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Os 70 Anos do CBPF – Centro Brasileiro de Pesquisa Físicas

Roberto Lobo

26 de outubro de 2019 | 17h35

 

Roberto Lobo                         26 de outubro de 2019

 

Recentemente, fui convidado a participar de evento a ser realizado no dia 18 de outubro no Rio de Janeiro. Era a comemoração dos 70 anos de criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), onde seria homenageado como ex-diretor desse importante instituto de pesquisas físicas. Fiquei feliz com a atenção. Não pude comparecer porque estava no exterior, mas o convite me trouxe muitas e marcantes lembranças daquela época em que o Brasil consolidava sua pós-graduação e se preparava para a redemocratização política. Resolvi, por isso, relatar os momentos mais marcantes daqueles tempos, como um depoimento sobre esse momento de transição no Brasil e no CBPF.

Para isso, coletei alguns trechos sobre aquela época do meu livro “Desafios e Escolhas de uma Liderança”, que conta bastante de minha vida profissional, mas inclui outros que são recordações que não constam do livro.  Também modifiquei certas passagens do livro para esclarecer ou ressaltar algum ponto sem modificar, no entanto, os fatos históricos.

Em 1979, depois de seis meses de assumir pela primeira vez a direção do Instituto de Física e Química de São Carlos, da Universidade e São Paulo, Maurício Matos Peixoto, grande matemático brasileiro, então no comando do CNPq, pediu a Oscar Sala, físico nuclear e meu colega da USP, que fosse conversar comigo pedindo que assumisse o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, onde eu tinha estado como pesquisador visitante durante a minha “licença-prêmio” da USP.

Ele queria que o CBPF encontrasse um novo projeto de impacto depois de um longo período de sucessivas crises políticas com cassações de pesquisadores e sérios problemas financeiros. Eu disse: “Mas acabei de ser eleito diretor em São Carlos…”. Oscar Sala respondeu: “O CBPF no momento é mais importante, é um centro do CNPq. Em São Carlos vocês já estão estabilizados. O Maurício faz questão que você vá…”.

Fiquei em dúvida, mas acabei aceitando. Reuni minha Congregação e pedi afastamento temporário. Fui novamente para o Rio em setembro de 1979.

Quando cheguei disse ao Maurício que aceitava a direção do CBPF com a condição de levar comigo Leite Lopes e Jayme Tiomno e sua esposa Elisa Frota Pessoa, ícones da instituição, de volta para o Centro. O foco eram Leite e Tiomno. Eles tinham sido cassados pelo governo militar. Eu não queria armar nenhum confronto, mas reparar uma injustiça praticada. O Maurício concordou: “Eu também estou trabalhando para isso”. Achei que a volta deles representaria o reencontro do CBPF com dois pesquisadores que tinham muito a oferecer ainda ao desenvolvimento científico brasileiro.

Assumi a direção do CBPF. A comunidade interna, como de hábito, reclamou. Achava que a minha nomeação era uma arbitrariedade do Maurício Peixoto porque queriam uma eleição direta para a escolha do diretor. Havia lá um conselho interno que assessorava o Diretor. Quando assumi, esse Conselho pediu demissão. Em bloco. “Estamos nos demitindo”, disseram. Não recuei, mesmo porque não acredito em eleições diretas para gerir este tipo de instituição. Retruquei: “Tudo bem, trabalho sem Conselho”. Começo difícil…

Iniciei minha tarefa. A primeira meta era trazer Leite Lopes e Jayme Tiomno. Pressionei muito o Maurício, presidente do CNPq, e o Lindolpho de Carvalho Dias, vice-presidente, ambos matemáticos do Instituto de Matemática Pura e Aplicada do CNPq (o IMPA).

Um dia, o Lindolpho me ligou e disse que um certo Coronel Werneck, do Serviço Nacional de Informações, ia conversar comigo sobre a ideia de trazer de volta os dois cientistas cassados. Preparei-me para receber a fera. Fixei uma estratégia para evitar que o SNI me usasse como fonte de informação. Minha postura foi a de divergir de absolutamente tudo que ele falasse.

Assim aconteceu. Ele começou perguntando se eu achava que era um risco para a segurança nacional a recondução dos dois cientistas. Eu disse que não, que risco para a segurança nacional era o livro custar tão caro no país. Expliquei como os dois cientistas tinham contribuído para a formação do CBPF e a importância científica deles. E assim fomos. Não convergimos, aparentemente, em nada.

Terminada a conversa, o militar, muito amável, retirou-se. Liguei para minha mulher, que ficara em São Carlos para providenciar nossa mudança para o Rio, e falei: “Não venha, porque eu vou ser demitido. A conversa com o Coronel foi um desastre”. Mas, para minha surpresa, no dia seguinte o Lindolpho me telefonou:  ”O Coronel ficou muito bem impressionado, achou que você tem um espírito de liderança muito forte, que não há risco e que vai defender sua posição”.  Perplexidade.

