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O Brasil Perde um Grande Cientista

Roberto Lobo

07 de janeiro de 2020 | 14h56

O Brasil Perde um Grande Cientista

 

Roberto Lobo                                                7 de janeiro de 2020

 

Faleceu há poucos dias, na noite de 3 para 4 de janeiro, Ricardo Rodrigues, uma pessoa que deixou importante legado para a ciência brasileira, além de muita saudade para quem conviveu mais proximamente com ele e admirava sua inteligência, competência, dedicação e finura nos seus relacionamentos pessoais e profissionais. Deixa uma linda lembrança em sua passagem por este mundo.

Há algum tempo, meu amigo, e também físico, Aldo Craievich, me pediu que escrevesse uma carta à Academia Brasileira de Ciências defendendo a candidatura de Ricardo a membro da ABC. Sabíamos que seria difícil sua aceitação porque o importantíssimo trabalho que ele realizou, resolvendo inúmeros problemas técnicos e científicos, para construir o acelerador síncrotron do atual LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron) não se transformaram em papers científicos stricto sensu, ainda que seu trabalho pessoal e sua liderança técnico-científica tenham propiciado os meios para a produção de centenas de trabalhos científicos. Ele sempre priorizou fazer o novo a documentar o já feito e também sempre priorizou a pertinência do que fazia.

Foi com Ricardo Rodrigues, Aldo Craievich e Cylon Gonçalves da Silva, que eu montei o grupo responsável pelo projeto do laboratório do acelerador síncrotron para o CNPq, que se constituiu no primeiro laboratório nacional em nosso país e o primeiro acelerador deste tipo no hemisfério sul.

Escrevi o texto abaixo para defender sua candidatura à ABC, que reproduzo, como meu testemunho do trabalho deste grande cientista e ser humano que foi Ricardo Rodrigues.

“Antonio Ricardo Droher Rodrigues, doutor pela Universidade de Londres em 1979, foi meu contemporâneo no Instituto de Física e Química de São Carlos, tendo impressionado a mim pela seriedade e competência com que tratava os assuntos de natureza profissional, além de ser uma pessoa extremamente entusiasmada por novos projetos. Assim é que ele se tornou responsável pela instalação da luneta astronômica que levei para São Carlos durante minha gestão à frente do IFQSC da USP. Trabalhou com competência e dedicação noites seguidas, meses a fio, com o apoio voluntário de funcionários que ele liderava com entusiasmo e gentileza.

Foi por essas características que o convidei a integrar o Projeto Síncrotron que coordenei para o ACNPq a partir de 1982. Logo se tornou líder da concepção e construção do acelerador, trazendo para o Brasil essa tecnologia.

Conseguiu construir essa máquina sofisticada em nosso país, vencendo uma enorme quantidade de problemas científicos e tecnológicos que estavam no limite da nossa competência científica e industrial tendo, no percurso, gerado inclusive uma patente, o espectrômetro de raios-x de alta resolução em energia, e melhorado produtos de algumas indústrias da região para poder utilizá-los na construção do acelerador.

Hoje, à frente do Projeto Sirius, Ricardo Rodrigues é garantia no quesito recursos humanos.

Ele conseguiu aliar o conhecimento científico ao tecnológico e, ainda, unir o saber ao fazer, de forma extremamente competente e criativa. Quem dera tivéssemos mais “Ricardos Rodrigues” em nossa ciência.”

Para alguns, isso tudo não foi suficiente e ele foi recusado 2 vezes na candidatura para a ABC.  Certamente teria sido melhor se a sociedade científica tivesse dado a ele o reconhecimento merecido em vida.

Saudades, Ricardo!

 

 

 

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