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“Grit” – A Nova Onda na Educação

Roberto Lobo

28 Julho 2016 | 17h49

“Grit” – A Nova Onda na Educação

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho        Em  28/07/2016

 

A capacidade de um indivíduo resolver problemas, ou se posicionar corretamente diante de novos desafios é o que se chama de inteligência e geralmente não é distribuída igualmente entre todas as áreas de atividades, sendo mais pronunciada em umas do que em outras, segundo Howard Gardner, que definiu, em seus estudos, sete tipos básicos de inteligência.

A capacidade de um país resolver problemas, ou se posicionar corretamente diante de novos desafios é a inteligência de uma nação. Esta inteligência faz com que o povo seja capaz de escolher melhor, elemento indispensável para a democracia, saiba exigir seus direitos e fiscalizar seus representantes, assim como compreender o papel da preservação ambiental e da ética na organização social, entre outras coisas.

Sabe-se que a inteligência de uma pessoa depende de fatores genéticos e ambientais (onde se situam, com relevância, os fatores culturais). Os fatores genéticos são razoavelmente aleatórios, porque dependem das combinações também aleatórias dos genes dos pais, que os herdaram dos avós, e assim por diante, podendo sofrer mutações e erros de cópias de trechos de DNA’s.

Os fatores genéticos são, portanto, de difícil controle e está cada vez mais claro que a variabilidade genética é mais importante dentro de uma mesma população do que entre populações. A etnia e o sexo não se mostram como fatores relevantes em experiências que foram conduzidas com os necessários cuidados para isolar corretamente essas variáveis.

Os fatores ambientais se mostram cada vez mais relevantes porque se pode atuar sobre eles. Seu principal componente é a educação! Nos Estados Unidos, onde a maioria das estatísticas sobre a inteligência vem sendo compilada, o índice de QI (que mede as inteligências linguística, lógico-matemática e espacial) para populações como a judia e a asiática, demonstra que os judeus têm resultados nos testes de inteligência de quase um desvio padrão acima da população branca, em geral.

Da mesma forma, os jovens de origem asiática ficaram quase um desvio padrão acima da média americana nos exames de conhecimentos. Parece haver aí uma contradição: seria a etnia, então, o fator mais importante? A resposta é não!

Estes resultados são uma demonstração de que a valorização da educação no lar e na escola faz toda a diferença e estes povos têm esta tradição. Está provado que crianças de origem modesta que tinham QIs bastantes inferiores têm grande aumento de desempenho nos testes quando criadas em ambientes mais cultos e exigentes. Muito mais que a genética, é a cultura de um povo que faz a diferença.

Estudos recentes sobre desempenhos excepcionais em qualquer área (científica, artística, cultural ou esportiva) identificaram que eles dependem de muito trabalho, cerca de 10.000 horas ao longo de 10 anos junto a um bom professor nos anos iniciais que seja caracterizado pela modéstia e firmeza de caráter, que não acolha o erro sem reação e que estimule mais do que repreenda.

O esforço sistemático bem orientado é uma das chamadas boas práticas em educação.

Mas essa é uma dentre muitas outras propostas de reorientação da educação atualmente praticada nas escolas.

A escola crítica e a escola criativa, fortemente incentivadas na Austrália são outras recomendações que tiveram longas filas de seguidores.

As ênfases vão e vêm, mas como acontece em todas as áreas sociais, há uma hélice de progresso, isto é, as ideias rodam, mas sobem, aperfeiçoando-se a cada volta.

Agora a última moda é o que os americanos chamam de “Grit”, que pode ser traduzido como perseverança, desenvolver uma dedicação e uma paixão por objetivos de longo prazo. Esse conceito foi popularizado por Angela Duckworth, psicóloga da Universidade da Pensilvânia, em 2007.

Ela acredita e tenta demonstrar que essa característica pode ser ensinada e estimulada e que ela reduz de forma significativa até mesmo fatores culturais e econômicos que geram deficiências de aprendizado nos estudantes oriundos de famílias mais carentes.

Essa proposta pretende, para seus defensores, ser tão importante que pode trazer, segundo eles, uma revolução de longo prazo na maneira de se educar e se aproxima, em sua aplicação, do esforço bem orientado baseado em um planejamento pessoal.

As escolas Kipp, sempre interessadas em buscar inovações na educação, estão utilizando técnicas para desenvolver essa característica do “Grit” na personalidade de seus estudantes.

Essa tese está revolucionando até mesmo o ensino superior. O Olin College, reconhecido internacionalmente por sua proposta inovadora de formar engenheiros nos EUA, está introduzindo em sua missão o desenvolvimento do “Grit” de seus estudantes,

Como em toda a novidade, não faltam críticos à nova ideia, mas estes dão ênfase ao excesso de fé no “Grit” para superar grandes carências socioeconômicas.

Alphie Kohn, um crítico ferrenho da teoria do “Grit”, se preocupa se os proponentes da nova teoria não estarão tendendo a observar somente o comportamento, sem se preocupar com a motivação. Ele pergunta: “Será que essas crianças amam o que estão fazendo? Ou estão pressionados por uma desesperada exigência de provar competência”?

Mesmo imaginado que o desenvolvimento do “Grit” nos estudantes podem aperfeiçoa-los como pessoas e profissionais, essa teoria será provavelmente incorporada no futuro como mais uma boa prática na educação, sendo difícil prever seu impacto isolado na educação do futuro. Mas isso não implica que não examinemos essas propostas com a atenção que a educação merece.

O conceito do “Grit”, de alguma forma, sempre foi valorizado pelos bons professores e pelas boas escolas, assim como na educação dadas pelos pais que acreditam que a perseverança e o compromisso tenaz com objetivos de longo prazo melhoram a perspectiva de que jovens se sintam preparados para enfrentar os desafios da escola, do trabalho e da vida, mas a valorização do “Grit” não se incorporou ainda às preocupações da maioria das famílias e instituições educacionais brasileiras.