Talvez animado pelo sucesso do meu tête-à-tête com o Coronel, o Maurício foi falar com o general Medeiros, que era o chefe do SNI. Contou-me depois que a conversa fora muito dura. Na semana seguinte, liguei para o Lindolpho: “Eu queria falar contigo sobre três assuntos”. Ele falou: “Eu só tenho um assunto para falar com você: o Maurício e eu acabamos de ser demitidos pelo Delfim”.

A queda do Maurício Matos Peixoto talvez tenha sido provocada pelo fato de ter lutado em favor de nossa dupla de exilados. O General Medeiros discordava, certamente, da postura liberal do Coronel Werneck durante a conversa comigo.

Eu quis pedir imediatamente minha demissão, mas o Luis Carlos Gomes e o Jacob Pallis (do IMPA) foram me procurar à noite, na minha casa, pedindo que eu esperasse um pouco mais. Jacob disse que o Maurício gostaria que eu continuasse, porque, para ele, o importante era o CBPF e não o fato de ser presidente do CNPq. Ele não queria esse tipo de solidariedade. Eu não acreditei muito nessa conversa, mas o Jacob ligou para o Maurício, que me confirmou tudo que me disseram. Então, embora muito abalado, permaneci aguardando o desdobramento dos fatos.

O Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, que tinha sido Reitor da Universidade Federal da Paraíba, assumiu o CNPq. Imediatamente me chamou e disse que pretendia me manter no CBPF. Disse-lhe que ficaria, desde que a proposta encampada pelo Maurício continuasse de pé. Era um ponto de honra trazer de volta Tiomno e Leite. Ele concordou comigo e os dois físicos cassados foram finalmente contratados pelo Centro. Fizemos uma festa no retorno.

O Leite Lopes e o Tiomno passaram a conviver no CBPF. Mas, quando duas pessoas, depois de tantos anos, cheias de mágoas, voltam para uma instituição, o ressentimento delas enfrenta o ressentimento das que ficaram. Isso não é coisa simples de administrar. Tive, como diretor, uma crise muito séria com o Tiomno. Ele, que era diretor científico do Centro, saiu deste cargo, brigando com Leite e com o Luis Carlos Gomes. Foi um abalo profundo. Recebi várias propostas para fazer retaliação contra sua oposição, mas não fiz. Um dia, Tiomno me procurou e disse: “Eu sei que você ouviu conselhos para nos retaliar por causa da nossa briga e não aceitou. Quero dizer que nós estamos agradecidos e respeitamos sua posição”.

Anos depois de minha saída do CBPF, recebi de Mario Novello, respeitado cosmologista brasileiro e pesquisador do CBPF ainda hoje, uma carta muito gentil reconhecendo minha dedicação e algumas ações importantes durante os três anos que passei na diretoria do Centro. Esse documento é valioso porque, enquanto eu dirigia o Centro, Novello sempre foi reticente. Fiquei feliz com a manifestação desse colega.

Durante essa crise uma pessoa foi extremamente cooperativa e lúcida: César Lattes. Ele era conselheiro do CBPF (membro do Conselho Externo) na época e usou todo o seu prestígio para esfriar o incidente. Isso é importante para a biografia de Lattes, porque todo mundo diz que ele não tinha equilíbrio emocional. O Lattes não foi apenas um grande cientista. Ele soube ser muito lúcido e equilibrado naquela ocasião e provavelmente em outras, também…

Por outro lado, César Lattes criou um problema sério quando anunciou que a Relatividade Restrita, de Einstein, estava errada e me ligou para dizer que ia dar o primeiro seminário sobre isso no CBPF, para homenagear a instituição. Fiquei alarmado, porque a Relatividade Restrita tem uma série de consequências experimentais comprovadas. Mas ele foi lá e deu o seminário.

Disse que Einstein estava errado. Deu uma solene “banana” para Einstein durante a entrevista à imprensa. Quando tudo acabou, os jornalistas vieram me entrevistar. Eu disse aos repórteres: “Ouvi o seminário do professor Lattes com o maior interesse, pois ele é um físico excepcional. Há muitos dados experimentais, porém, que confirmam a teoria de Einstein. O professor Lattes está apresentando um dado que não confirma a teoria, mas esse mesmo dado precisa ser conferido. Não se pode dizer que Einstein está errado ou certo, sem que tenhamos mais elementos sobre o assunto.”. E, de fato, o resultado da experiência do Lattes nunca foi confirmado.

