Lembra do seu primeiro dia de aula?

Estadão

01 Fevereiro 2011 | 21h16

Ontem foi 31 de janeiro, dia em que a maioria das escolas reiniciou as atividades. Por volta das 12h e 13h, estive observando a hora (do rush) da saída de alguns colégios e comecei a me divertir ao perceber como o primeiro dia de aula de qualquer ano, de qualquer série e de qualquer escola é tão singular, quase um ritual.

Justamente nesse dia, os alunos chegam mais cedo, o cabelo está penteado e o uniforme está todo em ordem, sem bermudas ou casacos genéricos – é a única vez no ano em que, pelo menos, essas três coisas conseguem acontecer ao mesmo tempo. Se abrirmos o estojo de algum desses alunos não haverá nenhum lápis com ponta semelhante ao “bico de ornitorrincos”, canetas sem tampa ou lapiseira com o grafite 0.7 do amigo.

Quando todos chegam na classe, a primeira atividade é a mesma – os professores até que tentam disfarçar fazendo dinâmicas diferentes, mudando a forma de perguntar ou de obter a resposta, mas o intuito é o mesmo: quebrar o gelo do primeiro encontro com a clássica “e aí? Como foram as suas férias?” – a sua resposta pode vir na forma de desenho, teatro, redação ou frases em inglês, dependendo da faixa etária e com certeza, haverá aquele amigo que vai se gabar dizendo que foi pra Disney pela quinta vez.

A coordenadora chega também na sala com um sorriso e simpatia que só serão vistos naquela oportunidade para entregar o horário das aulas e todo mundo correrá para ver quando serão as aulas de Educação Física, Artes, Música e Informática e quase todos se decepcionarão ao ver aquela “dobradinha” de Matemática na sexta-feira. Os professores também se apresentarão todos atenciosos e 9 entre 10 deles dirão que você pode perguntar quantas vezes quiser a mesma coisa que ele responderá com maior prazer (lembre-se: 8 dentre os 9 estarão mentindo).

Na hora do recreio, as panelinhas voltarão a se formar. Os populares, as “patricinhas” e seus “partners” ficarão se exibindo, os esportistas já estarão na terceira partida de futebol na quadra, os bagunceiros estarão nas suas eternas confusões e a vida brotará de novo na escola que é um dos ambientes sociais mais interessantes da humanidade.

Lembro-me de que certa vez uma professora propôs uma atividade diferente no primeiro dia de aula, acho que como não era sobre as férias acabou me marcando bastante: distribuiu uma folha e um envelope pardo pra cada aluno, em seguida pediu para cada um escrever o que poderia fazer para melhorar seus defeitos e guardar no envelope. Isso seria mantido confidencialmente com ela e no final do ano, receberíamos o envelope de volta para reabrir e ver se cumprimos ou não a meta. Devo ter prometido que falaria menos e que tentaria ficar mais quieto, mas nem lembro se funcionou e acho que até a professora esqueceu-se de nos entregar de volta. Todo mundo tenta começar diferente, mas quase sempre acabam esquecendo de chegar até o final.

A vida é assim, e os primeiros dias de aula terão sempre esses acontecimentos tão parecidos e ao mesmo tempo tão únicos. Na USP, o primeiro dia de aula só será depois do Carnaval, porque agora é época de recuperações, matrículas, requerimentos e correção das provas dos futuros calouros. E com certeza, nesse dia, haverá poucos lápis com “bicos de ornitorrinco”…

Leandro está no 2º ano de Jornalismo na ECA-USP