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Intercâmbio Internacional na Engenharia: O Que nos Contam os Alunos?

Roberto Lobo

04 de julho de 2019 | 11h55

Intercâmbio Internacional na Engenharia: O Que nos Contam os Alunos?

 

Roberto Lobo                                                     4 de julho de 2019

 

O aluno assiste a uma hora de aula. Sai da classe e vai para uma máquina de café e coloca moedas para retirar um sanduiche de outra máquina ao lado. A máquina de café não é furtada e a máquina de sanduíches não é violada.

Convive com muitos colegas e professores estrangeiros. Conversa com os colegas em poltronas situadas no amplo hall do prédio onde estuda, volta e participa de mais duas horas de atividades. Dai segue para o almoço e depois se dirige à confortável biblioteca da universidade para discutir com seus colegas em uma sala reservada a reuniões de grupos e termina seu dia sentado à uma mesa trabalhando em seus próprios materiais. Relê as notas de aula, resolve problemas, escreve um breve relatório e estuda o material para o dia seguinte.

Se necessário pode ficar na biblioteca durante a noite, porque ela não fecha. A biblioteca é mais um ponto de reunião de estudantes e de estudos do que de armazenagem de livros e revistas, apesar do vasto acervo. É a alma cultural da instituição.

No dia seguinte tem aulas com professores com grande experiência prática sobre os conteúdos e competências ligados à matéria que lecionam, sendo capazes não só de responder a perguntas muito objetivas dos estudantes, mas também de chamar a atenção para fatos relevantes que nem sempre se encontram nos livros.

Estes professores não fizeram toda a carreira acadêmica dentro da mesma instituição de ensino, da graduação ao doutorado, sem quase nenhum contato com a realidade externa, sem ser confrontado com os problemas do mundo real, tanto técnicos quanto de relacionamento.

À tarde decide continuar sua experiência no laboratório do qual tem a chave e prossegue em suas medidas e novas montagens que ajudarão a esclarecer suas hipótese e dúvidas. Aliás o laboratório é muito bem equipado e moderno, doado por uma empresa de grande porte (não há relato de que estudantes destas instituições tenham realizado passeatas e greves contra esse tipo de doação).

Se ele tem algumas questões que não consegue responder satisfatoriamente, procura o professor na sua sala que o atende e indica a bibliografia pertinente ao assunto.

Nessa instituição os professores têm um papel muito mais de aconselhamento e de orientação do que de expositores de conteúdos. Em aula, esperam que os estudantes tenham lido e se preparado para o assunto que vai ser abordado e que estarão prontos para resolver a enorme quantidade de problemas e desafios que ele vai determinar. E é isso que quase sempre ocorre.

A partir de um certo ponto, o estudante passará a cumprir estágios nas empresas, para aproveitar o período de férias, principalmente, a fim de ter uma visão mais prática de sua área, enriquecer seu portfolio e ser conhecido na empresa, o que pode facilitar um futuro convite de trabalho.

A autonomia do estudante é respeitada e estimulada. Aulas são facultativas, não existe a questão clássica: “Que nota tirou? Tem frequência?”, que caracterizam as avaliações no Brasil. Segundo o relato, os estudantes que mais faltavam eram os brasileiros, talvez acostumados a responderem somente ao que é fiscalizado. Nesses países o professor confia que o aluno fará o trabalho assinalado, sozinho quando assim for combinado, não estragará nem furtará peças do laboratório, mesmo estando sozinho e com a chave de acesso.

Pois é, como o leitor pode imaginar, essa é uma síntese do que nossos estudantes do extinto programa “Ciência sem Fronteiras” relatam de suas experiências nas melhores escolas de Engenharia do mundo, baseada no artigo “Ensino de Engenharia no Brasil e no Mundo: Percepções de Intercambistas”, produzido por professores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, que entrevistou vários de seus estudantes que participaram do programa CsF.

O estudante tem de 12 a 15 horas de aula por semana (ao invés de 25 a 30 como no Brasil), pois a propalada relação de três horas de estudo para uma de aula é levada a sério. Há grande flexibilidade curricular, com disciplinas escolhidas com a supervisão de um orientador.

Os alunos descrevem que há exigência, respeito e confiança por parte dos professores, mas sem muita intimidade, e também muitas sessões de tutoria com discussão sobre temas e resolução de problemas.  Possuem autonomia para organizar suas horas de atividade e lazer, adquirem experiência na realização de projetos individuais e em grupos, reconhecem o valor dos serviços de atendimento ao aluno e da preocupação com seu conforto.

Com tudo isso, o índice de reprovações é baixo (embora a evasão nos primeiros anos possa ser significativa, em alguns países). Livros didáticos que no Brasil cobrem vários semestres são cobertos em um semestre somente, com muito trabalho e estudo por parte dos alunos.

Esses são os principais aspectos que se destacam no relato.. Quem teve a oportunidade de passar por uma experiência semelhante à dos nossos estudantes bolsistas do CsF sabe que tudo que eles relatam é a mais pura verdade. A adoção da maioria destas práticas no Brasil não exigiria grandes recursos financeiros

Quando analisamos as discussões que permeiam as novas diretrizes curriculares brasileiras da Engenharia e visitamos nossas melhores escolas, nos perguntamos se estamos no caminho das melhores no mundo ou se a distância entre nós só tende a aumentar.

Será culpa só das escolas de Engenharia, ou um reflexo da nossa cultura? Ou ambos?

 

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