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Um Olhar da Indústria na Gestão das IES’s Brasileiras

Roberto Lobo

11 de junho de 2019 | 11h07

Um Olhar da Indústria na Gestão das IES’s Brasileiras

Roberto Lobo                                     11 de junho de 2019

 

Há algum tempo, conheci o Joselito Moreira Chagas, um Engenheiro Eletricista com MBA pela FGV.

Com grande experiência empresarial, tendo colocado a mão na massa como executivo de multinacional sueca no ramo de manutenção industrial por 15 anos, atuando em todo o Brasil com gerenciamento de projetos da ordem de 50 milhões de reais. Certificado 6 Sigma Green Belt pela SKF, ele gerenciou mais de 30 projetos de melhoria contínua em seus clientes tendo ganho o prêmio de melhor projeto Green Belt SKF e palestrado em diversos congressos de manutenção nacionais e internacionais. Formado em Gerenciamentos de Projetos pela SKF Argentina e Suécia, recebeu premiações por projetos em San Diego – EUA e Cannes – França.

Desde 2015 é professor universitário e de pós-graduação e recentemente foi certificado pela Apple Professional Learning para desenvolver projetos Apple Education nas escolas de ensino fundamental e médio no estado de São Paulo.

Conversando com Joselito ele comentou sobre o choque que sentiu ao mudar de empresas para trabalhar junto a IES’s. Pedi para que descrevesse esse choque, o que ele fez e que transcrevo abaixo:

Choque de Realidade de Gestão entre os Segmentos da Indústria e da Educação

Por Joselito Moreira Chagas

Durante 22 anos na indústria brasileira, convivi em um contexto de ISO 9000, normalizações, auditorias de certificações e de clientes, entre outras. O mercado, bastante competitivo e muitas vezes atendendo o cliente internacional, detinha contratos de performance de serviços de manutenção, uma complexa operação envolvendo fornecimento de produtos e serviços de manutenção e engenharia de confiabilidade para gerenciamento da rotina e projetos de melhorias. Havia indicadores de manutenção, profissionais capacitados para realizar plenamente cada função e auditorias sistemáticas dos clientes com foco em atingir o resultado esperado.

Como resultados obtidos buscava-se a disponibilidade de máquina, a confiabilidade dos ativos, a vida útil dos mesmos, redução do custo e aumento de produtividade das linhas de produção, sempre com a gestão efetiva como pano de fundo.

Em algum momento, me vi em uma Universidade Estadual Pública, em um Mestrado Acadêmico e atuando em duas Universidades Particulares ministrando aulas nas engenharias.

Entretanto, vivendo o ambiente educacional, senti um choque de realidade no segmento até então impensável: como o ambiente das instituições de ensino superior é informal no Brasil! Enquanto docente, percebi como a falta de uma comunicação eficiente dentro da IES provocam perdas. Presenciei projetos importantíssimos da IES sem comunicação ou divulgação, desperdiçando uma oportunidade ímpar de diferenciação no mercado.

Posso citar alguns exemplos desta realidade: 1. um processo de avaliação institucional realizado junto aos alunos, onde a IES valoriza somente as respostas dos alunos em geral e poderia ter diferentes visões e outros pontos de vista se segmentar a visão de bons alunos e dos docentes para permitir a construção de um projeto de melhoria amplo; 2. a gestão dos cursos de administração e produção organizaram um evento com os empresários da região para compartilhar o projeto de estágio da IES e ouvir as demandas locais, projeto este que não foi compartilhado com as demais engenharias, tampouco comunicado aos professores, que poderiam convidar outros empresário para o evento; 3. O sistema de avaliação da IES não permitiu desenvolver o PBL dentro de uma disciplina, pois a política de avaliação exigia as 2 avaliações (P1 e P2) e sem espaços para criar novas modalidades de avaliação; 4. um projeto de extensão para o armazenamento da água do ar condicionado em cisternas na IES e reduzir o consumo de água de uso geral e jardinagem não foi aprovado, pois não foi considerado como importante para a IES.

