Construindo conhecimento pela estrada da Literatura

Construindo conhecimento pela estrada da Literatura

elvira

24 Novembro 2015 | 09h22

Para a Educadora Ana Teberosky debater e opinar estimula a leitura e a escrita. Para Paulo Freire a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Já a especialista em leitura Marisa Lajolo, em seu clássico “Do mundo da leitura para a leitura do mundo”, ressalta a importância tanto das obras clássicas quanto das “modernas” para o desenvolvimento dessa habilidade.

Mas de que adiantam as concepções teóricas se não se concretizam nas práticas pedagógicas?  Esse desafio em integrar as ideias desses três importantes autores deve ocupar papel central nos projetos de construção e transposição da leitura e da produção escrita nas salas de aula, traduzindo a língua materna como ferramenta de construção da crítica, percepção dos contextos e tradução de realidades.  Enfim, dimensionar a leitura como possibilidade de produção de multiletramentos.  Ler para a escola parece pouco.

O desafio aponta caminhos!  É percorrendo a estrada das letras que os alunos do Ensino Médio, em grupos, desvendam um caminho para a transposição e significação de seus conhecimentos através da leitura e da integração de obras clássicas e contemporâneas (entre elas aquelas elencadas para os exames vestibulares), experimentando textos e contextos, estilos e enredos, ao curso do vento das palavras.

Os grupos de trabalho elegeram as obras que abordariam e, a partir de então, cumpriram diferentes etapas até a apresentação às turmas e professores do conhecimento produzido ao longo de seus processos de análise e descoberta.

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O ponto de partida são os elementos da teoria literária, abordando de forma profunda e técnica as configurações de narradores, tempos, espaços e as diferentes dimensões das personagens. Desvenda-se a complexidade de Clarice, a inusitada estética de Saramago, a atualidade de George Orwell, o engajamento de Dostoiévski.

É justamente essa descoberta que aguça a percepção para os diferentes contextos de produção desses autores e suas obras, remetendo à inter-relação que constituem com seu tempo histórico, suas concepções políticas ou mesmo o universo psicológico que envolve suas personagens. Enfim, aquilo que estrutura uma “época”. Nessa construção a Filosofia e a História colaboram para representação desse contexto, visto serem elas próprias escrita e leitura de mundos e ideias e, por isso, integrantes do universo de conhecimento que a leitura propõe.

No entanto, o exercício de leitura de mundo a partir da Literatura exige ainda autonomia e protagonismo para que seja estabelecida a reciprocidade entre obra e leitor.  Está aí a função da intertextualidade!

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Cada um dos grupos foi instigado a investigar uma segunda obra de sua livre escolha, tanto no aspecto temático quanto à sua natureza.  Por isso, filmes e documentários, músicas e obras de arte iconográficas e mesmo outros livros foram pinçados de um múltiplo universo de possibilidades que invadiu as salas de aula no momento de suas apresentações.

Espera-se que essa avalanche de conhecimento desencadeada pela leitura seja capaz de provocar rachaduras nas paredes das salas de aula e que, através dessas brechas, incertas e tortas, escola e mundo se entreolhem e se descubram integrados e complementares, renovando seus sentidos através não apenas das personagens, mas dos sujeitos que os significam: os alunos leitores de mundo.

Júlio Augusto Farias
Coordenador Pedagógico do Ensino Médio