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É possível melhorar o desempenho acadêmico utilizando o efeito Hawthorne?

Roberto Lobo

12 de julho de 2019 | 17h22

É possível melhorar o desempenho acadêmico utilizando o efeito Hawthorne?

 

Roberto Lobo                             12 de julho de 2019

No meu livro “Desafios e Escolhas de uma Liderança”, relato uma experiência que me marcou ao deixar a Reitoria da USP e que se revelou uma importante referência para nortear algumas de minhas ações no futuro. Eis o relato:

“No dia seguinte à minha renúncia recebi dois telefonemas que iriam influenciar minha vida nos dois anos seguintes.

O primeiro foi de Israel Vargas, então Ministro de Ciência e Tecnologia, que me convidou para trabalhar na agência da FINEP em São Paulo como consultor para a área de educação e para fazer um documento analítico sobre o CNPq.

Na FINEP, montei um programa chamado Arquimedes para apoio a instituições educacionais ligadas ao ensino básico que tivesse projetos inovadores capazes de reduzir a evasão e as reprovações em nossas escolas.

Aprendi com o estudo dos casos apresentados que quase qualquer iniciativa que se tome para melhor atender os alunos baixa a evasão e a taxa de reprovação em até 10%. Pode ser criando um time de futebol, uma banda, um grupo de teatro, chamando os pais e filhos nos finais de semana para atividades conjuntas, pintando a escola, melhorando a biblioteca. Seja lá o que for. Os alunos ao se sentirem valorizados pela iniciativa da escola reagem positivamente. A dificuldade é institucionalizar esses programas e superar a barreira dos 10%. Não cheguei a ver esse caso!”

Ao ler meu livro, o antropólogo americano, meu amigo e amigo do Brasil, James Ito-Adler, doutorado pela Harvard University, me encaminhou a correspondência que traduzo abaixo:

“Efeito Hawthorne ou Low-Lying fruits?” A expressão low-lying fruit, ou frutas baixas, fáceis de colher, é usada para descrever uma ação que não requer quase nenhum esforço. A educação, como a saúde pública, é uma arena ativa para intervenções projetadas para melhorar os resultados – qualquer que seja a medida. A medida feita é sempre um enigma, já que várias novidades são grandemente alardeadas como a próxima grande revolução. Para aqueles conhecedores da sociologia de intervenções de gestão, o chamado “efeito Hawthorne” é um aviso oportuno sobre conclusões prematuras no que diz respeito à eficácia e causas de melhorias percebidas.” E conclui, dando como um exemplo a minha experiência tal como relatada acima.

Foi na Western Electric Company, situada no bairro Hawthorne de Chicago, nos Estados Unidos, que os estudos que geraram o conceito do efeito Hawthorne foram realizados. A equipe de investigação era dirigida pelo psicólogo Elton Mayo, da Universidade de Harvard e tinha como objetivo descobrir as razões que levavam os operários a sofrerem com acidentes, fadiga e baixa produtividade.

Os resultados foram surpreendentes e continuam relevantes mesmo após quase 100 anos terem se passado.

O efeito Hawthorne descreve a inclinação das pessoas que estão sendo submetidas a um estudo experimental de mudar ou melhorar suas performances nas ações que estão sendo avaliadas simplesmente pelo fato de estarem sob observação, mesmo que não haja nenhuma mudança nos parâmetros objetivos do estudo. Só o fato das pessoas se sentirem objeto de atenção pode melhorar seu desempenho.

Exemplo: Operários tiveram a iluminação em suas salas de trabalho melhoradas. Houve uma melhora na produtividade, mas o que se descobriu é que os operários na sala mais iluminada não produziram mais por poderem enxergar melhor, mas sim por se sentirem importantes fazendo parte de um experimento e se sentirem observados e valorizados.

O problema com os low-lying fruits, que não é exatamente o mesmo que o efeito Hawthorne, mas se refere a iniciativas relativamente simples e de alcance limitado,  é que eles geralmente não atacam a raiz das questões, e não mudam os processos em seu âmago, podendo enganar os gestores com o sucesso inicial, que estaciona em um ganho limitado, temporário e sem escala. O erro é considerar que se encontrou uma nova solução para um determinado problema identificado pelas instâncias superiores da organização.

É preciso ter cautela quando se analisa pequenos sucessos em experiências educacionais, que alteram a resposta dos estudantes com variações da ordem de frações do desvio padrão. Essas experiências precisam ser testadas e desafiadas para se determinar se foram obtidos efeitos concretos e permanentes e se estes podem ser escalonados e institucionalizados.

Minha experiência na FINEP me fez conhecer o efeito Hawthorne e os low-lyimg fruits na prática. Depois isso se confirmou nas minhas experiências como consultor de instituições de ensino superior no Brasil e em outros países, mas há algo de interessante a ser aproveitado nisso tudo.

A experiência com as escolas mostrou que mesmo quando a atenção dada aos estudantes não é vinculada a iniciativas diretamente relacionadas ao desempenho acadêmico, ela pode produzir reflexos educacionais positivos.

Com isso, como na educação a autoestima e as expectativas positivas de sucesso por parte do estudante e da instituição são fatores que influem decisivamente no aprendizado, uma melhoria do desempenho dos estudantes – se for devidamente valorizada – pode gerar uma realimentação positiva permitindo que projetos pedagógicos mais ambiciosos possam ser implementados, aproveitando o que seria um bom momento da instituição de ensino, gerando uma coerência de propósitos e uma aliança entre os diferentes setores da organização.

Como aproveitar o sucesso de colher frutas baixas e do efeito Hawthorne para transformar o sucesso inicial modesto – ao invés de desqualificá-lo – em um crescimento sustentável e eficiente dos processos educativos requer a criação de uma estratégia planejada que merece ser testada pelos gestores da educação em todos os níveis.

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