A descoberta de si mesmos

A descoberta de si mesmos

Colégio Vital Brazil

27 de outubro de 2020 | 09h44

Apesar do medo, alunos avançam nos estudos com mais maturidade do que antes da pandemia.

 

Assistir a aulas em casa não é fácil para todo mundo – ainda mais para alguém que, como Beatriz Pimentel, teve mais de uma década para se acostumar à escola presencial. Aluna da 2a série do Ensino Médio do Vital Brazil, Beatriz admite ter tido dificuldades no começo da quarentena, principalmente em conciliar o tempo dedicado às aulas ao vivo (lives) e aos roteiros de atividades com o tempo dos estudos para as provas. Para dar conta de tudo, não raro Beatriz cumpria um expediente de quase 12 horas diárias, das 7h30 às 19h, às vezes tomando também os fins de semana.

“A gente não tem a mesma produtividade do presencial”, diz a jovem. “A gente não fala ‘vou estudar’ e estuda direto. É mais difícil se concentrar. Tem o celular do lado, vou dar uma olhadinha. Dou um passeio pela casa, olho pela janela, fico ali cinco minutos, ‘brisando’…”

Daniela Lo, da 1ª série do Médio, também relata um período de agenda apertada, com dias de estudo se alongando até as 23h, quando as matérias se acumulavam. “É mais difícil para mim, porque, mesmo que sejam 30 minutos de videoaula, tem coisa que eu não entendo, aí vou parando, voltando, demora mais”, diz a aluna. Já Laís Bazolli, da 3ª série, além de também ter passado “duas ou três semanas perdida” até se organizar, ainda tinha uma preocupação adicional: a preparação para o vestibular. Para Laís, estudar noite adentro era sofrido (“minha cabeça não funciona mais, não tenho foco”) e o computador que ela tinha à disposição era muito antigo.

Passados três meses da nova realidade, porém, as três haviam chegado a soluções satisfatórias para seus problemas. Se não conseguia “estudar direto”, Beatriz descobrira que as pausas de 15 minutos entre uma aula e outra a ajudavam a “fixar melhor o conteúdo”, e até no sono percebera ganhos, já que podia dormir um pouco mais pela manhã, acordar às 7h e estar pronta para a primeira aula em 30 minutos. Já Daniela, tendo montado agenda e cronograma próprios, com alarmes de hora em hora, pôde não apenas se manter em dia com os estudos como reservar momentos para atividades físicas e convívio com a família. E Laís, sabendo-se mais produtiva pela manhã, passara a acordar bem cedo, ao passo que um computador novo recebido dos pais eliminara a limitação tecnológica.

Mais do que atender às demandas da escola, no entanto, o que Beatriz, Daniela e Laís fizeram foi algo de maior valor. Elas se dedicaram ao estudo como um compromisso pessoal, não com o Colégio, mas com o próprio aprendizado. Confinadas em casa, elas – e os outros alunos do Vital, em especial do Ensino Médio – assumiram o protagonismo da própria história.

 

Desligando o piloto automático

Que seria um desafio se adaptar ao ensino remoto era esperado. Todavia, para o coordenador do Ensino Médio, André Rebelo, parte da dificuldade sentida pelos alunos deveu-se, na verdade, a uma falsa impressão de sobrecarga de estudos. “O aluno acha que a carga é maior porque na escola o processo era feito junto com professor”, diz André. Segundo ele, a presença dos professores dando aula, cobrando lições ou passando exercícios em sala fazia parecer que o aprendizado era ativado pelo professor e que ao aluno cabia apenas ser mais ou menos responsivo. “Ele não pensava tanto na carga porque era rotina. Mas aí você desliga o automático e sente que a responsabilidade de ativar o processo é sua”.

Sempre foi, ressalta o coordenador. A quarentena só tornou evidente que prestar atenção na aula, dedicar-se aos estudos e até mesmo fazer provas sem colar não são questões de oportunidade (o que posso fazer), mas de iniciativa pessoal (o que devo e quero fazer). E isso, apesar de trazer ganhos – como a oportunidade de organizar a rotina em torno de horários e condições mais produtivos para cada um –, tem um peso. “O aluno tem de se perceber autor das próprias escolhas”, diz André.

Para quem acabara de iniciar o Ensino Médio, foi uma lição de grande valia. “Ajudou a entender que se esforçar e dar o máximo é para a gente, e não para a escola ou para nossos pais”, diz Daniela Lo. “Ou a pessoa vai lá e rala, ou não entende mais a matéria e começa a descer ladeira abaixo”. Na outra ponta do ciclo, Laís concorda: “Eu tenho de fazer por mim, tenho de crescer sozinha”. Mas “fazer por si” e “crescer sozinha” não são a mesma coisa. Segundo André, mesmo distante, o Vital ofereceu suporte aos alunos tanto em questões acadêmicas – com os professores em contato frequente com cada um e respondendo a todas as dúvidas pelos chats – como em reuniões virtuais com a Coordenação, para ajudá-los a montar rotinas de estudo mais produtivas ou a pensar seus projetos de vida. “Quem mais participava foi criando um vínculo maior e teve desafios menores na adaptação”, diz o coordenador. Isso sem falar na possibilidade de os alunos se reunirem em grupos virtuais para trocar informações e experiências ou estudar juntos. Sozinhos, eles nunca estiveram.

Ainda assim, mesmo entre os mais participativos, o ensino remoto gerou incertezas. Segundo Beatriz, uma pesquisa entre alunos da 2ª série descobriu que a maioria sentia alguma inadequação com o modelo. “A gente sente que não está aprendendo da mesma forma, a absorção não tem sido a mesma”, diz a jovem. E para os concluintes, como Laís, o medo de não aprender ainda vinha acrescido do risco de, quando ocorrerem o vestibular e o Enem, que podem ser adiados em meses, o que se aprendeu já ter sido esquecido.

Para André, tal temor é mais um reflexo da falta da presença física, reconfortante, dos professores. “É o fato de não ter ninguém ali, cobrando. Mas eles estão aprendendo, sim”. Já a professora de Geografia e Sociologia, Michele Rodrigues, assegura: “O conhecimento escolar é espiralado. Conforme ele aumenta, vocês vão vendo coisas que já viram, só que de forma mais aprofundada. Então, tranquilizem-se: o que vocês estudam na 1ª e 2ª séries, vocês vão rever”.

E quem está na 3ª série? Segundo Michele, quem faz as lições e avaliações “com afinco e compromisso” tem uma boa medida do aprendizado, que está, sim, acontecendo.

Para Laís, que adotou o hábito de fazer fichas de revisão de tudo que estuda, o risco está controlado. “Já me planejei para todo dia das férias pegar uma matéria e revisar as fichinhas, para sempre ter o assunto em mente”, diz a aluna, que acredita ter dobrado seu empenho pelos estudos na quarentena. “Essa vontade de estar com tudo em dia, acho que é o que mais vai ficar desse período”.

 

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