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As IES, a EaD e a Pandemia

Roberto Lobo

15 de abril de 2020 | 16h25

As IES, a EaD e a Pandemia

Roberto Lobo                                                       15 de abril de 2020

 

Este artigo teve a colaboração importante dos professores Claudio de Moura Castro, Elizabeth Balbachevsky e Maria Beatriz Lobo

 

 

A pandemia do Covid-19 deixará marcas profundas que afetarão no curto prazo a saúde mundial, a economia (com consequências mais prolongadas), a educação e, como substrato de todos esses setores, as formas de relacionamento pessoal, a gestão de órgãos públicos e privados, os meios de produção e de prestações de serviço, antecipando a introdução das modernas tecnologias 5.0.

Os longos períodos de afastamento social levarão ao desenvolvimento de novas estratégias de comunicação virtual em todos estes setores e ampliação das existentes.

A pandemia deverá provocar uma grande quantidade de mortes e de pessoas que sobreviventes a ela levarão consigo sequelas permanentes. A economia sofrerá um grande baque pelo isolamento determinado pelas autoridades de saúde em todo o mundo. O risco de aparecerem outras doenças pelo aumento da pobreza em regiões já carentes é inevitável, além das vítimas de doenças usuais que serão privadas de tratamento.

O ensino sofre as consequências do isolamento decretado pelas autoridades, com colégios e faculdades fechadas ainda sem data de reabertura. Todos precisarão buscar novas formas de sobrevivência e de produção de bens e serviços neste período crítico. Os mais criativos implementarão soluções originais que vão ultrapassar o período de crise e consolidar-se no futuro próximo, confirmando o ditado de que “as crises são as mães das oportunidades”.

Os inovadores e empreendedores que conseguirem encontrar soluções criativas com o uso das novas tecnologias darão uma nova energia à sociedade, trazendo saídas originais inacreditáveis até poucos anos atrás.

Aqui vale lembrar a fábula do homem que passou 5 décadas em coma e quando retornou sentiu-se totalmente perdido e à margem de um mundo novo e desconhecido. Pediu encarecidamente para que o levassem a um lugar, qualquer lugar, que estivesse como era quando ele perdeu os sentidos. Um amigo logo se lembrou do local adequado. Levou-o a uma sala de aula, que permanecia idêntica ao que era há 50 anos! Alegria do nosso herói e constrangimento dos educadores.

Dentre os setores mais afetados pela pandemia está o ensino superior que teve suas rotinas tremendamente afetadas pela crise em que o mundo mergulhou no início de 2020. Os campi foram fechados, o isolamento social afastou alunos e professores, serviços ficaram soltos no ar, alojamentos estudantis viraram possíveis focos de contaminação.

Tanto é assim que nos EUA os alojamentos foram, em sua maioria, esvaziados, criando um sério problema para os estudantes mais desfavorecidos. (Uma visão do cenário da educação superior e algumas sugestões úteis para os gestores pode-se encontrar em “Coronavirus: How Should US Higher Education Plan for an Uncertain Future?” por Franki Bevins et al, McKinsey Publ). Há também boas sugestões para universidades em momento de crise nacional na publicação sobre a IES durante a crise na guerra no leste da Ucrânia.  (“Ukrainian Higher Education In The Time Of Armed Conflict” – tese da Universidade de Tampere 2018).

Em uma visão mundial pode-se afirmar que as IES adotaram 3 grandes linhas de conduta. Uma delas foi suspender as atividades de ensino, mantendo os projetos de pesquisa, sem outras demandas para o corpo docente, como ocorreu em 60% das universidades federais brasileiras, na Universidade de Buenos Aires, na Tecnológica do Zimbábue, e outras.

Quem já tinha experiência, pessoal treinado e atividades regulares de educação a distância, ampliou e flexibilizou seu uso para não deixar seus alunos tanto tempo inativos.

A outra alternativa foi elaborar e lançar cursos online em caráter emergencial, quando não havia ainda tradição em larga escala desta modalidade de ensino. Em alguns países e instituições que optaram por uma transferência acelerada para cursos online a reação não se fez esperar. Estudantes se revoltaram e provocaram greves, como no Chile e na Tunísia. Estas greves resultarão, provavelmente, no equivalente às suspensões das atividades educacionais pelo período de duração da crise, duração esta que ainda está para ser estimada, por falta de exemplos acabados da epidemia em pelo menos alguns países de referência.

Vários problemas surgiram nesta transição acelerada para a EaD: falta de materiais didáticos preparados antecipadamente para essa modalidade de ensino, carência de tecnologia nas instituições, acesso limitado à internet em algumas regiões, muitos estudantes, e até alguns professores, que não possuíam laptops ou tablets. Isto aconteceu, também, nos Estados Unidos. Como mantê-los ligados às IES, participando de seus programas educacionais e interagindo com professores e colegas? Como manter a programação da IES no caso de avaliações e provas periódicas sempre presenciais?

Se desejarem enfrentar estes desafios de frente, os sistemas educacionais precisariam criar um programa específico para o momento. Oferecer pacotes de financiamento de internet, em cooperação com provedoras, para estudantes e professores necessitados, estimular a cooperação entre instituições para oferecimento de programas online utilizando as expertises existentes com atribuição mais flexível de equivalência com cursos presenciais existentes nas grades das IES, são alguns exemplos.

Além disso, podemos citar a rápida adaptação de grades curriculares, a oferta de programas próprios ou contratados de treinamento de alunos e professores para uso de sistemas online, investir na criação e regulamentação de redes sociais internas para informação e comunicação com a comunidade acadêmica. (Ver como referência “Reading for the Future: Covid-19, Higher Education and Fairness”, Courtney Brown e Jamil Salmi, publicação do Banco Mundial)

Na crise atual ficou bastante claro o despreparo da maioria das IES públicas brasileiras para se moverem rapidamente para a educação online, preferindo suspender as aulas com claro prejuízo para os estudantes.

