Monteiro Lobato sob censura?

Estadão

03 Novembro 2010 | 08h30

“Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem carne preta.”

Frases como essa, do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, têm gerado discussões no Conselho Nacional de Educação (CNE) sobre um possível veto à utilização dessa obra nas escolas, em razão do caráter racista e preconceituoso de algumas referências à personagem Tia Nastácia.

Enquanto lia as notícias veiculadas sobre o assunto, imediatamente me veio à cabeça a seguinte frase de uma das obras de Machado de Assis: “Por que bonita, se coxa, e por que coxa, se bonita?”. Trata-se de um monólogo interior do famoso personagem Brás Cubas em que ele, inconformado, vê como incabível o fato de uma pessoa (a saber, a personagem Eugênia) ser bela e, ao mesmo tempo, apresentar alguma deficiência física. Para ele, alguém bonito não podia ser deficiente e, pior do que isso, uma pessoa com deficiência não poderia ser bonita! Analisando sob o mesmo aspecto, esse trecho é tão preconceituoso como a “carne preta” de Tia Nastácia. E se ficássemos pensando mais, encontraríamos preconceito em O Mulato, em A Escrava Isaura, em Capitães da Areia, etc.

Diante disso, o que diremos? Machado de Assis é preconceituoso? Lobato é preconceituoso? Vamos abolir todos esses livros da escola?!

Não. Se vivemos em uma democracia, e não em uma ditadura, é óbvio que não deve haver veto a essas publicações. Vejo que o preconceito não está em Machado de Assis ou em Monteiro Lobato, mas está embutido na mente e nas atitudes de seus personagens que personificam uma época, por sinal, bem distante da nossa. Um contexto histórico em que considerar o negro um ser inferior e desprezar o deficiente eram atitudes normais, por mais duro e terrível que isso pareça.

O que mais me decepciona é ver que tais atitudes desumanas e abomináveis melhoraram pouco em nossa sociedade. Ainda é possível encontrar outros Brás Cubas por aí, que veem como impossível o fato de o dito “deficiente” assumir as mesmas qualidades que uma pessoa que se diz “normal”. É duro ver que esses personagens ainda estão à solta nas ruas.

Por isso que as crianças, adolescentes e jovens têm de ler esses livros! Os estudantes que ouvem falar tanto em bullying nos últimos tempos precisam ver o quão ultrapassada é essa atitude. Afinal, Memórias Póstumas foi publicado em 1881! Eles precisam ver que o preconceito e o racismo existem há muito tempo e que é necessário extingui-los o quanto antes, e transformá-los em “coisa do passado”.

Fico feliz em relembrar que no período escolar, assim como fui estimulado a ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, li também os livros Ninguém é igual a ninguém, de Regina Ottero e Regina Rennó, e Histórias da Tia Nastácia, compilação de histórias folclóricas contadas por uma negra.

Leandro é aluno do 1º ano de Jornalismo da ECA-USP