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Curso de Ciências Moleculares nunca foi pensado para abrigar ‘gênios’

Redação Estadão.edu

22 Abril 2014 | 11h56

O Curso de Ciências Moleculares da Universidade de São Paulo (USP) foi criado em minha gestão na Reitoria com um formato muito original e ambicioso, e que se esperava que servisse de paradigma para outras mudanças no ensino de graduação da USP.

Ele foi sempre muito bem avaliado por especialistas externos e tem formado pesquisadores muito bem sucedidos.

O curso se originou de discussões ocorridas ainda em meu gabinete de vice-reitor, nas quais nos preocupávamos com a enorme dificuldade de formar estudantes com uma visão multidisciplinar e, para isso,  seria necessário desmontar a rígida estrutura curricular de nossos cursos centrados nos departamentos. Se tivéssemos que seguir a estrutura curricular formalizada pelos colegiados da USP com seus pré-requisitos nunca um aluno poderia ter uma formação efetivamente integradora dos conhecimentos de diferentes áreas, mesmo que correlatas.

Outra motivação era a necessidade de se identificar e desenvolver formas de estimular o estudante bem formado e interessado a avançar rapidamente para as fronteiras do conhecimento. Não queríamos que o bom aluno ficasse preso às roldanas e ao plano inclinado de novo (exemplos que uso da minha área – física). Para isso, partimos do pressuposto que, nesse curso, todo o conteúdo de ensino médio deveria ser considerado como dominado. Eventuais lacunas deveriam ser preenchidas pelos alunos, com orientação docente.

Para conseguir a visão multidisciplinar os professores precisariam trabalhar em conjunto e harmonicamente, assim como alunos entre si e com os professores, o que impediria a ênfase nas aulas tradicionais. Professores de diferentes áreas e alunos de diferentes interesses deveriam trabalhar em conjunto, em grupos variados e dinâmicos.

Creio que muitas dessas metas foram atingidas.

Tive a ajuda de vários professores e gestores que se entusiasmaram com o projeto, mas não tive apoio dos departamentos das unidades para absorver sua criação formal, o que nos forçou a criar o curso ligado à Reitoria como curso experimental!

Uma palavra final: este curso nunca foi pensado como um curso para “gênios”, nem para formar estudantes que se considerem superiores aos demais, mas para estudantes que desejem e possam, de fato, dedicar um período de suas vidas a um trabalho intenso e ambicioso para melhor conhecer a natureza, principalmente nas ciências moleculares, e iniciarem suas pesquisas pós-graduadas avançadas imediatamente após sua graduação.

Com isso, criamos um curso que, pelo menos, consegue colocar jovens bem formados diretamente na fronteira da pesquisa, como deveria acontecer com muitos outros cursos, de onde saem e já são apoiados imediatamente pelas agências de fomento para seguir sua carreira de pesquisadores de ponta.