O argumento utilizado por suas lideranças, de que o ensino perderia qualidade e que seus estudantes são em sua maioria de classe sócio econômica menos favorecida, o que acontece também no ensino privado, que tem tido uma resposta muito mais ágil no enfrentamento da crise, embora os dois setores tenham perfil de renda equivalente, como se pode constatar pelos dados do ENADE/INEP.

Algumas IES privadas responderam de forma positivamente agressiva a esse desafio, como se pode verificar nos depoimentos de gestores publicados por Luiz Eduardo Kochhann no portal “Desafio da Educação”, que abrange temas como a suspensão de atividades, engajamento da comunidade acadêmica, a importância e o papel da tecnologia e da empatia para lidar com problemas financeiros.

Grande parte da IES privadas já vinha incorporando com maior ou menor intensidade a EaD dentro de suas atividades regulares de ensino e a ampliação desta modalidade para suprir as aulas presenciais suspensas não gerou grandes choques culturais no seu interior. A qualidade de alguns destes programas e seus altos índices de evasão são outras questões relativas à EaD no Brasil (e no mundo) que merecem ser aprofundadas no médio prazo, independentemente da pandemia. De modo geral, pode-se afirmar baseado em dados do ENADE que os cursos em EaD têm desempenho ligeiramente inferior em média do que os presenciais. Isso porque, no conjunto, o resultado depende mais da qualidade da IES do que da modalidade de ensino.

No melhor dos cenários, a entrada avassaladora da EaD no ensino superior seria motivo de comemoração. Sua utilização sem precedentes é uma realidade no momento, e resta saber se permanece ou reflui com o encerramento da crise na saúde.

Minha posição em relação à EaD sempre foi a de entusiasmo pelo seu potencial de atingir as regiões mais remotas e desiguais em um grande país como o nosso, levar conteúdos gerados por especialistas de primeira linha aos estudantes destas localidades remotas – a democratização do conhecimento com qualidade. A EaD ainda traria no seu formato o desenvolvimento de competências há muito defendidas pelos pedagogos: aquisição de conhecimentos no ritmo do estudante, desenvolvimento da visão crítica e capacidade de escolher entre informações, autossuficiência para acessar dados e conteúdos e aprender independentemente ao longo da vida. Sem falar na aderência às necessidades de atualização profissional de pessoas já formadas que demandam educação continuada.

É preciso que fique claro que o ensino superior passa por séria crise, independente da pandemia. Custos crescentes, altas taxas de evasão, redução acentuada de alguns programas (como os MBAs) têm exigido novas reflexões por parte dos dirigentes e conselhos das IES tradicionais ao redor do mundo.

No entanto, a realidade da EaD não me provocou nem provoca o mesmo entusiasmo. Entre o potencial da Educação a Distância e a realidade há um abismo. Não por culpa somente de quem oferece esta modalidade de ensino, mas pela mera cópia do modelo presencial até sem algumas de suas qualidades. A EaD é ainda para a maioria o plano B de quem não pode, ou não quer estudar presencialmente.

Talvez por isso, em todo o mundo, a EaD busca imitar o ensino presencial, com menos exigências e custo mais reduzido, sem grande sucesso. A timidez de romper com o modelo tradicional de ensino faz com que a EaD, na maioria das instituições, não encontre seus próprios caminhos – inovadores e rompedores. Há exceções de qualidade superior nessa modalidade, mas que não representam a média.

A própria introdução dos cursos híbridos, parte presenciais e parte EaD, têm inibido novas experiências inovadoras no oferecimento da EaD porque acabam por buscar complementar o ensino presencial sem introduzir mudanças radicais de forma, dinâmica e conteúdo.

Em contatos com alguns gestores comprometidos com a qualidade de educação (que inclui alguns do setor provado com e sem fins lucrativos) ouvimos que há um certo pudor de enveredar pelo caminho da EaD pela falta de um padrão de qualidade que assegure uma concorrência justa e falta de investimentos que permite cobrar mensalidades incompatíveis com o oferecimento de bons programas.

Referindo-se à crise de financiamento, de qualidade e de gestão do ensino superior R. Craig no livro “College disrupted – The Great Unbundling of Higher Education”, defende a necessidade do sistema de ensino superior oferecer economia na escala de oferta de serviços educacionais, atendimento à heterogeneidade dos usuários e simplificação dos processos, como sendo as exigências principais de modernização do setor. Segundo ele “A resposta não será somente o uso da tecnologia para replicar o ensino presencial tradicional, mas aproveitar a tecnologia para prover uma experiência educacional melhor.”

O grande potencial da educação virtual foi descrito por Clay Christensen em seu livro “Inovação na sala de aula”, em que todas as potencialidades das novas tecnologias de comunicação seriam utilizadas para benefício dos estudantes. No livro “The Innovative University” o mesmo autor escreve: “O aumento crescente da velocidade da internet está sendo usada para aperfeiçoar a tecnologia da instrução online. Esses cursos estão claramente se aperfeiçoando, já se equiparando ou ultrapassando os cursos presenciais em algumas instituições”.

Hoje, mais do que antes, se pode empregar tecnologias desenvolvidas nas redes sociais, na inteligência artificial, nos laboratórios virtuais, etc. Com a chegada do 5-G teremos uma expansão impressionante de novas possibilidades, como interação com objetos 3D, tele presencial e outras aplicações revolucionárias.

Aí, nesse momento, a EaD será irreversível e imbatível e estará presente em todos os cursos, mesmo os híbridos, não como apoio ao presencial, mas como uma outra e rica experiência educativa.

 

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