O que falta para uma IES tornar-se mais profissional? Entre outras mudanças podemos destacar:

  • Ter um sistema de gestão integrado de resultados: faturamento, recursos humanos, compras, investimentos, fornecedores etc.
  • Ter um sistema efetivo de comunicação com colaboradores, docentes e com alunos que permeiem a estratégia e o posicionamento da IES.
  • Ter uma política de indicadores de desempenho que envolva toda a IES. Um exemplo interessante é a ferramenta da qualidade Balanced Scorecard (BSC), indicadores nas quatro principais perspectivas no negócio: cliente, financeiro, processo e recursos.
  • Profissionalizar a gestão da IES e ter um planejamento estratégico de longo prazo.
  • Ter uma infraestrutura que valorize seu processo de aprendizagem.
  • Ter a alta gestão ou mantenedores alinhados com a estratégia de gestão profissional e eficaz.

Assim, há uma grande oportunidade de profissionalização do ensino superior brasileiro, que vise uma gestão mais eficaz, reduzindo a burocracia, criando uma comunicação efetiva e um processo de gestão por indicadores que, consequentemente, produzirá redução de custos, um ambiente transparente de comunicação com docentes e maximização das oportunidades que contribuirá no processo, inclusive, de aumento da retenção nas IES.”

Diante deste depoimento claro e direto, que serve de alerta e motivação para a modernização necessária das nossas instituições de ensino superior para enfrentar os desafios deste século, válido tanto para o setor privado quanto para o público, retomo um tema, voltado especificamente a instituições que desejam valorizar suas imagens e sua competitividade, tema a que sempre me referi nos cursos sobre gestão universitária realizados pelo Instituto Lobo,   que tem tudo a ver com a visão do Joselito e cujo texto transcrevo abaixo:

 

INSUMOS OU PROCESSOS PARA OBTER BONS RESULTADOS?

Roberto Lobo

 

O desempenho de qualquer instituição, seja ela fornecedora de bens ou serviços, pode a grosso modo ser analisado a partir de três pilares de qualidade: dos insumos, dos processos e dos resultados (inputs, processing, outputs).

A tendência das IES brasileiras é a de tentar copiar as melhores universidades em seus insumos, cujas qualidades excepcionais caracterizam universidades de classe mundial, como Harvard, MIT etc.: alta seletividade dos corpos docente e discente, excelente infraestrutura de informática e bibliotecas, internacionalização acentuada, pesquisa científica de alto nível. São instituições muito caras e que já ocupam posições nas agências de fomento e no imaginário social. Não há espaço para muitas outras. É quase impossível, por várias razões, para uma IES privada brasileira se ombrear a qualquer uma delas nestes quesitos, nem mesmo se ombrear às nossas melhores universidades públicas, as de São Paulo sendo o exemplo mais claro.

No entanto, há outros fatores que influem na qualidade dos resultados de uma instituição de ensino, que pode ser medida pela qualidade dos egressos, sua empregabilidade e a presença e importância da IES na comunidade onde atua – os processos.

Ou seja, mesmo admitindo que não pode competir nos insumos para se obter bons resultado, uma IES pode se dedicar melhorar a organização e como ela atua interna e externamente, qualificando os processos acadêmicos e administrativo-financeiro, mesmo sem abandonar as políticas de melhoria permanente de seus insumos.

Claro que se melhorarmos também os insumos, o resultado final será ainda melhor, mas certamente se o fizermos de forma precipitada haverá um acréscimo de custos que pode inviabilizar a atração e manutenção de alunos pagantes.

Com processos eficientes e ágeis, avaliações constantes, atenção permanente aos alunos, aos professores e à comunidade, estímulo às inovações e controle nos processos administrativos e pedagógicos, as IES privadas podem competir em igualdade de condições com determinados conjuntos de indicadores de resultados, não necessariamente dos rankings internacionais, mas da satisfação de seus egressos com o valor agregado que receberam e com o nível de competitividade profissional que atingiram, um dos melhores indicadores de marketing que pode existir!

 

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