O princípio da educação é o amor e a família

Estadão

25 Agosto 2010 | 07h28

Caros leitores,

Gostaria de me desculpar porque hoje não publicarei nenhum texto falando sobre o dia a dia na Cidade Universitária da USP. Ontem, recebi uma notícia que me deixou abalado e profundamente triste: uma querida e grande tia faleceu.

Oscar Wilde dizia que “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Hoje, fazendo um retrospecto, o que me conforta é ver que ela de fato viveu, e não meramente existiu.

Há 12 anos, minha tia Cristina era acometida por uma doença degenerativa extremamente rara. A partir dos 40 anos, ela começou a perder algumas funções.

Há 22 anos, quando minha irmã  (que tem necessidades especiais e cuja história contei no ano passado, no blog do Estadão.edu) nasceu, todos da minha família estavam confusos e transtornados com a notícia. Essa minha tia foi a primeira a dizer: “Não, vamos assumir! Vamos lá!” E, assim, ela fez de tudo para incluir a minha irmã, trouxe uma mala de presentes só pra ela da Disney, ficava acordada até de madrugada para conversar com a minha mãe enquanto ela amamentava e demonstrou o amor de todas as maneiras possíveis. Tocava flauta, piano e violino, era professora, dava aulas na igreja e, acima de tudo, tinha um coração de ouro. Era muito difícil ver uma pessoa tão múltipla como ela passando pela degeneração.

Eu procurava conversar com ela de igual pra igual, como se nada estivesse acontecendo. No começo ela podia responder com algumas palavras soltas, depois apenas com sílabas. Aí vieram os sonidos e, ultimamente, a comunicação estava sendo apenas com o olhar e o piscar de olhos. Sempre quando eu a visitava, agradecia por ela ser tão forte.

No ano passado, ela teve uma parada cardíaca, mas milagrosamente conseguiu voltar do coma em menos de três dias. Depois ela teve de voltar outras vezes ao hospital e, mesmo desenganada por tantos médicos, conseguia se restabelecer e voltar pra casa. Era a força dela para mostrar que estava vivendo, e não meramente existindo.

Por isso, quando falavam “que pena” ou “coitada” eu sentia como uma afronta a alguém que conseguia lutar tanto por dentro. Quantos por aí, por muito menos, não desistem…

Enfim, talvez você tenha vindo aqui hoje pra ler alguma coisa sobre Educação e acabou lendo esse texto. Então, nunca se esqueça de que o princípio da educação é o amor e a família. É nela que você constrói os laços mais fortes para aprender e ensinar.

Termino hoje com aquele versículo bíblico dizendo que ela “combateu o bom combate, concluiu a corrida e guardou a fé” (2 Timóteo 4:7). Hoje, não irei ao velório – não é essa a imagem que quero guardar dela. Se ela deixou de existir fisicamente, continuará vivendo em meu coração.

Leandro é aluno do 1º de Jornalismo da ECA-USP

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