André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

1ª geração cotista relata preconceito e choque de realidade

Doutor da UNB com formação internacional passou fome; analista lembra que se tornou ‘invisível’ e gestor ainda luta para estudar

Luiz Fernando Toledo, Enviado Especial

04 Setembro 2016 | 05h00

BRASÍLIA - Para ilustrar a trajetória dos estudantes cotistas, o Estado foi atrás dos ex-alunos da primeira geração de cotas no Brasil, na Universidade de Brasília (UnB). No vestibular de julho de 2004, em decisão inédita, a UnB aprovou 20% de suas vagas (392, no total) para estudantes negros. 

Entre eles estava Rhaul de Oliveira, de 29 anos, hoje professor no Instituto de Ciências Biológicas na mesma instituição. “Demorei muito a entender o que significa eu estar ali”, conta. Oito anos depois de se formar, Oliveira acumula títulos: emendou um mestrado em Toxicologia e Ecotoxicologia na Universidade de Aveiro, em Portugal. Em seguida, no doutorado, também passou pela Wageningen University, na Holanda, e pelo Instituto Asiático de Tecnologia, na Tailândia. Até a vida da família mudou: a mãe começou a estudar Ciência Política e o irmão, Engenharia, ambos por meio das cotas.

Mas, para se formar, Oliveira enfrentou da fome ao preconceito. Morador na periferia de Goiânia, ele dividia sua rotina entre a profissão de chapeiro, as aulas na escola pública e o cursinho. Aos 17 anos, para ajudar a mãe, dava expediente, muitas vezes, das 18 às 6 horas do dia seguinte. “Muitas vezes, perdia a aula por chegar atrasado.” Quase sempre sem dinheiro para almoçar, ia da escola ao cursinho com bolachas.

No primeiro dia em que pisou na UnB, para fazer a matrícula, a sensação era de estranhamento. “Lembro de ter visto uma grande quantidade de cartazes anunciando aulas de francês, de inglês e alemão. Tinha até aula de coral, parecia filme”, lembra.

Quando olha para trás e vê o que já conquistou - um diploma, pós-graduações, bom salário e até palestras dadas no lugar onde estudou -, o analista judiciário e assistente social Angelo Roger de França Costa, de 33 anos, se emociona. Pensou pela primeira vez na chance real de cursar o ensino superior ao descobrir, pela televisão, que a UnB adotaria cotas raciais naquele ano. Na época, já trabalhava como vendedor de livros. “Tive muita dificuldade para conciliar as coisas. Minha expectativa era de, na melhor das hipóteses, passar em um concurso para ganhar uns R$ 1.500. Onde eu morava, em Taguatinga (cidade-satélite de Brasília), a maioria trabalhava como vigilante ou vendedor. Passar em concurso público seria o ápice.”

Durante a graduação, em Serviço Social, enfrentou o peso de não ter tido a mesma formação dos colegas. “Tinha de ler quase cem páginas por dia e sobre assuntos que eu não tinha noção que existiam. Muitos amigos da sala já conheciam o (filósofo Michel) Foucault, por exemplo, seja por uma conversa no cotidiano, em casa. Vivíamos em mundos diferentes.” Também disse ter sentido na pele a resistência às cotas que se instalou nos primeiros anos da política. “Os cotistas eram ‘invisibilizados’. Ninguém podia dizer que entrou por cota, um não sabia quem era o outro. Faziam pichações no banheiro desejando morte aos alunos cotistas. Isso fazia com que a gente estivesse no lugar sem merecimento, como se não fosse um espaço nosso, o que é um absurdo.”

Discriminação. Leonardo Araújo, de 30 anos, que se formou em Administração e hoje trabalha na área na Caixa Econômica Federal, diz que uma das maiores dificuldades era se enturmar. “A entrada foi bem estranha. A maioria dos alunos já se conhecia, eles estudavam nos mesmos cursinhos ou na mesma escola, já estavam bem integrados”, conta.

No mercado de trabalho, acredita que a discriminação ainda é grande. “É difícil você ver um gestor negro. O negro tem pouca oportunidade de estudar. Quando terminei a faculdade, queria fazer mestrado, mas tinha de trabalhar. Quem sabe um dia eu faça?”

‘Alunos têm de lutar contra o isolamento’

Uma das reclamações mais comuns dos alunos negros ao entrar em uma universidade pública tradicional por meio de cota é o isolamento em relação à comunidade escolar. É o que aponta a doutora em História e professora da Universidade de Brasília (UnB) Joelma Rodrigues da Silva. Ela é responsável pelo Centro de Convivência Negra (CCN), espaço da UnB que oferece desde atividades de acolhida, para novos alunos, a computadores e internet gratuita para trabalhos e pesquisas.

“A solidão dos estudantes negros ainda é muito forte na universidade. Muitos deles ficam depressivos e até tomam remédio. Estão emocionalmente muito vulneráveis. O centro acaba sendo um espaço para acolhimento, para que eles venham estudar, conversar, ‘trocar uma figurinha’, experiências. Enfim, se apoiar. Eles se reúnem para grupos de estudos sobre questões raciais e fazem até almoços aqui”, diz a professora ao Estado. Ela afirma que, mesmo com as cotas, é comum o aluno negro ser minoria na sala de aula em que estuda. 

“Depois que a gente entrou, pela primeira turma, a universidade estava toda pichada contra os cotistas. Faziam até movimentos de ‘bronzeamento’ (para satirizar as cotas). Fomos acolhidos por um programa de atenção aos cotistas, que envolvia uma bolsa, mas não só isso. O principal mesmo foi estar junto com a turma. Eu não me sentia realmente à vontade para falar para todo mundo que era cotista”, diz a ex-aluna e assistente social Nathalia Elisa de Farias, de 31 anos, hoje no doutorado de Serviço Social.

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