Competências socioemocionais e o papel da escola no processo de aprendizagem

Competências socioemocionais e o papel da escola no processo de aprendizagem

Colégio Vital Brazil

07 Março 2017 | 10h01

“A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Essa citação de Peter Drucker nos leva à reflexão de que mesmo o futuro sendo imprevisível, ele pode ser preparado. Podemos agir para construir a sociedade que desejamos.

O século XXI vê-se às voltas com a tarefa de desenvolver uma forma adequada de governança deste mundo único. É um desafio moral e intelectual. O futuro do mundo depende da forma como o enfrentamos.

No fim da década de 1990, a pedido da Unesco, Jacques Delors organizou um relatório elencando quais seriam os quatro pilares para a Educação do século XXI, os pilares para a formação de um ser humano mais preparado para enfrentar os desafios de um mundo com contornos ainda incertos: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a ser.

A partir daí especialistas não só da área da Educação, mas de diversos setores começaram a definir as competências necessárias para cada um desses pilares. Estudos desenvolvidos pelo Instituto Ayrton Senna e pela OCDE investigaram a relação entre o desenvolvimento socioemocional e o cognitivo e o elo de ambos com os diversos contextos de aprendizagem. O resultado revelou que “o desenvolvimento das competências cognitivas é potencializado quando as socioemocionais são desenvolvidas”. Um desenvolvimento consciente e estruturado, com intencionalidade.

Para Perrenoud, sociólogo suíço, competência é ” a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc.) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações”.

Competência mobiliza saberes de alto nível, capacidades e habilidades. Implica em aplicar conhecimentos em uma situação complexa, mobilizar, transferir, colocar em sinergia saberes profissionais, saberes da experiência.

A busca por elementos para uma reflexão pedagógica sobre considerarmos a educação na perspectiva desses dois domínios – cognitivo e socioemocional – leva-nos a uma trajetória escolar bem-sucedida, que prepara o jovem para o mundo, para além dos conteúdos curriculares, e também para uma melhor qualidade da vida, ou seja, melhor qualidade nas relações entre as pessoas, no conhecimento, na educação que traz de casa e que recebe da escola.

O escritor norte americano Paul Tough, em seu livro “uma questão de caráter”, explica que as competências socioemocionais não são inatas e fixas: “elas são habilidades que você pode aprender, são habilidades que você pode praticar e são habilidades que você pode ensinar”, seja no ambiente escolar ou dentro de casa. Essas competências são usadas no dia a dia, na relação com o outro, no âmbito pessoal e de trabalho. Autoconhecimento, colaboração, resiliência e resolução de situações-problema complexas da vida real de forma colaborativa e responsável são algumas delas.

Utilizando-se de nomenclaturas diferentes, educadores de diversos países, como o Canadá, têm colocado a questão do bem-estar no centro das discussões. A secretária de Educação do distrito de Ottawa-Carleton, quando esteve no Brasil em 2014, falou sobre o processo de inserção do desenvolvimento de competências socioemocionais no currículo das escolas da rede de ensino. Em 2009, o governo de Ontário iniciou uma reforma no currículo, criando prioridades para uma agenda mais equilibrada não só visando resultados, mas também o bem-estar. Foi então desenvolvido um plano estratégico que passa pelas discussões sobre ensino, equidade, bem-estar, compromisso com o aprendizado dos alunos e professores e administração.

A valorização e o desenvolvimento das habilidades, bem como a relevância dos conteúdos curriculares são a base para uma formação sólida. Buscar informação e transformá-la em conhecimento, articular os diversos saberes e aplicá-los em situações do dia a dia, trabalhar em equipe e ser ético traduzem uma concepção integradora da educação.

Nesse contexto, a escola tem papel fundamental na formação integral do ser humano. Proporcionar de forma intencional e planejada situações que permitam crianças e jovens identificar e gerir emoções, lidar com situações-problema, colocar-se no lugar do outro, entre outras habilidades, dá a eles o papel de protagonistas no processo de construção de seu próprio conhecimento.

Uma educação de qualidade valoriza igualmente conceitos advindos de conteúdos curriculares e a constituição de valores que formam a essência do ser humano. Ao desenvolver competências cognitivas e socioemocionais, preparamos nossos jovens de forma efetiva para respeitar a si, respeitar o outro, e respeitar a Pátria.

Suely Nercessian Corradini

Diretora pedagógica.