não havia aulas virtuais. Conforme o secretário da Educação, Adriano Moreira, a retomada à distância é o primeiro passo para a normalização do setor. “A partir de hoje (8), as escolas vão entrar em contato com os pais, ver a situação dos alunos e explicar como será feito esse trabalho.” O secretário acredita que, em dez dias, os 19 mil alunos terão aulas remotas.

As sete prefeituras do aglomerado urbano de Jundiaí decidiram que a retomada de aulas presenciais não curriculares em todos os níveis – estadual, municipal e particular – acontecerá a partir de 7 de outubro. Até lá, as atividades pedagógicas continuam não presenciais. A partir desta quinta-feira, 10, as escolas poderão reabrir para atividades administrativas, seguindo os protocolos sanitários. A prefeitura de Campinas vetou as aulas presenciais nas redes pública e privada até o dia 15 próximo, quando a situação será reavaliada. As prefeituras de Americana, Limeira e Paulínia também não aderiram à volta às aulas agora.

Rede privada tem retorno tímido e cercado de cuidados

A retomada das atividades presenciais também foi tímida e cercada de cuidados na rede privada. Na escola Viva a Vida, em Sorocaba, o comparecimento não atingiu o número esperado, segundo a diretora Katia Cristina Vergílio Scanavez. Mãe do pequeno Enzo, de 6 anos, a técnica de enfermagem Elizangela Barbosa Pena conta que passou o fim de semana prolongado muito preocupada com a volta do filho às aulas presenciais. “Passei a noite sem conseguir dormir, pois achava que não era a hora. Estou retornando, não por mim, mas pelo Enzo. Foram quase seis meses dentro de casa, em contato só com adultos. Sou extremamente cuidadosa e medrosa, mas enfim, estamos aqui.”

No apartamento em que moram, são só os três – Elizangela, o marido e o pequeno. “Deixei de trabalhar para cuidar do Enzo, então não havia pressa no retorno, mas foi pensando nele, mesmo. Acho que ele mudou um pouco desde que deixou de vir às aulas. Ele era muito dócil e ficou menos obediente, mais respondão. Talvez o contato com a escola estivesse fazendo falta", avaliou. Depois de se certificar de que o filho havia ficado bem, ela combinou com a diretora que ligaria em uma hora e meia. “Se ele quiser ir para casa antes, volto para buscá-lo”, disse.

O menino chegou perguntando sobre dois coleguinhas, mas eles ainda não tinham retornado. A diretora disse que um deles talvez viesse nas próximas aulas. “Hoje, estamos prevendo a vinda de 26 alunos por ora. Quando paramos, no início da pandemia, eram 80”, disse Katia. Ela contou que o retorno foi cuidadosamente preparado. “Fizemos uma pesquisa minuciosa com os pais, pedindo inclusive críticas construtivas. Arrumamos toda a escola, deixamos aberta na sexta e no sábado para que os pais viessem averiguar o que tinha sido feito.”

A médica Bianca Calvilho precisou conversar muito para convencer o filho Pedro, de 5 anos, a entrar no Colégio Uirapuru, em Sorocaba. O menino cruzava os bracinhos, fincava os pés e resistia. Ajoelhada ao seu lado, a mãe argumentava, até que o pequeno cedeu. “Ele acordou animado, mas aqui na frente deu uma balançadinha. O irmão gêmeo dele, o Guilherme, chegou e entrou rápido.” A médica lembrou que, na semana passada, os dois já estiveram na escola para a aula de inglês. “Acho que já estava na hora de voltar, não só pelo meu trabalho, mas pelas atividades que a escola oferece e que eles precisam.”

No Objetivo Portal, na mesma cidade, a advogada Fabiane Cardoso deixou o filho de dez anos para a aula bilíngue, no período da manhã, mas ele não compareceria para o curso regular, à tarde. “Ficamos em dúvida durante o final de semana, mas decidimos recomeçar com calma. Ele faz o bilíngue agora de manhã, mas por enquanto não volta no regular, que tem mais alunos.” Fabiane disse que sua rotina de trabalho não teve influência na decisão. “É mais pela qualidade de vida dele, para ter mais contatos e atividades físicas.” 

