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“Liberté, Égalité, Fraternité”: Andamos Para Trás?

Roberto Lobo

27 de maio de 2020 | 19h20

Liberté, Égalité, Fraternité”: Andamos Para Trás?

 

Roberto Lobo                                                             27 de maio de 2020

 

 

Liberdade, igualdade e fraternidade, o belo lema da Revolução Francesa, tem sido aceito como um guia de comportamento e de políticas sociais. Entretanto, a falta da fraternidade está comprometendo, nesta geração, os outros dois objetivos: a liberdade e a igualdade.

Por que a fraternidade faz parte do tripé do lema citado?  Porque a liberdade e a igualdade são asseguradas pela empatia com o outro, cada vez menos valorizada popularmente e frequentemente esquecida. E não é ligada a nenhuma religião. É um termo laico que representa uma escolha consciente pela vida comunitária em uma relação de igualdade. É a fraternidade que nos faz civilizados e merecedores dos outros pilares, pois expressa a dignidade de todas as pessoas, consideradas iguais e com os mesmos direitos.

Lutamos pela liberdade de poder se expressar sem receber uma agressão física ou verbal e ser respeitado como cidadão ainda que não pertença ao grupo dos correligionários.  Porém e infelizmente, a radicalização das posições e da linguagem vem caracterizando os conteúdos das redes sociais e vai penetrando os próprios órgãos de imprensa. A revolta e a intolerância com opiniões opostas às expostas por alguém geram posturas ofendidas e réplicas agressivas de leitores e uma tréplica ainda mais furiosa do autor. Acidez e maledicência invadiram os diálogos.

Não se cultiva mais o contraditório como uma forma de progredir no conhecimento de uma causa ou situação.

Essa radicalização tende a por em risco a liberdade de opinião e, na academia, a própria liberdade acadêmica. É com tristeza que observamos palestras sendo interrompidas por manifestações truculentas e alunos e docentes serem colocados “em banho maria”, quando não concretamente prejudicados por não pensar como a maioria. Como diz Malcolm Tight em seu livro sobre liberdade acadêmica “Academic Freedom and Responsability”: “Hoje em dia, a liberdade acadêmica nas universidades está mais ameaçada internamente do que externamente”.

Quando há muitos anos tomei contato com a dialética de Hegel absorvi e assimilei do meu jeito estes ensinamentos, já que não sou filósofo, e tentei incorporá-los à minha maneira de pensar e como uma lição para a vida.

Para Hegel, a evolução do pensamento se dá a partir de um movimento dialético em que uma tese (uma afirmação) é contestada pela antítese (o contraditório) e tese e antítese se fundem em uma síntese, que pode se transformar em nova tese, e assim por diante. Essa síntese incorpora e funde a tese e a antítese. É assim que o discurso evolui.

Sempre achei esta estrutura de pensamento muito promissora, desde que a antítese fosse entendida pelo proponente da tese como uma crítica construtiva e as objeções levantadas e contra exemplos apresentados pudessem servir para aperfeiçoar a proposta original, sem rancor ou preconceito.

O proponente da tese deveria colocar-se na posição do outro para entender suas objeções e na medida deste entendimento aperfeiçoar sua proposta inicial. Até a linguagem precisaria ser “traduzida” com boa vontade para que cada um entenda o que o outro quer dizer. Em minha experiência verifiquei que muito das posições conflituosas se deve a má interpretação de palavras ou afirmações.

Isto não significa rejeitar o contraditório, mas absorvê-lo construtivamente. O contraditório não deve ser considerado ofensivo à proposta original, ainda que parta de alguém com posições políticas, ideológicas ou pessoais, antagônicas às nossas.

Sempre tentei utilizar esta metodologia para guiar meu comportamento e muitas vezes cheguei a me surpreender com o sucesso desta metodologia , que encontra pouca afinidade na cultura contemporânea.

Impedir a fala de pessoas opostas à nossa visão de mundo, ensinar por via de doutrinação maciça e autoritária, não reconhecer qualidades nos adversários, tentar criar verdades ao invés de descobri-las é truculento e pouco civilizado. Estamos chegando ao ponto de adivinhar o resultado de uma sentença previamente, conhecendo a ideologia do juiz.

Não posso deixar de me indignar com a facilidade com que hoje se aceita a truculência verbal e física desde que atinja somente ao adversário. Não é porque o outro está no “inferno” que isso nos coloca em oposição direta, ou seja, que estejamos no “céu”.

Ao não sermos fraternos, dificilmente estaremos defendendo a liberdade de expressão e opinião e alcançando a igualdade de tratamento, mesmo que esses termos sejam muito mais abrangentes do que isso.

Não viajamos tanto na história, sofremos tanto para defender a liberdade, para cairmos nesta armadilha.

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