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O Professor é um Facilitador?

Roberto Lobo

11 de abril de 2019 | 22h39

O Professor é um Facilitador?

Roberto Leal Lobo e Silva Filho           11 de abril de 2019 

“Diga-me e eu esqueço. Ensine-me e eu me lembro. Envolva-me e eu aprendo.” Benjamin Franklin.

O dito de Benjamin Franklin faz todo o sentido: se os alunos estiverem mais envolvidos e engajados, aprenderão mais profundamente. Este sentimento é predominante também na educação superior, na qual muitos instrutores vêm crescentemente utilizando estratégias e metodologias chamadas de “ativas” e destinadas a envolver mais os alunos no processo de aprendizagem. O termo ativo implica que os alunos aprendem fazendo, podendo a atividade envolver interações entre estudantes, experiências práticas ou abordagens baseadas em problemas ou estudo de casos.

O ponto mais importante sobre o sucesso do aprendizado ativo é que a metodologia deve levar em conta o fato de que a atividade de pensar deve superar a atividade executada mecanicamente. Exercícios de aprendizado devem sempre promover a construção de conhecimento. Ser experiência ativa não necessariamente está relacionada com a aprendizagem. John Dewey, um dos primeiros proponentes da aprendizagem experimental e pela descoberta, observou que “não aprendemos com a experiência. Nós aprendemos refletindo sobre ela”. A aprendizagem é mais eficaz quando a experiência ajuda os alunos a interagir e refletir sobre o assunto em questão de forma significativa. Qual o papel do professor nesse processo de aprendizagem?

As novas metodologias estão tirando o professor da frente da classe onde ele se portava como único transmissor do conhecimento a uma turma de estudantes passivos. Com as novas metodologias professores saíram de seus pedestais e se colocaram no mesmo espaço dos estudantes. Surgiu assim a figura do professor facilitador. Se o professor é agora somente um facilitador devemos nos perguntar o que é um facilitador.

Este termo foi muito utilizado no encontro realizado recentemente em Cambridge (Massachusetts, USA) – do qual participei como palestrante – e isso me incomodou um pouco. O termo facilitador em si não tem grande importância, pode ser um modismo, mas me preocupa a maneira como pode ser entendida o papel do professor no processo pedagógico.

Cabe aqui uns parênteses para fazermos uma viagem para a Atenas Clássica:

Em seu livro “Professores Para Quê?”, o sociólogo francês Georges Gusdorf relata a experiência em que Sócrates, no livro Menon de Platão, extrai de um escravo ignorante verdades geométricas (muito antes do nascimento de Euclides) que o fizeram abandonar conceitos errados em que vinha acreditando até então. De acordo com Sócrates, a capacidade do menino para alcançar a verdade e reconhecê-la como tal, é prova de que ele já tinha esse conhecimento dentro dele; as perguntas de Sócrates simplesmente o fizeram vir a tona, tornando mais fácil para ele lembrar o que já sabia. Ele argumenta, além disso, que desde que o menino não adquiriu tal conhecimento nesta vida, ele deve tê-lo adquirido em algum momento anterior.

Gusdorf discorda da conclusão de Sócrates, uma vez que Sócrates não fez o papel de uma mero facilitador, mas de um mentor que já tinha o conhecimento teórico e soube conduzir o escravo ao encontro da verdade: Sócrates não era “neutro” à procura de um mero consenso, uma vez que reorientava o escravo a cada erro cometido, o que para Gusdorf arruinou a hipótese de Sócrates.

Na verdade, se o escravo tivesse a disposição e o tempo para começar a pensar no problema, sem limite de tempo, talvez chegasse às conclusões corretas, mas o acúmulo de conhecimentos seria difícil pelo tempo gasto em cada progresso. Por outro lado, o escravo teria aprendido muita coisa paralelamente na busca da solução de um único problema.

Aqui se explicita um velho conflito: o estudante aprende mais se descobrir a verdade sozinho, mas leva muito tempo, o que induz a colocar um professor em cena, que mesmo eventualmente prejudicando o ganho global de aprendizagem pelo esforço individual, acelera a aquisição de novos conhecimentos, mesmo que nesse caso sejam menos absorvidos pelo estudante. Como em tudo na vida, é preciso fazer opções e as soluções radicais – aprender tudo sozinho ou ser totalmente tutorado – não são possivelmente as melhores práticas. A questão que se põe a partir deste texto é: seria Sócrates um facilitador?

Voltando ao termo, a palavra “facilitador” é usada por muitas pessoas significando coisas diferentes, sendo mais comumente utilizada no caso de alguém que ganha a vida como um profissional que ajuda uma equipe interna de empresas, governos, ou outras organizações a convergirem em uma discussão, ou em um processo de planejamento, por exemplo,

Citando o site da Associação Internacional de Facilitadores: “Os facilitadores são chamados a preencher um papel imparcial ao ajudar os grupos a se tornarem mais eficazes. Agimos como guias de processo para criar um equilíbrio entre participação e resultados. Nós nos esforçamos para ajudar o grupo a fazer o melhor uso das contribuições de cada um de seus membros. Nós deixamos de lado nossas opiniões pessoais e apoiamos o direito do grupo de fazer suas próprias escolhas. Acreditamos que a interação colaborativa e cooperativa gera consenso e produz resultados significativos.”

Os facilitadores sabem o tipo de resultado para o qual estão trabalhando e seu papel é fundamentalmente ajudar o grupo a chegar a uma decisão ou plano, por exemplo, mas não possuem compromisso com nenhuma decisão pré-fixada, ou plano específico, nem têm obrigação de ser competentes no tema abordado – ele só precisa conhecer a técnica de conduzir o trabalho em grupo.

Assim as pessoas podem aprender algumas coisas ao longo do caminho, mas isso é um subproduto, não o foco desse tipo de atuação. Os professores, por outro lado, têm resultados específicos que estão tentando alcançar em termos de conhecimento, ou habilidade adquirida pelos alunos. Eles precisam dominar os conteúdos do programa de ensino. Os facilitadores não têm esse objetivo, nem essa exigência.

Em resumo, o papel e os objetivos dos professores e facilitadores são profundamente diferentes, embora haja claramente uma sobreposição em algumas das habilidades. Muitos professores usam técnicas de facilitação, mas isso não os torna facilitadores. Por outro lado, os facilitadores podem usar muitas das mesmas técnicas interativas dos professores, mas isso também não os torna professores.

O professor ideal deveria ser, ao mesmo tempo – e no mínimo – um facilitador, um especialista, um mentor e um exemplo. Não é para qualquer um, mas não custa tentar…

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