A linguagem dos artistas

A linguagem dos artistas

Colégio Vital Brazil

23 Maio 2018 | 17h48

Como Música e Arte servem de base para o aluno se colocar em sociedade e fazer leituras mais críticas sobre o mundo

No videoclipe de This Is How We Do, a cantora Katy Perry fala de uma vida de curtição”, cuja rotina gira em torno de jogar ping-pong, fazer as unhas, conversar sobre  astrologia e beber vinho ao sol. Pode não parecer educativo, mas a professora de Arte Silvia Mendes sabe do sucesso que Perry faz entre seus alunos. Sabe, também, que parte fundamental da educação artística consiste em promover olhares mais profundos sobre uma obra, para além do que se percebe à primeira vista.

Não surpreende, portanto, que Silvia já tenha tratado do clipe em sala de aula. O vídeo é repleto de referências à estética dos anos 1960, incluindo um conjunto de saia e blusa utilizado pela cantora que remete ao clássico vestido tubinho, criado por Yves Saint Laurent em 1965, por sua vez inspirado na obra do pintor holandês Piet Mondrian, baseada em cores primárias e linhas geométricas. Obra esta estudada pelos alunos do 3o ano do Ensino Fundamental do Vital. “Estão vendo isso?”, a professora pergunta à turma. “Alguém pesquisou isso, não está aí por acaso”.

Perceber conexões entre diferentes linguagens; relacionar o que se vê numa obra com o que se sabe do mundo; compreender as intenções do artista e “dialogar” com ele, considerando o que a obra tem a dizer. Esses são alguns dos objetivos que Silvia e as outras professoras de Arte do Vital – Juliana Carnasciali e Maristela Pinheiro – pretendiam ao montar o plano pedagógico da disciplina. Um percurso ao longo do qual elas esperam expandir os modos de olhar de seus alunos para a Arte, além de ajudá- los a expressar suas ideias e sentimentos.

Nesse sentido, apresentam proposta semelhante à das professoras de Música do Vital, que também utilizam a música como um meio de adquirir e manifestar saberes e competências.

Aprendendo a se expressar

Se até o Ensino Médio o aluno deverá se relacionar com a Arte de maneira reflexiva e crítica, os primeiros anos envolvem experiências bem mais concretas. Segundo Juliana Carnasciali, que dá aulas da Educação Infantil ao 2o ano do Fundamental, “os primeiros passos são focados na exploração de vivências diversas”. Ou, como define o projeto pedagógico, “o modo de olhar a Arte na Educação Infantil é da ordem dos encontros táteis”. Ao pintar um painel com as mãos, ao melar bexigas de tinta para carimbar folhas de papel, ao produzir colagens ou outro trabalho qualquer, os alunos de Juliana estão construindo repertórios pessoais de imagens, sensações e procedimentos aos quais, mais tarde, recorrerão com maior intencionalidade expressiva e atenção à sua carga simbólica.

Nas aulas de Música não é diferente. Os alunos da professora Daniele Torres, que ensina do Maternal ao 1o ano do Fundamental, vivenciam a música por meio de instrumentos percussivos, como o reco-reco, a clava e o triângulo. Assim como na Arte, é tudo muito lúdico

e exploratório, mas com regras simples – acompanhar a batida, produzir sons mais fortes ou fracos, etc. –, que servem para apresentar aos alunos componentes concretos de musicalidade e parâmetros sonoros, como ritmo, timbre, intensidade ou altura.

Mesmo que não percebam, já nesse momento os alunos exercitam, por meio da música, importantes habilidades, como a cooperação (cantar/tocar junto aos colegas), o autocontrole (saber quando tocar e parar) ou a escuta ativa (ouvir com foco e atenção). E também começam a explorar o campo das emoções (ao distinguir músicas tristes ou alegres, por exemplo), entrando em contato com seus sentimentos e os deixando fluir. Como diz Daniele, a música – assim como outras linguagens artísticas – “está em prol do ser humano, para que ele possa sentir e se expressar”.

“Tem criança que não se comunica facilmente”, diz Mariana Carvalho, professora responsável pelas turmas do 2o ao 5o ano. A música, segundo Mariana, seria uma das chaves à disposição da escola para mudar isso, como ela relata ter ocorrido com um aluno no passado. “Ele era muito tímido, participava pouco das aulas. Até que, para um Encontro das Famílias, a turma ensaiou uma música do He-Man. Ele cantou e, de repente, era como se tivesse reconhecido em si uma qualidade, o mundo tivesse se aberto para ele. Virou outra criança”.

Para Mariana, a música ajuda os alunos a se colocar em sociedade e, dessa forma, torna-os cidadãos. Em apresentações de coral, por exemplo, eles aprendem que precisam ter uma postura correta para a voz não sair fraca, que não podem ficar se movendo pelo palco e que, acima de tudo, devem respeitar a plateia. “Eu sempre digo: pisou no palco, já está se apresentando”, diz ela.

“A Arte pode ser reflexo de como o aluno se apresenta na vida”, diz Silvia Mendes, na mesma linha. Ao avaliar os trabalhos produzidos nas aulas, por exemplo, Silvia

está menos interessada no talento dos alunos e mais no cuidado que dedicam à tarefa e na capacidade de transmitirem uma poética pessoal por meio da Arte. “Se eles não se empenham, se simplesmente copiam algo que eu fiz, se apresentam um repertório limitado, preciso intervir”.

“A ampliação de repertório é muito importante para nós”, enfatiza Juliana. Inclusive para que, à medida que avancem, os alunos sejam capazes de produções mais ricas e leituras mais críticas, acompanhadas de pesquisas sobre a vida dos artistas e sobre o contexto social, histórico e político das obras estudadas. Afinal, quanto mais o aluno trouxer em sua bagagem de saberes, mais ele será capaz daquele olhar profundo pretendido. Um olhar que entende que a Arte não existe num vácuo; que um azul às vezes não é só um azul; que um desenho incompreensível pode não ser um erro, mas uma escolha; e que o figurino de uma cantora pop pode não ser uma roupa qualquer.