O Brasil em Harvard

Estadão

04 Outubro 2011 | 01h48

No seu recente tour pela América do Sul, Drew Faust, a primeira mulher presidente de Harvard, deixou claro que um dos objetivos da sua visita era incentivar o aumento do número de brasileiros em Harvard. Cada vez mais internacional, a universidade tem 20% de estrangeiros entre seus alunos, mas o número de brasileiros ainda é decepcionante.

Do total de 4.321 estrangeiros na graduação e pós-graduação, apenas 64 são brasileiros, segundo a análise mais recente. Ou seja, o país que tem 2,74% da população mundial tem apenas 1,5% dos alunos estrangeiros de Harvard. O Brasil, em números absolutos, tem menos alunos que a Coréia do Sul (304 alunos), Singapura (133), Turquia (97) e Taiwan (84), só para mencionar alguns.

O crescimento do Brasil e seu novo papel no cenário internacional tem aberto os olhos das grandes universidades para os alunos brasileiros. Olhando para o futuro da economia mundial, e levando em consideração os Brics, o Brasil parece ser a aposta mais auspiciosa. Com os direitos humanos sendo constantemente violados na China, com a Índia ainda convivendo com seus problemas históricos de castas e com a Rússia regredindo politicamente, o Brasil pode ocupar não só uma posição econômica importante, mas também servir como um exemplo a ser seguido pelos outros países em desenvolvimento. São com esses olhos que Harvard tem visto os brasileiros, declarando abertamente seu interesse em formar nossos futuros líderes e cientistas, que ajudem o Brasil a ajudar o mundo.

O Brasil tem decepcionado em número de alunos em Harvard e o problema não é de hoje. Talvez falte ao Brasil maior exposição pública entre seus alunos. Ao contrário do México, Chile e Colômbia (cujos atuais presidentes são ex-alunos), o Brasil tem poucos exemplos históricos. Mas pode ser que a situação comece a mudar. O segundo brasileiro mais rico (Jorge Paulo Lemann), segundo a Forbes, não é somente ex-aluno como, através de sua fundação, a Estudar, oferece bolsas para brasileiros talentosos estudarem aqui. Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook enquanto estudava em Harvard, cuja história serviu de referência para o filme A Rede Social, talvez seja atualmente um dos brasileiros mais conhecidos no mundo.

É preciso deixar claro que Harvard não é uma realidade inatingível. A qualidade média dos alunos de Harvard não difere em nada dos alunos das melhores universidades do Brasil. Existem algumas características que fazem Harvard uma escola de sucesso (professores motivados, bibliotecas bem abastecidas), mas inteligência dos alunos não é uma delas. A verdade é que o grande problema não é que Harvard aprova poucos brasileiros, é que poucos brasileiros aplicam para Harvard.

Às vezes recebo perguntas sobre como aplicar nas faculdades no exterior e sobre oportunidades de bolsas, o que me deixa feliz. O problema vem quando pergunto para onde vai aplicar e a pessoa balança, e no fim acaba falando que está pensando numa faculdade no interior do Minnesota. Nada contra essas faculdades, que devem ser melhores que a grande maioria das brasileiras (pelo menos segundo os rankings), mas dá para ser mais ambicioso.

O tempo gasto aplicando para uma faculdade boa quando você já tem todos os documentos prontos é apenas uma diferença marginal. Não ser aprovado nas grandes faculdades do exterior não é demérito algum e na pior das hipóteses te ajuda a saber onde você se situa academicamente. Ser aprovado no interior do Minnesota quando você poderia ir para a Universidade de Chicago é um desperdício do seu talento.

Se você estiver pensando em estudar no exterior, não se esqueça disso. As boas faculdades do mundo inteiro estão procurando desesperadamente por mais brasileiros. Alguém tem de ser aprovado, por que não você?

Twitter: @alexdiasporto

Alexandre Chiavegatto Filho é pós-doutorando na Universidade de Harvard em Saúde Pública e Economia