Escrever bem não é um dom

Escrever bem não é um dom

Colégio Albert Sabin

11 Julho 2016 | 10h00

Todo texto é resultado de um processo. Do ponto de vista do leitor, na grande maioria dos casos, só interessa o produto final, seja ele um livro, um artigo, um e-mail. Para um professor que tem como função ensinar seus alunos a escrever, porém, considerar o processo faz toda a diferença.

“De modo geral, a escola no Brasil não chamava a atenção para as etapas da produção de texto”, diz Maria José Nóbrega, mestre em Filologia e Língua Portuguesa pela USP e assessora de Língua Portuguesa para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I do Colégio Vital Brazil. “O professor passava um tema, o aluno escrevia uma redação, e o professor a devolvia corrigida. Se viesse cheia de correções, o aluno tinha a impressão de que era mau escritor. Mas, se mesmo escritores profissionais têm seus textos revisados e alterados por outros, por que cobraríamos do aluno acertar de primeira?”.

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Essa dinâmica, segundo Maria José, não apenas desestimulava alunos com dificuldades como alimentava a ideia equivocada de que escrever bem é um dom. “Produção de textos não é dom, pode ser ensinada. Envolve planejamento, textualização – o momento de pôr as palavras no papel – e revisão”.

Segundo a assessora, embora os Parâmetros Curriculares Nacionais já tenham preterido o termo “Redação” (ênfase no produto final) em favor de “Produção de Texto” (ênfase no processo) desde os anos 1990, a noção antiga ainda não foi totalmente descartada nas escolas brasileiras. É por isso que parte importante do trabalho de Maria José, no Vital Brazil, é propor atividades que evidenciem esse caráter processual da escrita.

Planejamento e escrita: montando a arquitetura do texto

Cronos o rei dos titãs era uma criatura tão má que comia seus próprios filhos mas três de seus filhos Zeus Poseidon e Hades o mataram em uma batalha mortal e o trancaram em um baú, mas ele está de volta e só Hércules pode matá-lo.

Em uma noite, Hércules estava dormindo com sua mulher e Zeus apareceu e disse:

– Olá Hércules.

– Oi pai, quais são as notícias?

– Você tem um novo trabalho para fazer.

Assim começa a primeira versão de um conto escrito por um aluno da professora Juliana Cristina Fiore, do 5º ano. A atividade pede que os alunos imaginem um décimo terceiro trabalho para Hércules. Mas não se trata de uma tarefa de redação tradicional.

Inicialmente, Juliana e sua turma estudam o gênero textual conto mitológico e o mito original dos 12 trabalhos de Hércules. “Eles têm de perceber que o mito segue algumas regras formais, como o uso de discurso direto nos diálogos e a narração em terceira pessoa, e também algumas regras estruturais”, diz Juliana. Ela se refere a uma espécie de “arquitetura de enredo” utilizada no mito de Hércules, que os alunos precisam seguir.

Assim, eles preenchem fichas de Planejamento do Mito, determinando os elementos que vão compor seu conto: Qual o novo trabalho? Como as características do herói o ajudam a vencer o desafio? Quais os personagens, suas características e sua função na trama? Só depois de planejar os elementos estruturantes do enredo, os alunos partem para a escrita do seu conto. E é aí que a atividade fica realmente interessante.

Revisão: rasura faz parte

rasura faz parte

Em duplas, os alunos trocam seus contos e revisam um o trabalho do outro. Um primeiro ponto é o exercício da revisão em si, que é feita em etapas: “Eu peço a eles que primeiro apontem erros de gramática e ortografia, depois apontem aspectos discursivos, como incoerência, repetição de palavras, falta de clareza, etc. De preferência, que identifiquem os vários critérios com canetas de cores diferentes”, diz Juliana.

Além de oferecer um método útil de revisão de textos, a diferenciação de critérios é importante, afirma Maria José Nóbrega, por evidenciar a distinção entre “escrever certo” e “escrever bem”: “Mesmo textos corretos em termos gramaticais podem ser um desastre. Essa prática chama a atenção dos alunos para outros elementos além das normas da língua”.

Um segundo ponto positivo é naturalizar o exercício da revisão como parte integrante da escrita. “Não é ‘feio’ um texto cheio de marcas de revisão e rasuras. Faz parte. A atividade quebra esse estigma e acostuma o aluno a ter um cuidado maior com o que escreve”, explica a assessora.

Até porque, na sequência, os textos voltam aos seus autores, que julgam se concordam ou não com as revisões do colega. E, embora o olhar do outro sempre seja mais afiado para identificar problemas num texto, nem sempre as revisões apontadas são erros objetivos.

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“Veja que interessante”, diz Maria José. “Pode haver casos em que eu não concorde com a revisão do meu colega, por perceber que ele não entendeu o que eu quis dizer. Mas, então, a revisão dele me serviu para ver que meu texto precisa ser mais claro”. Revisar o próprio texto, afinal, também é considerar o ponto de vista de quem vai ler – uma chave fundamental para escrever bem.

Finalmente, só depois de passados a limpo em uma segunda versão, os textos seguem para a avaliação da professora, que tem em mãos não uma simples redação, mas um registro de todo o processo. O que pedagogicamente é um grande trunfo. “Quando eu vejo o que o aluno conseguiu identificar no texto do colega e, por outro lado, o que aceitou de revisões do colega no seu próprio texto, fica muito mais claro para mim quais conteúdos já foram bem assimilados por cada um e onde devo intervir”, finaliza Juliana.