Juntos, a distância

Juntos, a distância

Colégio Vital Brazil

10 de setembro de 2020 | 11h00

Alunos descobrem o valor do grupo e do autoconhecimento nos meses de quarentena.

 

Aquela não seria uma aula como outra qualquer. Uma aluna havia chegado a sonhar com aquele dia, vários fizeram questão de colocar uma roupa especial, houve até quem usasse perfume para a ocasião. Faltando poucos minutos para a hora marcada, os alunos da professora Eliane Santana, do 2º ano do Ensino Fundamental, já não estavam mais conseguindo prestar atenção ao conteúdo de Ciências que ela tentava passar. “Professora, quando é que vai começar!?”

A ansiedade da turma tinha explicação. Depois de dois meses de aulas remotas pelo modelo webinar, em que só as professoras apareciam na tela do computador, os alunos do 2º ao 5º ano do Vital finalmente iriam rever uns aos outros. A partir daquela semana, a última de maio, o Fundamental I passou a incluir na grade de aulas a distância lives no modelo videoconferência, com todas as câmeras abertas, para tratar de temas que, no contexto da quarentena, haviam se tornado tão ou mais importantes que as demais disciplinas: os sentimentos de cada um.

Se o contexto era novo, a ideia por trás daquelas aulas especiais não era. Na verdade, tratava-se da continuidade de um projeto iniciado em 2018, que consiste na realização de assembleias entre os alunos, em que cada um fala abertamente de questões que os afligem, como conflitos e dificuldades de relacionamento, para chegar a acordos e aprendizados sobre as regras do bom convívio social. “É um momento importante em que as professoras tratam de questões socioemocionais das crianças”, diz Vanessa Inagaki, coordenadora assistente do Fundamental I. “Mas, neste ano, a situação do isolamento se impôs como tema principal: usaríamos a prática das assembleias para refletir sobre como eles estavam se sentindo, confinados em casa”.

Elaborado com a assessoria da psicóloga Flávia Vivaldi, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o projeto parte do princípio de que, por meio de diálogos mediados, as crianças entendem melhor o que sentem, dando nome às próprias emoções, identificando-se com as dos colegas e, sobretudo, aprendendo a lidar com elas de maneira construtiva. A novidade deste ano foi que, se antes o objetivo havia sido promover a convivência ética entre alunos, em 2020 o projeto teve a função adicional de dividir as angústias do distanciamento social, renovar o vínculo com a escola e proporcionar uma necessária injeção de positividade em todos.

Para Káthia Kobal, coordenadora da Educação Infantil e do Fundamental I, o projeto das assembleias foi retomado na hora certa, no fim de maio, quando os alunos já haviam se acostumado com o ambiente virtual de aulas; e as famílias, com a rotina da quarentena. Por outro lado, já não era sem tempo. Como as professoras atestam, a saudade sentida por todos era enorme, e somente a oportunidade de escutar – e enxergar! – uns aos outros seria capaz de serenar o ânimo das turmas.

 

Explosão de sentimentos

“Classifico esse momento como um marco: antes e depois das aulas pelo Zoom”, diz a professora do 4º ano Angélica Tironi, referindo-se ao aplicativo utilizado no projeto. Segundo ela, semanas antes, a equipe havia passado questionários para os alunos dizerem quais assuntos gostariam de tratar nas assembleias, e a resposta quase unânime havia sido a saudade – de parentes, amigos e professores. Um sentimento que, compreensivelmente, estava começando a afetar a disposição dos alunos para as aulas e até a saúde mental de alguns.

“Ouvi de várias mães que foi muito importante para os filhos ver os colegas novamente”, diz a professora Letícia Martinho, do 3º ano. “Algumas crianças estavam começando a ficar depressivas, sentindo falta de jogar bola ou andar de mãos dadas com o amigo no intervalo”.

Eram, na verdade, várias emoções embaralhadas: havia a saudade, claro, mas também o tédio, o afeto renovado pela família, a segurança da casa, a ansiedade pela volta e a incerteza do futuro. E todas essas emoções vieram à tona quando as câmeras foram ligadas. “Foi uma explosão de sentimentos”, diz Vanessa Inagaki. “Eles estavam eufóricos, muito felizes”.

“No primeiro momento, nem deu para eu falar”, diz Eliane Santana, do 2º ano. “Eles queriam rever os amigos, comentar o cabelo comprido do colega, mostrar a casa, apresentar o gato, o cachorro. Foi um show de bichos”.

Quando reassumiu o controle da “videoassembleia”, Eliane retomou a história do livro O Monstro das Cores, da espanhola Anna Llenas, que havia sido indicado como leitura para as turmas do Fundamental I na semana anterior. No livro, um simpático monstrinho um dia acorda se sentindo “estranho, confuso, aturdido” – cheio de emoções que a ilustradora representa em vários rabiscos coloridos. Com a ajuda de uma amiga, ele aprende a separar suas emoções em potes, cada pote de uma cor: verde-calma, vermelho-raiva, amarelo-alegria, azul-tristeza, etc.

“Eu pedi aos alunos que mostrassem objetos das cores que estavam sentindo. Teve criança que mostrou todas as cores; teve outras que escolheram o azul, dizendo-se ‘muito tristes’”, lembra a professora, que, então, pediu à turma sugestões para ajudar os colegas. “Uns diziam que gostavam de ver filme com pipoca; outros de ouvir música. O importante de identificar o que se está sentindo é isso, pensar no que se pode fazer para lidar com tal sentimento”. “É uma habilidade de autorregulação emocional que nossa geração não aprendeu na escola”, diz Letícia.

“Um dos meus alunos começou a chorar”, diz Angélica. “E sabe o que é interessante? Nenhuma criança fez comentários jocosos, todas deram apoio ao colega”. A própria professora vai às lágrimas ao se lembrar da lição de maturidade e solidariedade de sua turma de 4º ano. “Depois, no chat, um aluno escreveu: ‘Mesmo com uma emoção negativa, a esperança sempre tem de estar presente’”.

Começavam ali aulas de empatia e respeito ao outro – competências socioemocionais já trabalhadas nas assembleias presenciais do projeto de convivência ética –, mas agora também de resiliência, de adaptação a uma situação difícil para todos, mas que pode ser suportada quando todos se dispõem a dividir o peso. “O projeto foi essencial para eles preservarem o vínculo com os colegas e as professoras, renovarem os ânimos e as esperanças e se sentirem pertencentes ao grupo: ‘Eu faço parte dessa turma, eu sou Vital Brazil’”, diz Vanessa.

 

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