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Ensino Médio,: Pisa, Currículos e Inovação

Roberto Lobo

23 Setembro 2016 | 00h01

 

Ensino Médio: Pisa, Currículos e Inovação

 

Roberto Leal Lobo e Silva Filho                22 de setembro de 2016

 

Os Estados Unidos não têm se colocado bem nos exames PISA organizados pela OECD (embora esteja bem acima do Brasil). Fica abaixo da média em relação aos 34 países membros da OECD em matemática e ciências, não passando da média em leitura.

Na verdade, nem seria necessário recorrer a estes resultados – bastaria ter contato com um aluno médio de uma escola pública americana para perceber que o conhecimento formal que eles possuem das disciplinas tradicionais do ensino básico é inferior ao dos estudantes brasileiros das boas escolas privadas (o mesmo não acontece em relação aos nossos estudantes das escolas públicas, infelizmente), o que tem alimentado a ilusão de que nosso ensino básico é superior ao americano.

Mas não é esse o ponto que pretendemos levantar. O que nos chama a atenção é perceber que mesmo com um ensino básico inferior a muitos países europeus (principalmente escandinavos) e asiáticos (Coréia e Japão, principalmente), os Estados Unidos possuem o mais forte sistema universitário do mundo (13 entre a 15 melhores colocadas no ranking da universidade de Xangai, o ARWU), lideram no número de patentes e estão entre os cinco primeiros colocados nos estudos sobre inovação, como o Global Innovation Index ou o Global Competitiveness Report do Fórum Econômico Mundial.

Essas publicações apresentam indicadores que compõe o índice nacional de inovação de cada país e, observando-se os indicadores americanos, se constata que em alguns dos mais importantes deles os EUA estão nos primeiros lugares.

Pode-se ressaltar como fatores essenciais para a posição alcançada pelos EUA no que diz respeito à inovação:

  • a qualidade das universidades
  • a relação muito forte universidade/empresa
  • a facilidade de crédito
  • a abundância de capitais de risco
  • o bom ambiente de negócios
  • os modelos empresariais inovadores
  • a grande cooperação setorial e intersetorial
  • a aceitação do fracasso ocasional e o incentivo à resiliência
  • o desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicações, entre outros.

Podemos considerar que os itens acima seriam bons indicadores que poderiam servir de guia para uma revisão das prioridades em nosso país.

Mas a questão que chama a atenção é a seguinte: como um país com um ensino básico, em média, medíocre atinge esses níveis de inovação e criatividade?

Procuramos encontrar explicações possíveis. O conjunto de indicadores mencionados acima formam, desde logo, um ambiente favorável à inovação, que parecem compensar as deficiências educacionais, fazendo com que o país seja um dos líderes mundiais na inovação.

É preciso levar em consideração, antes de mais nada, que os Estados Unidos possuem uma política agressiva de atração de talentos estrangeiros e que boa parte dos inovadores que moram nos EUA são estrangeiros (residentes ou naturalizados). Dos inovadores nos EUA, 35,5% nasceram fora dos EUA e metade desses não são cidadãos americanos.

Alguns fatores ligados à própria educação americana também merecem ser analisados:

  • Parte da explicação para o mau desempenho dos EUA no PISA se deve à grande diversidade populacional e sócio econômica do país. Mas há uma elite intelectual originária das escolas privadas, bastante caras e seletivas, e de escolas públicas de boa qualidade (que inclusive aumentam os valores dos imóveis nos bairros onde se situam).
  • Nas escolas de ensino básico nos EUA, o conteúdo comum é menos vasto do que no Brasil, mas há uma grande diferença nas oportunidades ligadas a atividades opcionais como artes, matemática, esportes, literatura e muitas outras, que completam a formação dos estudantes em áreas onde eles são vocacionados e a escola acaba por desenvolver as habilidades e conhecimentos necessários ao sucesso dos alunos nessas áreas. Algumas escolas no Brasil já buscam esse caminho.
  • Os estudantes mais motivados e vocacionados podem ascender a classes mais avançadas nas áreas onde eles ultrapassam os limites dos conteúdos tradicionais relativos a cada série. Ou seja, estimulam-se os talentos.
  • A universidade americana manteve a tradição da escola inglesa, priorizando a formação inicial dos estudantes em colleges, onde a educação nas “liberal arts” proporciona um estudo que abarca várias áreas, como artes, humanidades e ciências, com ênfase na integração do conhecimento e no desenvolvimento da capacidade de encontrar soluções para problemas reais.
  • Grande ênfase no ensino superior na solução de problemas, no ensino prático das “hands on”, muita exigência de estudo e uma intensa convivência nas melhores universidades dos estudantes com professores e colegas nos campi, criando um clima de integração e cooperação que facilita as redes de conhecimento.
  • A substituição da amplitude de conhecimentos pela profundidade somente nos últimos anos de graduação e na pós-graduação.
  • A introdução de novas capacidades e aprendizagens, recentemente valorizadas, como as formas de lidar com fracassos temporários, a tenacidade, a resiliência e foco nos objetivos, chamado de “grit”.