Esta entrevista foi muito difícil para mim, pois não sou da área da Relatividade. Mas, ao mesmo tempo, devo registrar que o seminário do físico brasileiro foi brilhante. Mesmo quando o Lattes errava, ele errava com brilho.

O Lattes havia participado da descoberta do “Méson Pi”, um resultado importantíssimo na Física de Partículas Elementares. Ele achava, com razão, que poderia ter obtido o Prêmio Nobel. Então, num momento em que descobriu alguma coisa que contrariava Einstein, não se aguentou e foi a público antes da hora. Acho que isso veio de uma certa frustração anterior, do fato de não ter sido devidamente reconhecida sua importância na área.

Outra lembrança marcante foi a conversa com Leon Lederman, diretor do Fermi Lab, grande centro de pesquisa internacional, que foi visitar o CBPF onde tivemos uma longa reunião em que ele convidou o CBPF a enviar pesquisadores para comporem alguns grupos de pesquisa no seu laboratório, onde precisava de físicos experimentais.

A grande maioria dos físicos de partículas do CBPF era teórico. Resolvemos arriscar para não perder esta grande oportunidade e decidi conversar com o grupo de pesquisadores sobre a possibilidade de participação do CBPF nos grupos de pesquisa do Fermi Lab. Tivemos uma longa conversa com o grupo teórico de partículas, liderado pelo Alberto Santoro, que teve a coragem de mudar de campo e envolver-se com a física experimental e os detectores de partículas, o que fez com sucesso em poucos anos.

Finalmente, quero deixar testemunhado o processo de criação do Laboratório de Luz Síncrotron, partindo de discussões internas no CBPF.

Pouco depois de assumir a presidência do CNPq, Lynaldo solicitou que todos os institutos de pesquisas ligados a ele elaborassem um plano diretor para os anos seguintes, buscando identificar e desenvolver a vocação de cada um. Achei ótimo, porque era o que eu tinha como objetivo quando aceitei a direção do CBPF.

Discutimos várias hipóteses, como seguir o modelo do IMPA e ficar essencialmente um centro de física teórica com grande mobilidade nacional e internacional ou, ainda, criar um grande centro experimental para atrair grupos de pesquisa do Brasil e do exterior, fixando no Brasil físicos experimentais e engenheiros de alto nível. Esse segundo modelo recebeu o apoio imediato de Jacques Danon, que foi o primeiro a mencionar a possibilidade e a importância de um acelerador de elétrons para o Brasil, a quem se juntaram, Roberto Salmeron e o general Argus Moreira e, posteriormente, Leite Lopes.

O projeto foi encarado com ceticismo pela comunidade de físicos brasileiros – o Alberto Passos Guimarães, pesquisador do CBPF que o diga. Ele sofreu com o bombardeio de críticas em sua exposição em Cambuquira na SBF quando expôs a ideia. Mesmo no CBPF as opiniões eram divididas e as dimensões do projeto eram tantas quantas as pessoas envolvidas na discussão.

Até que fui à França e aos EUA e percebi que as dimensões e energias propostas estavam fora da realidade e não teriam a menor competitividade internacional. O aumento nas dimensões do projeto e a ideia então concebida de transformá-lo no primeiro laboratório nacional no Brasil, inviabilizou sua localização administrativa no CBPF por sua transcendência em relação a qualquer instituição já em operação.

No entanto, o CBPF deve se orgulhar para sempre de ter gerado a ideia, participado da história do LNLS e se sentir feliz pelo sucesso da iniciativa. A história da criação do Síncrotron Brasileiro é relatada com detalhes no livro mencionado acima.

Em setembro de 1982 quando completei três anos na direção do CBPF, fui a Brasília e entreguei o cargo. Lynaldo quase morreu de susto. Perguntou-me: “Por que você está saindo, houve algum aborrecimento?”. Respondi que cumprira exatamente três anos na direção do CBPF, como já havia avisado que pretendia ficar. Ele falou: ”Mas você não tem mandato…”. Argumentei que eu próprio me havia atribuído esse prazo e avisado desde que assumira: “Já fiz o que podia fazer, vou voltar para São Carlos”.

Regressei ao Rio e, no CBPF, anunciei a decisão. Foi uma surpresa enorme, porque muita gente supunha que, depois do Centro, eu pretenderia mais algum cargo. No Brasil, certas pessoas acham que ocupar um cargo de direção implica, necessariamente, em armar um esquema de poder.

Acabei mais tarde sendo convidado pelo Lynaldo para assumir o cargo de diretor do Síncrotron e do CNPq (em um momento de crise com a comunidade científica), mas isso não estava nos meus planos. O que eu queria, na verdade, era deixar um legado de progresso para a instituição. Não sei se consegui, mas lutei muito para isso, enfrentando tormentas, mas com o otimismo de quem se sente construindo um futuro melhor.

 

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