A escola e o repertório cultural de seus alunos

A escola e o repertório cultural de seus alunos

elvira

18 Março 2016 | 14h42

A cada ano letivo que se inicia são planejados conteúdos, procedimentos e estratégias a fim de que se conquistem os objetivos almejados na formação dos alunos da Educação Básica. As provas realizadas, os rendimentos mensuráveis dos trabalhos e simulados e o estudo sistemático são, sem dúvida, fatores importantes para que sejam atendidas as principais demandas da escola pelo sucesso de seus alunos.  Mas esses elementos constroem por si um Ensino Médio eficaz?

Impossível responder a essa questão sem a reflexão dos objetivos da Educação Básica. Chega a ser senso comum dizer que a Educação não se encerra no acesso à universidade e que as escolas devem preparar os alunos para a vida.  Entretanto, qualquer atividade diretiva nesse sentido incorre no risco de “formatar” os alunos, direcionar seus olhares.

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Cultura. A proteção social aos jovens em virtude da segurança ou as possibilidades de interação imediata e à distância, por meio das múltiplas tecnologias, o mundo multimídia, media também sua formação cultural.  A multiplicidade de conceituações para “cultura” tempera, ainda, as estratégias para sua abordagem na escola.

Desde a dimensão clássica do florescer das mentes, de cultivar os pequenos para que crescessem como grandes, passando pela necessidade de superação da relação entre a aquisição e a concentração do capital cultural, chega-se a uma percepção da cultura como um emaranhado de práticas que se acessa naturalmente no cotidiano, uma nuance do que Gilles Deleuze apontou como “não ter saber de reserva”.

Para isso, a naturalização da abordagem cultural, combinada à realização de eventos que estreitem a relação dos alunos com a diversidade dos “lugares de cultura”, acena como vereda a ser trilhada, promovendo ações internas e externas ao espaço escolar.

É pautada nessas estratégias e concepções que a Escola Villare consolida sua “Agenda Cultural”, buscando a pluralidade e a diversidade de temas e abordagens, oportunizando a construção de um repertório dinâmico e plural e que envolve mais que os professores das “humanidades”.

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A participação em eventos do grande circuito cultural, a realização de debates sobre filmes e de encontros para discutir temas sob o ponto de vista da Filosofia, assim como palestras, são eventos estruturados por grupos de professores a partir dos interesses dos alunos. Foi o que se viu no mês de fevereiro. Acompanhados pelos professores de Linguagem, Literatura, Filosofia e também de Matemática e Geografia, cerca de 80 alunos assistiram ao espetáculo “Um bonde chamado desejo” no Tucarena.

 O texto e as atuações marcantes do elenco carregaram para as salas de aula e, certamente, para o imaginário dos jovens participantes, as múltiplas leituras, as associações contextuais e a atualidade que o texto bombástico de Tennessee Willians provocaram nos espectadores da metade do século XX, expondo continuidades e rupturas nas concepções sociais, nos valores e tendências da atualidade.

 “A Caverna dos sonhos esquecidos”, de Werner Herzog, foi a escolha para exibição no Cine Villare, ação que, além da apresentação do filme, pluraliza o debate com uma discussão entre diferentes áreas. Nesse caso, os professores de Filosofia, Biologia e Matemática aproveitaram-se da arte rupestre e de sua aproximação aos sonhos para debater, como metáfora da ação transformadora dos homens, a interação e a apropriação do meio de forma essencial, percebendo que as representações são singulares, mas que sua existência concretiza a observação de Eliane Brum sobre a obra, para quem o autor das pinturas, em sua imperfeição, tornando-se todos, torna-se um.

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 A naturalização da convivência cultural deve ser fomentada até o ponto em que seja indissociável do cotidiano dos jovens e que não seja possível abandoná-la ao fim da Educação Básica, fazendo parte da liberdade e da essência dos alunos em sua convivência universitária e profissional, enfim, no meio social em que dialogicamente são formados e formadores, seres e não seres, protagonistas e coadjuvantes.

Júlio Augusto Farias
Coordenador Pedagógico do Ensino Médio