Cotas, escravidão e Castro Alves

Estadão

15 Agosto 2011 | 12h09

Que vivemos em um país marcado por disparidades, não há dúvidas. Pode ser pretensão minha, mas às vezes tento desvendar por que e como chegamos a esse ponto. Veja bem, ter a pior distribuição de renda do mundo não é para qualquer país!

Por mais básicos que sejam meus conhecimentos em Ciências Humanas, não hesito em dizer que, entre os culpados, destaca-se nosso passado escravocrata. Mais de um século se passou e, ainda hoje, seus frutos (podres, é claro!) se fazem presentes.

Em mais de um ano no Anglo, poucos foram os colegas de classe negros que tive. Grande parte da população negra, infelizmente, não tem acesso a educação de qualidade. Adotando essa triste premissa, o que fazer?

Não sou ingênuo a ponto de acreditar que o sistema de cotas, utilizado em alguns vestibulares, é a solução para nossos problemas, afinal, se assim fosse não estaríamos discutindo esse tema. Trata-se de uma questão bem mais complexa e abrangente que envolve toda a estrutura social vigente em nosso país.

Embora eu admita que o sistema de cotas é falho em diversos aspectos, questionar sua existência contraria o bom senso. Ceder 5% em pontuação no vestibular a um jovem negro que estudou em uma escola pública de Heliópolis parece injusto? Ao meu ver, parece mais injusto dar 15% a um jovem de classe média alta que cursou uma boa escola pública do Centro Paula Souza. O sistema de cotas é uma indenização ínfima quando analisadas as consequências da escravidão, cujo maior expoente é a marginalização socioeconômica da população negra.

Aos que se negam a enxergar tudo isso, recomendo Castro Alves, ex-aluno da SanFran.

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! …”

De fato, não podemos apagar esse borrão de nossa história. Entretanto, fingir que isso não existiu é covardia. Quem cala consente!

Caio Godinho é aluno do Anglo

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