Adolescência: que fase é essa?

Colégio Vital Brazil

29 Junho 2018 | 16h52

“Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.” – Carl Gustav Jung

A palavra adolescente advém do latim “adolescere”, que significa crescer. Refere-se ao efetivo momento de transição, quando a infância dá passagem à fase adulta, com o objetivo de atingir outra identidade, tendo a adolescência como trampolim.

Abandonar a infância e subir os degraus até o referido trampolim causa ansiedade frente ao desconhecido. Cada degrau denota aprendizado e crescimento. Chegar ao topo, com os pés já sobre a rampa, traz a certeza de que a hora chegou – um verdadeiro mergulho rumo ao desconhecido e desejado.

Mudanças físicas e psíquicas compõem, de maneira acentuada, um cenário intenso e repleto de emoções na piscina da vida. O mergulho, as bolhas da imersão, as ondas que elas causam, o balançar da água turva e a distância até as bordas são sensações internas, que traduzem instabilidade. A insatisfação com seu corpo traz ao adolescente um sentimento desconfortável e inquietante. As ondas são avassaladoras.

Por outro lado, temos um descortinar de vida com inúmeras possibilidades. Amizades intensas e amores de pura beleza, os quais ficarão para toda a sua existência.

Ao considerar esse contexto, o resultado é o de alguém que se sente demasiadamente jovem para certas questões de vida e demasiadamente velho para outras. Desejam independência e liberdade, mas ao mesmo tempo sentem-se incapazes de “criar asas e voar”. O tempo passa rápido e o mundo colorido da infância parece ficar cada dia mais cinzento. Pressões, frustrações, ansiedade, alteração de humor, ambivalência emocional e senso de justiça potencializado são algumas das características desse momento. A rebeldia está à tona, principalmente em relação à autoridade, seja ela qual for – dos pais, inclusive. Afrontar e descumprir é a demanda do momento, independentemente de como a água da piscina esteja – serena ou turbulenta.

Aberastury e Knobel (1983) postulam que esse momento é marcado por uma flutuação entre dependência e independência; somente com a maturidade, o indivíduo encontrará o equilíbrio almejado. Por mais sonhada que seja, a adolescência denota euforia e descontentamento, alegria e tristeza, coragem e medo, avanços e retrocessos… O oscilar do trampolim continua permeado pelo antagonismo, e quem o comanda pede socorro.

Em termos cognitivos, Davis (1982) postula que o desenvolvimento resulta de um amadurecimento adequado, conquistado previamente nos estágios que antecederam essa fase, ganhando gradativamente uma complexidade das estruturas sensório-motoras e operações concretas, também conceituado por Piaget (2003). O pensamento hipotético-dedutivo maturado possibilita inúmeras descobertas e contribui para o domínio e exercício da flexibilidade e versatilidade. Parafraseando Vygotsky, a aprendizagem relaciona-se ao desenvolvimento do indivíduo desde o nascimento, fato este que contribui para o seu amadurecimento.

Mais uma questão torna-se relevante – o sentimento de pertencimento – o que faz esse momento ser muito especial. Os adolescentes precisam da valorização, do reconhecimento e da afirmação do “outro”, quesitos que o grupo lhes dá – em teoria. Tudo isso colabora para seu amadurecimento e desenvolvimento. A busca por modelos traz ao jovem aumento de repertório interno.

JUNG, C. G. (2009) refere-se a esse processo de maturação como individuação. “A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. (…) Uma vez que o indivíduo não é um ser único mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente”. 

Temos, enfim, sabores intensos de alegria e satisfação. A água da vida pode parecer menos turva e instável. O oscilar pode tornar-se ameno. O mergulho, por mais difícil que seja, pode ser aprendizado. Se filmássemos em câmera lenta a trajetória do salto de um trampolim, veríamos flashes e sinais de empolgação, vivacidade, ousadia, intensidade, fantasia, coragem, luminosidade, fascínio e vida pulsante, com uma riqueza de detalhes inestimável. O que deve ficar é a consciência de que cada um deve se reconhecer como indivíduo único, na certeza de que as lembranças desta fase estarão presentes por toda a sua existência.

A chama do “gostinho de quero mais” necessita estar acesa para que venham outros saltos e trampolins, rumo ao autoconhecimento.

Rosângela Ferneda
Coordenadora assistente do Ensino Fundamental II