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Oceanos sem Peixes

Roberto Lobo

19 Setembro 2016 | 13h47

Oceanos sem Peixes

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho                              19/9/2016

 

No ano de 1950 viajei para os EUA com meus pais e minha irmã, Flavia Maria. Como não havia muito dinheiro, embarcamos em um navio misto, com carga e passageiros, que levou 17 dias para atracar no porto de New York.

Durante a viagem, com pouco que fazer, passava boa parte do tempo olhando o mar do convés. Sempre adorei o mar, talvez por ter nascido no Rio de Janeiro.

Via dezenas de pequenos peixes pulando ao lado do navio e cardumes de peixes voadores dando voos rasantes e retornando às águas azuis do oceano.

Meu aniversário de 12 anos se deu nessa viagem e ao nos aproximarmos do sul dos EUA, olhando distraidamente o mar percebi jatos de água distantes. Chamei meus pais e um marinheiro que passava no momento nos disse serem esguichos de baleias.  De fato, consegui distinguir cinco delas. Foi um espetáculo emocionante que considerei um maravilhoso presente de aniversário. Como se não bastasse, horas depois vi um tubarão acompanhando o navio com movimentos lentos. Disseram que eles frequentemente seguiam os navios esperando alguma descarga comestível na água. Naquela época, o mar era o esgoto das embarcações.

No dia seguinte, entramos em um mar terrivelmente revolto, a ponto de não se poder por um prato na mesa sem que fosse atirado ao chão. A água invadia o convés com a força das ondas. Quase todos os passageiros enjoaram. Minha mãe passou o dia na cabine, péssima.

Soubemos por um tripulante, quando estávamos chegando a New York, que tínhamos cruzado um “rabo de ciclone”, nas palavras dele, ou seja, nos limites da região de turbulência de um ciclone, daí os ventos fortíssimos e o mar agitado (e os peixes fugindo na direção oposta!).

Perguntávamos entre nós porque o comandante não tinha desviado dessa tormenta, já que o radar já era um equipamento de navegação usual e havia comunicação eficiente por rádio. Soubemos a resposta no dia seguinte, quando dezenas de caixas com garrafas de uísque vazias foram jogadas ao mar! Maldito capitão bêbado! Quando voltamos ao Brasil soubemos que nosso navio, antes de chegar ao Rio, já tinha abalroado um pequeno barco de pesca – culpa do comandante ébrio?

Na viagem de volta, meses depois, não vi mais baleias, mas havia muitos peixes voadores, peixes grandes e médios que saltavam, expondo barrigas brancas que brilhavam ao sol e, também, alguns golfinhos perto da costa.

Após quase 10 anos, durante meu serviço militar na Marinha, já no final dos anos 50, voltei a viajar pela costa do Brasil embarcado no cruzador Tamandaré e me lembro dos muitos golfinhos que seguiam o navio e muitos peixes voadores que davam a impressão de saltarem de alegria – embora provavelmente estivessem, na verdade, fugindo de algum predador.

Passado esse tempo, foram quase 40 anos sem viajar de navio. Somente há cerca de 15 anos voltei a navegar, desta vez em pequenos cruzeiros pela América do Sul, Central e do Norte e, uma vez, nas ilhas gregas. Passeios agradáveis e repousantes, mas fui percebendo que já não se via quase peixes ao olhar o oceano em mar alto.

Nas últimas três viagens, em um total de 24 dias no mar – a última há duas semana – nenhum animal marinho visível!

Perguntei a alguns tripulantes e eles confirmaram que praticamente não se vê mais peixes em viagens pelo mar. Um oficial soube dizer, inclusive, o ano em que viu pela última vez peixes ao longo da viagem, 2006! Que tristeza!

Mas essa constatação merecia ser melhor investigada. Chegando de viagem procurei me informar sobre esse fato. Havia várias hipóteses: seriam os navios modernos tão grandes que assustavam os animais marinhos, ou seria o aquecimento dos oceanos que os estariam atingindo, ou a política de zero resíduos dos navios que deixou de atrair os peixes?

O que encontrei como resposta não foi nada disso, foi ainda pior: é que não há quase mais peixes, ou outros animais marinhos nos oceanos do nosso planeta.

Verifiquei que estudos concluíram que fatores como a pesca excessiva, a poluição e as mudanças climáticas estão agindo em conjunto e fortemente.

A pesquisa reuniu especialistas de diferentes disciplinas, incluindo ambientalistas com especialização em recifes de corais, toxicologistas e cientistas especializados em pesca.

‘‘As conclusões são chocantes. Estamos vendo mudanças que estão acontecendo mais rápido do que estávamos esperando e de formas que não esperávamos que fossem acontecer por centenas de anos’’, disse Alex Rogers, diretor científico do IPSO e professor da Universidade de Oxford.

O pesquisador Ranson Myers, biólogo da Universidade de Dalhouse no Canadá afirma que desde os anos 50 com a pesca industrializada somente 10% da quantidade de grandes peixes que havia na época ainda existem nos oceanos, dos trópicos aos polos. Acho que foi isso então que eu vi acontecer ao longo da minha vida.

Se isso for verdade, em 2050, continuando a pesca predatória, espera-se que os oceanos estejam praticamente sem peixes, dizem esses mesmos cientistas.

Ao que tudo indica, não era só minha impressão: não há mais peixes para serem vistos por quem navega nos mares do mundo! O que era uma curiosidade quase romântica se tornou para mim um alarme assustador!

É preciso uma grande e urgente mobilização para salvar a fauna marinha de nosso Planeta. Afinal, 2050 está aí.

Em cem anos vamos acabar com a vida nos oceanos? Nossos netos verão os peixes só no museu? E o que acontecerá com a vida na Terra?