KEVIN DAVID/A7 PRESS
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102 escolas privadas param e sindicato já admite manter benefício de professor

Docentes de São Paulo conseguem do sindicato patronal proposta de manter benefícios até fevereiro, mas acordo ainda será votado pelos donos de colégios na próxima quarta-feira. Se não aceitarem, categoria promete greve por tempo indeterminado

Isabela Palhares e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Após paralisar total ou parcialmente 102 escolas da rede particular de São Paulo, os professores conseguiram do sindicato patronal uma proposta de manter integralmente os benefícios da atual convenção coletiva até fevereiro. Os donos de colégios ainda vão votar se aceitam o acordo. Os docentes estão mobilizados desde março para impedir mudanças, incluindo a redução do recesso escolar e do número de bolsas por filhos.

+ Para lembrar: Paralisação foi anunciada na semana passada

Em assembleia nesta terça-feira, 29, segundo dia de paralisação este mês, o Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro) aprovou a manutenção da convenção por mais um ano. Agora, esperam que a assembleia patronal da próxima semana ratifique o acordo. Caso a convenção não seja mantida, a categoria promete iniciar greve geral daqui a uma semana, por tempo indeterminado. 

Luiz Antonio Barbagli, presidente do Sinpro, diz que a proposta foi “costurada” pelos representantes dos dois sindicatos na manhã desta terça. “Com a mobilização dos professores e o apoio dos pais, a negociação avançou. Os professores aceitaram a proposta, mas agora as escolas têm de fazer a parte delas. Caso contrário, a luta continua”, afirma. 

Benjamin Ribeiro, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp), diz acreditar que os colégios devem aceitar manter a convenção para evitar novos conflitos. “Vivemos um momento conturbado no País. Quanto menos confusão tivermos, é melhor. No ano que vem, discutimos essas mudanças novamente.”

A assembleia das escolas deve ocorrer na quarta-feira. O sindicato representa cerca de 10 mil estabelecimentos no Estado – 4,1 mil só na capital paulista. “A paralisação ocorreu em pouco mais de 100 escolas, que são de elite e têm uma realidade muito distante da maioria”, afirma Ribeiro.

No Colégio Santa Maria, no Jardim Marajoara, zona sul, docentes do ensino médio participaram da paralisação desta terça. “Nossa escola até garantiu que não mexeria em nada na convenção, mas o movimento não é para cada escola, é pela categoria. Para que toda a categoria tenha acesso”, afirma o professor de Língua Portuguesa Adriano dos Santos.

Escola da Vila, Santa Cruz, Vera Cruz, Equipe e Gracinha foram outras das unidades da capital que tiveram pelo menos parte das atividades afetadas. Em muitos colégios, pais também tiveram dificuldades de levar os filhos à aula por causa da greve dos caminhoneiros, que deixou a cidade com estoque reduzido de combustível. 

Alterações. Com a reforma trabalhista, a convenção coletiva que estabelece cláusulas específicas para a categoria não foi renovada em março. O Sieeesp propôs alterar algumas cláusulas, como reduzir a bolsa de estudos de dois para um filho de professor e o recesso escolar do fim de ano de 30 para 20 dias. 

Sem acordo, o entrave foi levado ao Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, que deve julgar o dissídio da categoria. O Sieesp chegou a apresentar nova proposta com a redução do recesso para 23 dias e restrição das bolsas só nas unidades com até 200 alunos. Essa oferta também não foi aceita pela categoria, que fez a primeira paralisação na quarta passada. 

Os docentes da rede privada de São Paulo não fazem greve desde 2003. À época, a reivindicação era por reajuste salarial. 

O que está em jogo

- Reivindicação

Professores querem a renovação da convenção coletiva que garante, entre outros direitos, 30 dias de recesso escolar no fim do ano, bolsa de estudos para dois filhos e o pagamento da semestralidade em caso de demissão sem justa causa.

- Proposta

O sindicato patronal diz que a convenção anterior é antiga e inadequada à situação atual das escolas, especialmente em unidades com menos alunos e mensalidades mais baratas.

- Encaminhamento

Os dois sindicatos costuraram uma proposta, em que a convenção é mantida integralmente até 28 de fevereiro de 2019. Os professores aprovaram, mas aguardam uma resposta das escolas. A categoria diz que, caso os patrões não aceitem a manutenção, iniciam uma greve geral por tempo indeterminado a partir de quarta-feira.

Rotina estudantil volta a ser alterada e pais se dividem 

Pais de alunos de colégios particulares de São Paulo tiveram outra vez a rotina alterada pela paralisação dos professores. Algumas escolas cancelaram as aulas ou fizeram atividades alternativas nesta terça. Com movimento já baixo por causa da greve dos caminhoneiros, o que se viu em algumas instituições foram salas de aulas vazias. 

Para a gerente comercial Patrícia França, de 41 anos, a terça foi perdida. Ela gastou o pouco combustível que tinha para levar o filho Lucca, de 16 anos, à escola, mas o jovem, que estuda em tempo integral, teve apenas três aulas e voltou antes do horário convencional. 

“A gente levou para a escola, mas tivemos de buscar mais cedo. Ele não teve aula e não conseguiu achar um Uber”, diz Patrícia. Lucca até mandou uma foto da sala do Colégio Santa Maria, onde estuda, para a mãe: quase inteiramente vazia. “A gente faz um esforço. Abasteci o carro na semana passada só para levar as crianças na escola, mas gastamos gasolina à toa. O clima já está difícil. Vai parar a escola também?” 

Outras atividades. A engenheira de alimentos Vanessa Moraes, de 46 anos, conta que a terça foi diferente para as filhas. No Colégio Santa Clara, na zona oeste, escola da mais nova, de 7 anos, apenas atividades recreativas foram realizadas e Vanessa preferiu deixá-la em casa. 

Já no Santa Cruz, colégio da mais velha, de 11 anos, os estudantes não tiveram aulas à tarde. Mas participaram pela manhã de atividades lúdicas e até discussões sobre o movimento dos professores. “Tentaram abordar de forma que eles (alunos) entendessem, com assuntos relacionados à educação, à democracia”, diz ela. “É óbvio que não gostamos de não ter aula, ficamos apreensivos. Mas, se estão reivindicando algo que lhes parece pertinente, temos de discutir.”

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