A música como ferramenta do professor

A música como ferramenta do professor

Colégio Vital Brazil

19 Dezembro 2016 | 10h00

Reunidos em torno da professora Daniele Torres de Almeida, meninas e meninos exploram instrumentos percussivos, como o xilofone, o reco-reco, as clavas e o triângulo. Eles ainda não desenvolveram um senso de ritmo, tonalidade ou harmonia apurados, não conhecem os elementos da linguagem musical – em sua idade, mal começaram a ser apresentados à língua portuguesa –, mas o contato com a música tem visível impacto na turma, engajada nos comandos da professora. Não demora e a balbúrdia inicial dá lugar a uma produção um pouco mais organizada: Daniele eleva a intensidade de uma cantoria, eles tocam com mais força; se diminui, eles suavizam. Ela marca uma batida com palmas, eles tentam acompanhar. Os ouvidos da turma estão atentos; os corpos também, respondendo aos sons em movimentos incontidos. O aprendizado está só começando.

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Formada em Educação Artística, com Habilitação em Música, e especialista pós-graduada em Musicoterapia, Daniele dá aulas de Musicalização para alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I do Colégio Vital Brazil. Seu objetivo, evidentemente, não é formar músicos, mas explorar o grande potencial pedagógico da música no desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança.

É o caso de atividades que trabalham a noção de ritmo do aluno, que, segundo Daniele, se refletem em competências essenciais em diversos outros momentos da vida. Exercícios de “acompanhar a batida”, por exemplo, parecem simples, mas ajudam a desenvolver o autocontrole e a resiliência (saber quando tocar e quando esperar); a cooperação e o espírito de grupo (entrar em harmonia com os colegas); a concentração e a capacidade de escuta ativa. “Essa capacidade tem relação com a própria estrutura neurológica do cérebro, que precisa ser exercitada”, diz Daniele.

De fato, a Neurociência atribui à música efeitos diretamente ligados a habilidades cognitivas da criança, como a leitura e a expressão verbal, habilidades linguísticas, o raciocínio matemático e o pensamento espacial e temporal.

Mas o cérebro não é o único órgão impactado. Também no campo emocional, a música se revela ferramenta de grande valia, dando ao aluno um meio de reconhecer e expressar algo que ele ainda não compreende de todo. “A música é uma linguagem que a criança domina antes de dominar a palavra”, diz Daniele. A professora conta que não é incomum, por exemplo, que um aluno fique triste ao ouvir uma música específica. É um momento propício para uma intervenção que vai ajudá-lo a entrar em contato com seus sentimentos e verbalizá-los, trabalhando sua autopercepção. “Uma vez um aluno começou a chorar com a música ‘Aquarela’, de Toquinho. Eu perguntei a ele se ele sabia por que estava triste. Ele disse: ‘Estou com saudade da minha escola antiga’. Porque era uma música que ele ouvia lá”.

A chave do afeto

O apelo da música à emoção, aliás, é trunfo didático que pode ser usado em qualquer disciplina – daí o seu uso expressivo na pré-escola e nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Toda professora regente sabe o poder que uma música calma exerce sobre uma turma agitada; ou, por outro lado, como uma canção mais enérgica pode “levantar” uma turma pouco estimulada.

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Como explica Daniele, a música motiva e engaja, cria um ambiente educativo prazeroso, no qual os alunos estão abertos para trabalhar conteúdos diversos. “Se usamos as músicas dos ‘Saltimbancos’, por exemplo, podemos iniciar uma conversa sobre bichos”, diz. “Ou podemos ampliar o repertório deles apresentando músicas de outras culturas”.

Marion Celli, professora de Inglês da Educação Infantil do Vital Brazil, é uma entusiasta do uso da música em sala de aula. “Nos primeiros anos, é muito importante para o professor estabelecer um vínculo afetivo com o aluno, e a música pode ser a chave do afeto”, diz a professora, que é formada em Letras, mestre em Linguística Aplicada e doutoranda em Estudos da Tradução (nos três casos, pela USP). Para atrair e manter a atenção de crianças de 4 e 5 anos – tarefa delicada para qualquer um, ainda mais para quem se comunica apenas em outro idioma, como fazem os professores de Inglês do Vital –, Marion diz que “até minhas palavras têm de ser melódicas. Quando chego em sala de aula, o meu ‘Hello!’ já é um pouco cantado”.

Segundo Marion, para o aprendizado de uma segunda língua, especificamente, a música se revela fundamental. “Primeiro, como instrumento de ampliação de vocabulário. Segundo, como meio de atingir níveis cognitivos mais difíceis, como a melodia do sotaque ou a prosódia da língua. Ouvindo e cantando uma música como ‘Five Little Ducks Went Swimming One Day’, a criança percebe com mais facilidade que o som do ‘d’ em Inglês – duck e day – é diferente. E assim as ‘janelinhas fonéticas’ vão sendo ativadas”.