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Ciência e Políticas Públicas em Tempo de Pandemia

Roberto Lobo

13 de maio de 2020 | 15h45

Ciência e Políticas Públicas em Tempo de Pandemia

Roberto Lobo                                       13 de maio de 2020

 

Se os romanos fossem esperar 1500 anos pelas leis da mecânica de Newton não teriam construído nem pontes, nem aquedutos.

O que é ciência? É saber que experiências feitas consistentemente tendem a um determinado resultado ou saber por que isso acontece? A segunda resposta é a verdadeira ciência, mas exige uma forte teoria por detrás. A ciência médica muito se baseia na primeira resposta, que é boa enquanto a segunda não for alcançada. A evidência empírica é importante, mas pode ter erros dramáticos como ocorreu com a Talidomida, na década de 50, com insuficientes garantias da ausência de efeitos colaterais, o que gerou posteriormente muito maiores exigências para a autorização de novos medicamentos. Por isso, os médicos têm atualmente grande cuidado com as evidências empíricas e exigem muitos e amplos testes.

Compreende-se assim o dilema médico de receitar um medicamento sem garantias empíricas suficientes (embora nunca totais) antes de muitas garantias científicas. No entanto, dezenas de novos métodos de tratamento foram rejeitados na história da medicina, para serem aceitos posteriormente, dando inclusive vários prêmios Nobel a seus autores. Quantos morreram por causa deste atraso?

A ciência consolida o saber, mas sem o empirismo os grandes avanços da humanidade seriam tremendamente retardados, ou mesmo não ocorreriam, uma vez que o empirismo levantou questões que os cientistas não tinham ainda considerado.

Novas teorias para serem validadas têm que passar incólumes por testes que, se positivos, comprovariam o erro de suas hipóteses.

É um longo processo e os resultados científicos são muito importantes como base para tomadas de decisão. O que geralmente não dá certo é esperar que a ciência comprove novas teorias durante uma emergência. A tendência é que a teoria científica surgirá quando a emergência já terminou, há muito tempo.

Verdade científica é uma coisa, metodologia científica é outra coisa. O que se chama de ciência no noticiário e nos pronunciamentos de autoridades é a metodologia científica, não a ciência mesma.

Na hora da crise, o que oferece maior risco: esperar que a ciência encontre as respostas ou tentar um novo medicamento que está, até então, apresentando bons resultados? O médico quer ser conservado e o paciente assustado quer tentar o novo medicamento. Onde está a razão? Cabe aí o bom senso como orientação – é a análise do custo/benefício que pode ajudar. Nisso, os médicos não são bons, mas os cientistas são ainda piores.

O século XXI com o desenvolvimento vertiginoso da inteligência artificial, a possibilidade de análise rápida de grandes acúmulos de dados e desenvolvimentos tecnológicos e biotecnológicos impressionantes, criou uma áurea em torno da ciência e dos cientistas, incorporados aos discursos das autoridades das mais opostas posições – maior do que o pós-guerra onde a contribuição da ciência à vitória aliada foi decisiva.

Atualmente, citar o método científico, chamado de ciência, é um argumento político definitivo. Os cientistas profissionais e não profissionais dando conselhos ao público. Estamos ressuscitando a sonhada República de Platão, filósofo grego que queria ver as sociedades geridas por filósofos (naquela época a filosofia incluía os cientistas). Desde então o mundo teve o bom senso de ter a ciência como informação privilegiada, mas não como definidora das políticas de estado…

O cientista quer responder a uma pergunta específica da melhor forma possível. O resto do cenário só é relevante na medida em que interfere na pergunta em questão e seja mensurável. Quando há muitas variáveis em jogo, onde há soluções conflitantes que exigem tomadas de decisões sem acesso a todos os dados e com alto risco de insucesso, o cientista fica desconfortável e tende a abraçar a solução mais conservadora. Em resumo, o cientista geralmente não é um bom líder na tomada de decisões críticas. O perfil do político ou do empreendedor é mais adequado para isso, considerando, claro, que estejam sendo honestos.

Toda decisão comporta risco. Um general que não quisesse ter baixas em sua tropa se retiraria do campo de batalha sem luta. Ele não pensa nos mortos? Pensa, sim, tanto neles quanto nos futuros vivos e por isso vai para a batalha – para que sua cidade não seja saqueada, as mulheres estupradas e a liberdade suprimida.

A ciência sempre trará a solução para a próxima catástrofe, se repetidas as mesmas condições da anterior.

O problema é saber: quem contabilizará os mortos que não foram tratados com base na evidência empírica, mesmo que parcial, pela falta da chancela científica?

 

 

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