Vestibulanda: antes, durante e depois

Estadão

16 Fevereiro 2011 | 15h24

“Larga a porcaria deste livro, Leminski não cai no vestibular”, disse-me há algum tempo um colega meu, meio que sintetizando a essência do vestibular: abandono da leitura “não obrigatória” e dedicação às coisas “úteis” para o vestibular. Eu bem que tentei fazer isso…

Antes

Quando assumi de frente minha defasagem, isto é, quando reconheci que os últimos três anos da minha vida escolar serviram apenas para ter consciência social, enlouqueci. Corri atrás de toda sorte de livros – didáticos, paradidáticos, pré-vestibular -,  pedi emprestado e cheguei a rasgar uma apostila de física em um momento de estresse. Havia feito um cronograma espartano de estudo, que só consegui seguir até o meio do ano. Cheguei a postar aqui, quando renunciei o estudo de algumas disciplinas. Sem contar que havia inventado de estudar francês, e sofri muito em ter de abandoná-lo. Ficava triste também em não ter tempo suficiente para a leitura “não obrigatória”. Tudo isso porque eu tinha estabelecido uma meta muito grande: passar num curso de concorrência média estudando por conta própria.

No meio do ano, inventei uma outra ocupação: curso técnico em Bioquímica. Cheguei a frequentá-lo durante uma semana, tempo suficiente para perceber que as ciências não eram para mim.

Voltei das aulas de Bioquímica aliviada. Sem o peso da jornada dupla, consegui refazer meu cronograma de estudo, com algumas revisões e seis redações por semana. Sim, seis redações. Estava focando na 1ª fase da Unicamp, em que as redações valem a metade da nota. Elaborei vários temas baseando-me no simulado, e tive de ser muito crítica com os meus textos, pois estava sozinha nessa também. Devido a minha facilidade com a matéria, consegui desenvolver de forma satisfatória, sem sair por aí rasgando apostilas.

Não fiquei nervosa na véspera do vestibular. Fiquei tranquila, até demais, e revisei algumas matérias para a prova.

Durante

Mesmo sem lápis e relógio, fiz o Enem com a calma de um Buda. Achei a prova mais difícil que do ano anterior e a facilidade das questões de inglês me surpreendeu. Na redação, fiquei feliz com o tema Trabalho e Escravidão. Lembrei-me de um livro que havia lido nos meus momentos de estresse – O que é dialética, de Leandro Konder -, da coleção Primeiros Passos. Citei Hegel e Marx com muito gosto.

No dia da aplicação da prova da Unicamp, estava uma pilha de nervos. Fiquei com dor de cabeça no dia da prova, devido ao estresse. Fiz o exame com a mão trêmula. Demorei um tempo enorme no texto 3,  que usava uma crônica de Drummond como inspiração. Tive de responder às 48 questões em menos de uma hora. Se eu passasse naquela prova, poderia me considerar uma pessoa de sorte.

Não senti o peso da prova da Fuvest. Fiz com muita calma, e fiquei feliz em conseguir responder a algumas questões de química, algo até pouco tempo impossível. Saí da sala com a certeza de que tinha passado, devido à baixa nota de corte do meu curso.

Depois

A baixa nota de corte da Fuvest não me surpreendeu. Era uma pena que, por mais alta que fosse minha nota na 1ª fase, de nada valeria. Não comemorei essa aprovação, pois a USP não era o meu foco.

Quando acessei o site da Comvest e vi que não tinha sido aprovada na Unicamp, caí. Pela primeira vez, uma desaprovação. Obviamente, fiquei muito triste. Demorei uma semana para me recuperar do baque. Um ano inteiro de dedicação para depois não ser aprovada… Frustrante.

As notas no Enem foram medianas. Esperava, na redação, chegar na casa dos 900, mas fiquei com 825. Cometi alguns deslizes gramaticais que, provavelmente, me tiraram pontos.

Alguns dias depois, a Unicamp divulgou o resultado das provas. Não havia passado por 4 pontos! Que ridículo! Depois de algum tempo, percebi que não era tão fracassada assim, pois havia feito a prova num estado de nervosismo descontrolado. A ausência de quatro pontos não era uma derrota muito feia…

Fiz a 2ª fase da Fuvest sem muito compromisso. Ainda estava me recuperando da desaprovação da Unicamp. Gostei das questões do primeiro dia, e odiei as do segundo. Achei desnecessário um exame de conhecimentos gerais na 2ª fase.

Encerrada a maratona, tirei um tempo para a minha leitura, aquela que é “inútil” para o vestibular. No começo do ano passado, havia feito uma lista de livros que pretendia ler. Caio Fernando Abreu, Álvaro de Campos, Clarice Lispector. Não consegui lê-los com digestão. No “descanso”, dei continuidade à leitura dos livros. Nunca estive tão tranquila…

Minha tranquilidade durou pouco tempo: não fui aprovada na Fuvest. Os resultados indicam que fui acima da média em apenas duas provas: na 1ª fase e na de português e redação. Já no terceiro e no segundo dia, meu bom desempenho não se repetiu.

E agora?

Depois da dupla desaprovação, resta uma certeza: terei tempo de consertar meus erros. Estou um pouco desanimada, mas não a ponto de desistir. Sei que conseguirei superar os limites do vestibular. Agora em 2011, já comecei a ter aulas particulares de matemática. Fiz matrícula num cursinho comunitário, mas não tenho muita certeza se conseguirei frequentá-lo até o fim.

Terei de me dedicar menos à escrita, que, para o vestibular, já atingiu um grau satisfatório. E também vou ter de largar a “porcaria” do livro do Leminski e de outros poetas que tanto li. Esses caras, infelizmente, não são “úteis” para o vestibular…

Bianca estudou por conta própria para entrar em Letras

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