Para que serve um código de honra?
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Para que serve um código de honra?

Roberto Lobo

09 Abril 2015 | 17h25

A revolta contra a corrupção e as falsas promessas dos políticos está mobilizando o Brasil, aglutinando diferentes tipos de pessoas com insatisfações que vão desde o aumento preço das passagens ao abandono nos hospitais públicos. Os jovens são sempre parte importante destes movimentos inconformados com o que consideram injustiça, ou falta de vergonha. Talvez devam partir deles os primeiros movimentos para retirar do Brasil a imagem que internacionalmente  vai se consolidando como a de um pais corrupto e leviano.

Há alguns anos, visitando uma faculdade em uma cidade do interior de São Paulo, vimos uma experiência que pretendia induzir um comportamento ético em seus estudantes. Colocaram uma cesta de frutas com o valor afixado para cada uma e onde os estudantes deveriam pegar pela fruta desejada com o benefício de pagar o preço de custo e deixar, sem qualquer vigilância, o valor fixado em uma tabela no caixa da tenda. Havia um aviso de que no momento que a inadimplência chegasse a 20% a barraquinha seria fechada e todos os usuários prejudicados.

ENEM NA UFMG

Ao indagarmos o nível de inadimplência naquele momento, foi-nos informado que já era de 30%! Para nós era um experimento que acabou adotando a antiética, ao não honrar o que havia sido combinado como regra. Consideramos também a meta de 20% da experiência um equívoco (por aceitar uma percentual de desvio muito alto) e seu resultado um fracasso retumbante, em especial se lembrarmos que em Nova Iorque os jornais eram deixados empilhados e os transeuntes pegavam seu jornal e depositavam a moeda correspondente ao valor do impresso – com baixíssima inadimplência, com certeza bem menos de 10%.

O que pode se esperar de um brasileiro? Só isso? Mesmo em um ambiente frequentado por uma população restrita a universitários e pessoas com alta formação educacional? Afinal, todos na faculdade defendiam que a experiência era válida “apesar de tudo”.

Felizmente percebe-se, ou eu percebo, talvez equivocadamente, que começa a aparecer um certo mal estar com o famoso “querer tirar vantagem de tudo”, com o subir na vida sem esforço ou com quem costuma se aproveitar dos outros. A falta de educação no trânsito, também, já irrita muita gente (ou sou só eu?). Não se defende esses caminhos sem risco de sofrer severas críticas, pelo menos.

Quando entrei na Escola Politécnica da PUC-Rio em 1957, já havia um Código de Honra para os alunos da Engenharia. Implementado em 1956, a justificativa era a seguinte: “Assumo perante mim mesmo, meus mestres e companheiros de estudo, o compromisso de proceder sempre com lisura e honestidade na realização de minhas provas e trabalhos escolares (…) às gerações que nos sucederem pelo engrandecimento da EPUC e, portanto, do Brasil deixamos o marco inicial deste Código de Honra, que representa tudo o que temos de bom no nosso íntimo” (trechos escolhidos do documento). Já houve quem pensasse assim no Brasil!

Os ingressantes assumiram que iam adotar o Código e chegávamos ao que hoje seria considerado o cúmulo de fazer provas sem a presença dos professores e até mesmo em casa com tempo determinado. Tenho certeza de que o índice de aderência chegava próximo ao dos jornais americanos. Seria isso possível hoje em dia?

O Código de Honra Acadêmico tem sido uma prática comum em algumas das melhores universidades do mundo: Princeton, há mais de um século, Stanford, há mais de 90 anos, entre outras. Neste ano, será implantado no Departamento de Artes e Ciências da Universidade de Harvard.

Sinto que devo ter provocado um sorriso irônico nos leitores. Que falsidade! Se as pessoas são honestas, não há a necessidade de nenhum Código de Honra. Basta uma boa educação, a panaceia inalcançada para todos os males.

No entanto, um Código de Honra, segundo o filósofo Kwane Appiah, da Universidade de Nova York, não é necessariamente ligado à moralidade, mas a uma atitude que merecerá o respeito da comunidade específica de interesse.

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Honra é respeito e aceitação de quem interessa. Por exemplo: fumar foi um hábito que trazia prestígio e sensualidade para quem tinha esse vício. Nada de moral envolvido. No entanto, após muitos anos de debate, passou a ser inconveniente fumar em ambientes fechados. O hábito se transformou em um ônus para seus praticantes e não mais uma vantagem social, muito antes de ser proibido por lei.

Exemplo extremo é o terrorismo, que tem um código de ética repudiado pela civilização ocidental, mas aceito e valorizado em certas facções religiosas. Para nós, nada tem de moral, mas une seus praticantes em uma sociedade que rejeita quem não estiver disposto a se sacrificar em atos terroristas.

O Código de Honra não é uma atitude coletiva espontânea, individual e natural. Ele traça normas e comportamentos para a aceitação e o respeito de um indivíduo numa comunidade. A violação do código desmoraliza e marginaliza quem a comete.

A mocidade brasileira mais educada, que será no futuro a liderança deste país, poderia dar um exemplo a todos, sacrificando as espertezas acadêmicas, como a cola e a cópia de textos da internet apresentados como de autoria própria, criando códigos de honra para o corpo discente de nossas universidades! Isso nasceria dos próprios estudantes gerando um clima profundamente desfavorável a qualquer desonestidade acadêmica. Seria um bom exemplo para o Brasil e, talvez, uma contribuição para o início de uma virada ética no país.

Alguns rirão dessa proposta, mas uma sociedade precisa lutar por princípios  que imponham deveres e não só direitos, para lutar um bom combate.

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