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Ciência e Política – A ciência que conhecíamos está em perigo?

Roberto Lobo

01 de abril de 2022 | 15h20

Ciência e Política – A ciência que conhecíamos está em perigo?

Roberto Lobo 1 de abril de 2022

“E pur si muove”, disse baixinho Galileu, segundo a tradição, depois da igreja repudiar, em 1633, suas conclusões sobre o movimento dos astros. Galileu, por suas heresias, foi posto em prisão domiciliar até sua morte em 1642. O cenário não é novo nem desconhecido no mundo de hoje!
Radicalismo ideológico e preconceito não combinam com boa ciência. Muita pressa para desqualificar posições contrárias às nossas, também não. Uma das características dos sábios de verdade é a humildade ao reconhecer que suas convicções de hoje podem ser superadas amanhã, principalmente quando se trata de sistemas tão complexos como a sociedade, como os organismos vivos e, particularmente, como nós, os seres humanos.
É bom não confundir cientista com sábio. Cientista hoje é cada vez mais uma profissão; sábio é uma atitude. Sábios não participam de linchamentos físicos ou morais. Mais fácil serem linchados… Sócrates é um exemplo radical, mas não o único.
É bom não confundir cientista com sábio. Cientista hoje é cada vez mais uma profissão; sábio é uma atitude. Sábios não participam de linchamentos físicos ou morais. Mais fácil serem linchados… Sócrates é um exemplo radical, mas não o único.
Conta-se que quando invadiu a Grécia, Alexandre Magno, rei da Macedônia fez questão de conhecer Diógenes, filósofo grego que vivia em um barril e nada possuía de bens (além de grande sabedoria, é claro). Alexandre ofereceu agraciar Diógenes com o que ele pedisse, ao que o filósofo respondeu: “Peço-lhe que saia da frente do sol, porque está me fazendo sombra”.
Na própria ciência há conhecidas perseguições a novas ideias que abalaram algumas convicções científicas arraigadas.
Max Boltzmann, o famoso físico austríaco, criador, entre outras propostas pioneiras a termodinâmica estatística, a existência dos átomos e a teoria da irreversibilidade termodinâmica. Foi criticado rudemente por muitos cientistas da época, mas suas ideias prevaleceram no final das contas.
Novas ideias são difíceis de serem aceitas como escreve Planck, o pioneiro da mecânica quântica: “Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo-os ver a luz, mas sim porque seus oponentes eventualmente morrem, e uma nova geração cresce já familiarizada com ela”.
A consolidação de novas teorias científicas é demorada, passa por muitos escrutínios até que sejam aceitas.
Na atualidade, posições radicais estimuladas pelas redes sociais e por boa parte da imprensa são cada vez mais comuns. Políticos e jornalistas falam em nome dos cientistas que falam em nome próprio ou de seus grupos ou, ainda, dos patrocinadores. Enquanto se exige dos adversários infinitas provas do que afirmam, se usa o “consenso” para desqualificá-los.
A pressa é inimiga da ciência, mas é o que move a política. A política é parte integrante de qualquer sociedade. Como dizia o filósofo grego Platão, “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”
Como num tsunami, enquanto a onda avança varrendo os pensamentos opostos ao “consenso”, em seu progresso terra adentro e, enquanto os que sobreviveram à onda gigantesca em um primeiro momento ainda celebram, é preciso lembrar que, como no tsunami, provavelmente haverá o refluxo, tão ou mais destruidor que a primeira onda.
Da mesma forma que no tsunami, a ciência poderá ser engolfada em uma onda de descrédito quando ficar clara a história do século XXI e denunciada a postura de grande parte dos cientistas que confundiram visibilidade com ciência e se utilizaram de ameaças que geram pânico à população como forma de angariar os recursos necessários para realizar as pesquisas cada vez mais caras, as quais atendem, em algumas áreas, a centenas de pesquisadores em torno de caríssimos equipamentos.
Isto porque a paciência faz parte da postura científica, de quem vasculha a verdade sem fanatismos (em geral e idealmente) e nunca afirma uma verdade sem ter absoluta convicção de que a grande maioria das perguntas que poderiam ser feitas sobre o assunto tiveram respostas favoráveis, baseadas no casamento virtuoso da teoria com a prática.
Na política, ao contrário, o objetivo é convencer a povo de suas verdades, mesmo que precárias, procurando dirigir a sociedade em um caminho único, principalmente em tempos de crise, como desastres naturais, epidemias e guerras, para poder tomar medidas políticas visando à implantação de novos comportamentos, às vezes socialmente necessários, na melhor das hipóteses, ou simplesmente procurando a manutenção do poder.
O político sempre tem pressa e o cientista, cautela.
Pânicos têm sido semeados, explorados e substituídos periodicamente por novas ameaças à humanidade. Ainda que sejam baseados em fatos e evidências, em princípio verdadeiras, a amplificação dos riscos promovidos pelos meios de comunicação, apoiados por políticos e cientistas, os torna mais dramáticos para benefício exatamente dos dois segmentos – políticos e cientistas e, principalmente, para os meios de comunicação tradicionais que se alimentam desse pânico, ameaçados que estão pelas redes sociais.
Esse pânico proporciona mais recursos para a pesquisa e mais autoridade para os políticos. Assim foi com o clima, em seguida com a pandemia e pode-se prever que logo, logo, nova ameaça surgirá no horizonte. O filme “Não olhe para Cima” traz a dica, há muito prognosticada – a ameaça de colisão da terra com um meteorito gigante.
Será que daqui a pouco não surgirão informações que gerarão um novo pânico, grandes manchetes e pedidos de recursos para enfrentarmos essa nova ameaça?

