Por que poesia é ideal para quem está começando a ler e a escrever?

Por que poesia é ideal para quem está começando a ler e a escrever?

Colégio Albert Sabin

15 Agosto 2016 | 10h00

No Colégio Vital Brazil já é tradição: as turmas do 2º ano do Ensino Fundamental perfilam-se diante dos colegas e de alunos do 1º ano para declamar poemas num sarau divertido e cativante. Sentada no chão do pátio principal, a plateia assiste a tudo atenta e encantada. Se há quem ache que poesia não é para qualquer idade e que poemas exigem certo grau de sofisticação e maturidade para ser apreciados, o sarau prova o contrário.

poesia 1

No projeto pedagógico de Língua Portuguesa do Vital, o poema é o primeiro gênero textual a ser trabalhado em sala de aula, entre crianças que mal começaram a ser alfabetizadas. No caso do tradicional Sarau dos 2os anos, por exemplo, os alunos exploram uma obra-prima escrita especificamente para o público infantil, cuja aparente simplicidade esconde riquezas e oportunidades de aprendizado: os poemas d’A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes.

Márcia Rodrigues Vieira, professora do 2º ano A, explica a abordagem pedagógica da equipe ao apresentar a obra para os alunos e algumas das razões pelas quais poemas como os de Vinicius não são apenas adequados, mas ideais para a aproximação inicial das crianças com o mundo das letras.

1. A poesia é facilmente assimilada e memorizada, como a música
Verso, estrofe, rima, métrica. Mesmo antes de aprender o significado desses termos, a criança já é capaz de perceber as regularidades rítmicas e sonoras de um poema simples, como o da Corujinha:

Corujinha, corujinha,
Que peninha de você.
Fica toda encolhidinha
Sempre olhando não sei quê.

Compasso e letra dão ao poema musicalidade agradável, o que o torna mais fácil de ser assimilado pela criança (na Educação Infantil, textos em prosa trabalhados em rodas de histórias também costumam dispor de rimas e de uma estrutura repetitiva para facilitar a memorização). O poema se torna uma espécie de porta de entrada para o mundo das letras, além de se prestar a exercícios de leitura e oralidade. “Uma boa dica é que os alunos treinem a leitura de poemas em casa, com os pais”, diz Márcia.

2. A poesia pode ser prazerosa como uma brincadeira
Ao explicar para seus alunos o que é poesia, Márcia costuma dizer: “Os poetas pegam diferentes assuntos e brincam com eles”. Brincar é a chave. É importante que a criança saiba que o texto pode ser mais do que um relato objetivo de acontecimentos reais ou fictícios. O texto em si pode ser “diferente”, inesperado, divertido.

A função poética desperta o aluno para o prazer de se deparar com jogos de palavras (Lá vem o pato, pata aqui, pata acolá) e de ideias (como será uma casa sem teto e sem nada?), figuras de linguagem (o que significa dizer que o pato “foi pra panela”?) e outros tantos tesouros escondidos no texto.

poesia 2

3. A poesia apresenta novas palavras e conceitos de maneira leve
Muito antes do Sarau dos 2os anos, os poemas de Vinicius de Moraes são explorados largamente durante a Educação Infantil, devido ao seu rico universo temático. “Eles são muito úteis para a abertura de conteúdos que trabalhamos nas diversas disciplinas”, diz Márcia. A Casa, por exemplo, é bom ponto de partida para refletir sobre o conceito de lar/morada; O Relógio, sobre o tempo; os diversos poemas de bichos (O Pato, A Foca, As Abelhas, etc.), sobre o mundo animal. Tudo isso com um vocabulário simples – mas não pobre – que soa natural e próximo ao público infantil.

4. A poesia dá estrutura para a criança começar a produzir textos
Verso, estrofe, rima e métrica não são apenas regularidades sonoras – são uma espécie de arquitetura de um poema simples, na qual a criança se baseia para criar algo novo. Usando a técnica do “decalque”, os alunos do 2º ano criam, coletivamente, novos poemas, mudando apenas algumas palavras, como num jogo de preencher lacunas.

Assim: Quer ver a foca ficar feliz? É pôr uma bola no seu nariz.
Pode se tornar: Quer ver a foca brincar contente? É pôr um peixe entre seus dentes!

Parece simples, mas há um trabalho de reflexão (“O que queremos dizer?”), além do cuidado de seguir as regras do poema original: “Eles não podem escolher qualquer outra palavra”, diz Márcia. “Têm de preservar o ritmo, a estrutura de rimas. Por isso, ao longo do processo, perguntamos: ‘Vamos cantar para ver se deu certo?’”

Mais do que limitar a criatividade da criança, nessa fase as regras a ajudam a dar o primeiro passo em direção ao que, no futuro, serão criações realmente originais. Pela mesma razão, os contos de fadas trazem a estrutura conhecida do “Era uma vez” até o “e viveram felizes para sempre”.