Para citar só um exemplo, um colégio do estado de Virgínia apresenta um cardápio de cursos para seu “high school”, composto de 21 disciplinas de inglês, 9 em artes, 49 em idiomas estrangeiros (e latim!), 6 em educação física e esportes, 21 em matemática, 14 em música, 12 em ciências, 17 em estudos sociais (inclui geografia, história, psicologia, etc), 5 em formação profissional e 6 em artes cênicas. O estudante tem, portanto, ampla liberdade curricular, embora precise da concordância da escola em suas escolhas. O núcleo curricular mínimo é composto de cursos em inglês, matemática, ciências, ciências sociais, esportes e ao menos um curso a escolher nas áreas de artes visuais ou cênicas, língua estrangeira ou formação técnica (pelo visto, poucos fazem a disciplina de geografia, haja vista a confusão que o americano médio faz com as capitais da América do Sul…)

Apesar do alto investimento por estudante e uma proposta curricular interessante, os EUA dificilmente atingirão no PISA o desempenho de alguns pequenos países europeus, muito mais homogêneos socioeconomicamente, e com renda per capita equivalente à dos EUA.

A exceção é Singapura, que consegue resultados excelentes no PISA, está muito bem colocada no ranking de competitividade embora, como os EUA, apresente elevada desigualdade socioeconômica. Porém em Singapura a profissão do magistério é altamente valorizada, como em todos os países com bons resultados no PISA, exigente e diferenciada em função do desempenho do professor, introduzidos pela revolução educacional do país na segunda metade do século XX.

Os países que conseguem conciliar um excelente ensino médio com alta competitividade e características inovadoras são geralmente aqueles que valorizam os professores de ensino básico por meio do pagamento de bons salários, seleção rigorosa na contratação e critérios de promoção na carreira baseados em resultados e avaliações permanentes, além de programas de aperfeiçoamento dos professores ao longo de suas carreiras.

Também é preciso salientar que os países de bom desempenho, tanto no PISA quanto nos indicadores de inovação, possuem fortes programas em ensino técnico e tecnológico, com grande participação das indústrias.

Nos EUA, embora o salário dos professores seja elevado se compararmos em termos absolutos em dólares com os professores de outros países, o dado relevante para atração de jovens talentosos para a carreira do magistério é a comparação do salário inicial com a média de salários nacionais de profissionais com diploma superior. Nesse item os EUA perdem longe dos países mais bem colocados no PISA e que, ao mesmo tempo, vão bem nos rankings de inovação.

Um professor inicia a carreira nos EUA com um salário cerca de 40% da média salarial de outros profissionais de nível superior, enquanto que nos países de maior sucesso esse valor está na faixa de 80% a 110%.

Não há milagre! Só se atrai indivíduos competentes em número significativo para uma profissão valorizando-a (exceção e homenagem feita a uma minoria de professores dedicados e competentes que vivem em países que não valorizam o profissional do magistério, mas que ainda assim se dedicam de forma abnegada a seus estudantes).

Os EUA ficam como exemplo de que um país com uma educação básica desigual, mas que possui um ambiente empresarial, tecnológico e científico altamente competitivo, que tem uma cultura que valoriza o trabalho e a iniciativa empreendedora, sabe atrair talentos e possui uma educação que se pauta em desenvolver o melhor de cada um, mostrando que podem existir fatores mais relevantes para a inovação do que uma nota obtida em um teste com questões artificiais propostas por professores (nada contra uma boa nota!).

Já estava preparando esse artigo há algum tempo, mas diante da apresentação da reforma do Ensino Médio apresentada pelo Governo brasileiro, achei por bem contribuir com essas informações e reflexões para ajudar a embasar a discussão.