Por isso, o casamento de cientistas e políticos, alimentado pela imprensa e redes sociais com declarações radicais e bombásticas, não é um bom casamento e os cientistas acabarão “pagando o pato”, quando vier o refluxo do tsunami – e a verdade destes tempos de mudanças e “pós-verdades” for objeto de estudos desapaixonados!
Alertas neste sentido vem sendo dados por diversos acadêmicos e pesquisadores preocupados com o futuro da ciência, responsável pelo grande desenvolvimento da humanidade observado a partir do Renascimento.
Nas décadas recentes foram se desenvolvendo equipamentos de altos custos, baseados em tecnologias altamente sofisticadas, que só governos e grandes instituições, ou consórcios de instituições podem garantir, se tiverem grande apoio político e das mídias.
Os artigos científicos passaram a ter não mais um ou um punhado de autores, mas centenas deles. Apesar das notáveis descobertas recentes destes laboratórios, muitos cientistas tornaram-se cientistas-burocratas: atores institucionais especializados em obter subsídios governamentais, gerenciar mão-de-obra em expansão e construir impérios de pesquisa.
Inevitavelmente, tal ambiente seleciona certo tipo de pessoas, que acham essa vida atraente, em que uma certa dose de carreirismo e talento político é necessária. Tais qualidades não são, em geral, compatíveis com a personalidade dos cientistas que dedicam todos os seus esforços na busca da verdade subjacente da ciência.
Por outro lado, para entender os políticos é preciso perguntar que tipo de autoridade teria uma pessoa que, acompanhando a cautela científica, insistisse que sua própria compreensão da realidade é meramente provisória? Presumivelmente, o político precisa ser assertivo, mesmo na dúvida, pois o objetivo da autoridade é explicar a realidade em linguagem compreensível ao cidadão comum e dar confiança às decisões políticas, em um mundo incerto, por uma questão de coordenação social, mesmo que o preço seja uma enorme simplificação.
Para desempenhar esse papel, o político terá que usar a ciência como algo inquestionável, mais parecido com religião: a “ciência oficial” que não admite o contraditório.
Isso pode ser justificado em casos extremos pela necessidade de obter uma coesão social em torno de alguma meta, mas vai de encontro ao espírito científico. Infelizmente, esse comportamento reflete uma quase descrença na capacidade de compreensão do povo, bem como uma visão elitista e autoritária. Na visão de Crawford, a perseguição inclemente dos outros pontos de vista tem um “tom medieval” e a frase “siga a ciência” tem um toque falso, pois, segundo ele, a ciência não leva a lugar nenhum. Pode iluminar vários cursos de ação, na melhor das hipóteses quantificando os riscos.
Neste ponto há uma tremenda confusão entre ciência e tecnologia. A ciência busca desvendar os princípios que regem o universo. A utilização do conhecimento científico para criar produtos que não existem na natureza se chama tecnologia. O incentivo ao diálogo entre estas duas posturas é a política de Ciência e Tecnologia (P&D). Quando ciência e tecnologia se unem para criar novos produtos comercializáveis com forte embasamento tecnológico e científico, se tem uma política de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
Na verdade, as novas políticas para combater crises, como ocorre na saúde, se baseiam, geralmente, em novas tecnologias e não no conhecimento científico consolidado – são projetos de P&D.
Aliás, para deixar muito claro, vacina não é ciência. Ela é o desenvolvimento de um produto de base tecnológica para a área de saúde pública, tanto quanto um avião para a área de transportes – que ninguém diria que é ciência. Essa confusão entre ciência e tecnologia se acentuou na Segunda Guerra, quando cientistas se mobilizaram para ajudar os aliados a criar novas armas de defesa, como o sonar, as armas atômicas e a quebra dos códigos militares utilizados pela Alemanha – principalmente para orientar seus submarinos – que se deveu principalmente a Alan Turing, grande matemático inglês com enormes contribuições na ciência da computação.
Crawford enfatiza as razões pelas quais a ciência não pode responder pelas escolhas necessárias para as políticas de curto prazo, mas argumenta que, fingindo o contrário, os tomadores de decisão podem evitar de assumir a responsabilidade pelas escolhas que fazem em nome da ciência, jogando a responsabilidade nas costas dos cientistas, que podem se alegrar por aparecerem na mídia e conseguir maiores recursos para seus laboratórios.
Henry H. Bauer, professor de química e ex-diretor do instituto de Artes e Ciências da Virginia Tech, nos EUA, vai na mesma linha e afirma que a ciência atual está organizada, principal e sistemicamente, em torno de “monopólios do conhecimento” que excluem visões dissidentes.
