Estudo de campo: O prazer da conversa e a descoberta da alteridade

Estudo de campo: O prazer da conversa e a descoberta da alteridade

elvira

06 Maio 2016 | 14h16

Muito se discute sobre o poder e a necessidade de descerrarmos as paredes das salas de aula e colocarmos nossos alunos em contato com a multiplicidade de contextos imersos no que chamamos de realidade. Sem incorrermos no lapso de separar essa mesma sala da realidade, da qual ela é componente, e reconhecendo ser possível alçar ao universo sem levantar das cadeiras, derrubar as paredes, fisicamente, continua sendo um momento especial!

A aposta numa viagem pedagógica, para além do contato com os conteúdos escolhidos para a interação objetiva com o currículo escolar, reserva surpresas.  É possível reconhecer a aprendizagem sendo absorvida por todos os sentidos simultaneamente e transformando, serenamente, a capacidade de percepção dos alunos.

A língua é um elemento determinante da identidade. A troca lingüística e o diálogo são estradas para a percepção do outro. Segundo Tânia Alckmin (2006), “o estudo das formas de tratamento, ligadas à identidade social do receptor ou do ouvinte; o estudo das diferenças entre a forma e a função dos estilos formal e informal da língua; os julgamentos sociais que os falantes fazem de seu próprio comportamento linguístico e o dos outros”, instrumentam para a condição de colocarem-se os interlocutores, automaticamente, em novos lugares.

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Nesse sentido, ao longo de uma entrevista, ou de um “papo na praça” identidades diferentes estão sendo mediadas pela riqueza e diversidade da língua portuguesa, derrubando o mito de sua unicidade, o que Marcos Bagno (2007) considera determinante para, a partir da superação do preconceito linguístico, superar-se qualquer olhar preconceituoso, seja de gênero, cor ou condição.

Na última semana de abril, um grupo de 46 jovens do 1º ano do Ensino Médio da Escola Villare, visitou o município de São Roque de Minas – MG, ponto de apoio para a visita à Serra da Canastra, seu cerrado, o rio São Francisco, o queijo. Entretanto, foram em breves duas horas de passeio livre pela pequena cidade que a magia da comunicação transformou seus universos.

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Em pequenos grupos, libertos, os jovens assumiram a missão de entrevistar os moradores locais. O que começou como tarefa, transformou-se em amenidade!  Como não ser seduzido pelo convite a adentrar a residência do entrevistado e render-se ao seu cafezinho no coador de pano? Como resistir a visitar uma cooperativa escolar e dialogar com seus jovens alunos, depois de conhecer sua professora na pracinha?  O tempo parou. E essa pausa no ritmo mecatrônico da História integrou as realidades. Nesse instante era natural estabelecer-se no lugar do outro.

Uma voz grave da infância anuncia: “Nunca fui na escola, aprendi a se virar, desde menino assim com oito anos. Aprendi tirar leite, roçar pasto, mansar boi de carro, que era um transporte antigo. Por que hoje falar em boi de carro ceis nem conhece.” O fascínio pelas palavras do Sr. Francisco, 65 anos, pelos seus violentos relatos sobre ter sido retirado da área onde hoje está consolidado o Parque Nacional da Serra da Canastra, relativizaram conceitos até então sólidos aos alunos.  Aos olhos dos outros, tudo pode ser diferente!

Mais que as histórias, a oportunidade desse encontro linguístico transportou os alunos a realidades paralelas que coabitaram o espaço por breves instantes, quando não havia “lados”, mas “trocas”. Apenas o futuro vai dizer o quanto esse exercício vai se repetir na prática pessoal de cada um dos jovens que o experimentaram.

Disponível em: http://tgdci.blogspot.com.br . Acesso em 03/05/2016

Disponível em: http://tgdci.blogspot.com.br . Acesso em 03/05/2016

Voltamos. Descongelamos o tempo. Contudo, contamos que o exercício de posicionar-se ao lado, não apenas no lugar, mas com o “outro”, conquistado nessa prazerosa troca, seja uma das ferramentas acessadas cotidianamente por nossos jovens, a fim de que se desmistifiquem as hierarquias dos lugares, as diferenças e os preconceitos. Que seus resquícios gotejem lentamente. Evaporem! Essa seria a conquista da alteridade.

Júlio Augusto Farias
Coordenador Pedagógico do Ensino Médio

 

Referências:

ALKMIN, Tânia Maria. Sociolinguística – Parte I. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (org). Introdução à linguística: domínios e fronteiras – vol 1. São Paulo: Cortez, 2006.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2007.