A professora e empresária Kethy Delfino levou a filha Laís, de 12 anos, apenas para a aula de inglês. “Para o curso regular, ainda vamos esperar um pouco”, justificou. O colégio Mundo Novo, em Sorocaba, também abriu, mas apenas para atividades de acolhimento aos alunos, sem aulas de conteúdo pedagógico, segundo a analista de recursos humanos Elisangela Araújo. “Estamos com um grupo de alunos do ensino fundamental em atividades de recreação que não contam como aulas. O conteúdo pedagógico continua sendo dado de forma remota.” Ela explicou que os alunos vão à escola para outras atividades em horário diferente daquele reservado para as aulas on-line.

Mãe de três filhos, a empresária Marina do Valle, de 42 anos, mandou os dois mais novos, de 3 e 6 anos, para o Colégio Maple Bear, em Indaiatuba, nesta terça-feira. O mais velho, de 8 anos, também vai voltar, mas só na quinta – a escola faz um rodízio de estudantes para evitar aglomeração. “Na sala de aula com a professora, o aprendizado é diferente”, diz a mãe, que também vê risco à saúde mental das crianças caso permaneçam sem a rotina escolar por muito mais tempo.

A escola priorizou a volta da educação infantil e dos anos iniciais do fundamental. Os mais novos usam até face shield para evitar o contágio. Em pesquisa com os pais, a rede identificou interesse de 60% deles no retorno presencial. Nesta terça, em torno de 25% retornaram. Os alunos foram reoganizados no espaço e permanecem na escola por cerca de três horas. "As salas de aula tinham entre 18 e 20 alunos. Todas acabaram se dividindo ao meio", diz Arno Krug, CEO da Maple Bear.

Ele diz que oito unidades abriram nesta terça-feira em municípios espalhados pelo Estado e espera que mais 16 possam abrir na quarta. Com a descentralização das decisões sobre a abertura, as escolas têm de checar diariamente se há mudanças nos decretos das prefeituras. “Temos uma sala de guerra com cinco ou seis advogados especialistas recebendo normativas, informações. Tem sido um trabalho enorme”, diz Krug. 

Em Cotia, por exemplo, em meio à estreia da retomada, houve alteração nas regras pela prefeitura, que recuou sobre a volta da rede estadual e suspendeu as aulas nessas escolas até o fim do ano. A mudança causou dúvidas até entre as unidades particulares. Por meio de nota, a prefeitura informou que a rede privada continua autorizada a realizar atendimento presencial, com exceção da educação infantil. 

O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), que representa as escolas particulares, não tinha balanço até o início da noite desta terça-feira de quantos colégios privados retornaram. Para Benjamin Ribeiro, presidente do sindicato, a indefinção dos municípios atrasa o retorno - que ele vê como necessário - à escola. "Tivemos dois grandes azares: primeiro, a pandemia. E, segundo, que ela veio em ano eleitoral. Os prefeitos estão se aproveitando do temor que os pais têm."

Boa parte das prefeituras aposta em consulta à comunidade escolar para referendar a decisão de retorno ou não à escola e algumas delas já determinaram que as aulas só voltam no ano que vem. A capital paulista ainda não definiu uma data de retomada e, por enquanto, atividades presenciais em escolas públicas e particulares da cidade de São Paulo estão suspensas. "Se começar só em outubro serão 210 dias sem aulas, é um absurdo. Nenhum pais demorou esse tempo todo", diz Ribeiro.  

Para sindicato, adesão foi menor

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) afirma que o número de 200 escolas informado pelo governo estadual não corresponde à realidade e que o balanço da pasta leva em conta também a rede privada. Segundo cálculo da Apeoesp, apenas 20 unidades estaduais teriam feito a reabertura nesta terça-feira. Para Bebel Noronha, presidente da Apeoesp e deputada estadual pelo PT, a baixa adesão reflete a "insegurança da população no que diz respeito à volta às aulas".

Ela acredita que mais municípios devem suspender o retorno da rede estadual nas próximas semanas, a exemplo do que fez Cotia nesta terça-feira. A cidade já havia barrado a volta das escolas municipais neste ano e postergou para o ano que vem também o retorno da rede estadual. "As crianças são vetores potenciais da covid-19, o que está em questão é a defesa da vida. Os prefeitos estão com mais bom senso do que o governador e o secretário da educação", diz Bebel. 

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