No entanto, embora seja fácil culpar o absurdo das mídias sociais por grande parte da desinformação sobre o coronavírus, as atitudes dos especialistas em saúde pública nos últimos dois anos podem ter feito mais, voluntaria ou involuntariamente, para corroer a confiança na “ciência” do que qualquer teoria da conspiração maluca emanada de alguma página do Facebook.
As estatísticas sobre eficácia de medicamentos ou de políticas públicas na área de saúde têm sido discutidas há muito tempo e sujeitas a muitas discussões e mal entendidos. Resultados de procedimentos e análises como duplo cego, big data, correlações e causalidades confundem o leitor pouco esclarecido nestas linguagens e têm sido usados para reforçar convicções mais políticas que científicas, sem grande pudor e com muito pouco rigor, por políticos, jornalistas e até mesmo cientistas.
Estatísticas que agregam diferentes grupos, de diferentes raças, localização geográfica, recursos econômicos, clima, hábitos alimentares, etc estão lidando com grandes médias que talvez não funcionem para nenhum grupo específico.
Se medirmos o número de pessoas utilizando aspirina e o número de pessoas que tiveram dor de cabeça nos mesmos períodos vemos que há uma clara correlação entre os dois.
Quanto mais dor de cabeça, maior o consumo de aspirina. Os dois gráficos históricos seguem curvas semelhantes. Quem causa o que? Será que se diminuirmos a oferta de aspirina diminuem os casos de dor de cabeça? Claro que não. O inverso é verdadeiro. Mais complexos ainda são os casos em que um fator externo gera correlação entre dois eventos que não tem nenhuma relação de causa e efeito.
Um sintoma do refluxo do tsunami que tem sido esta pandemia é dado por Michael Schaus, do Instituto de Nevada Policy Research Institute, no artigo: “It’s no Wonder People Don’t Trust Science Any More” que relembra várias afirmações baseadas em fatos supostamente científicos que foram descartados, ou modificados em poucos meses.
Diz ele: “Alguns cientistas mostraram na atual crise que estão dispostos a usar sua posição de autoridade como uma oportunidade de pregar politicamente, em vez de informar cientificamente – e, ainda assim, muitos da classe política e da mídia continuam a exaltá-los como se fossem profetas científicos infalíveis Entre muitos, suas recomendações políticas são consideradas indistinguíveis ou inseparáveis dos fatos científicos – uma noção que é endossada tacitamente quando se argumenta que aqueles que os criticaram estavam realmente criticando a ciência, porque eles representam a ciência”.
A política não é boa companhia para a ciência. E enquanto esta pode informar à primeira, as duas não estão umbilicalmente juntas. Ter problemas, cientificamente justificados, com as recomendações de um especialista não é uma heresia científica. No entanto, tornou-se moda para especialistas, políticos e jornalistas confundir os dois — marcando todos os que se opõem à sua ação política preferida como “apóstatas científicos”.
Continua ele em outro trecho: “Em outras palavras, as pessoas podem entender “a ciência” e ainda assim discordar sobre as decisões do governo. No entanto, para muitos que optaram por tratar certos especialistas institucionais como fornecedores infalíveis de fatos verdadeiros, “confiar na ciência” tornou-se um eufemismo para concordar com as recomendações políticas do meu especialista preferido ou ser marcado como um troglodita negador da ciência.”
Infelizmente, muitos compraram essa redução simplista do discurso – e isso gerou um contingente considerável e preocupante de pessoas que se tornaram relutantes em aceitar qualquer coisa pronunciada pelas comunidades médicas ou científicas como fato.
Como argumentou o Fórum Econômico Mundial, já em 2019, dado o estado de nossa era moderna e a velocidade com que a desinformação se espalha online, restaurar a confiança na verdadeira ciência é mais necessário agora do que nunca: “Da negação das mudanças climáticas ao ceticismo sobre vacinas, há uma divisão crescente entre as evidências científicas e a opinião pública. Como a distância entre a ciência e a sociedade pode ser superada?” (World Economic Forum: Bridging Science with Society).
Antes de sermos capazes de fazer isso, no entanto, vamos ter que aprender a parar de politizá-la, a sermos mais tolerantes e a confiar no bom senso das pessoas, que podem encarar incertezas, mas eventualmente adotam o caminho que lhes parece mais certo.
A ciência é a busca do sol que ilumina a verdade, mesmo que relativa e temporária, e é a procura deste sol que seduz os verdadeiros cientistas, nem sempre sábios, mas que apesar dos defeitos sempre buscam, incansavelmente, o novo conhecimento.

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