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A Morte pelo Corona Vírus: Previsões, Pânico e Obsessão

Roberto Lobo

23 de junho de 2020 | 20h33

A Morte pelo Corona Vírus: Previsões, Pânico e Obsessão

 

Roberto Lobo                                  23 de junho de 2020

 

Previsões e Estatísticas

O número de óbitos pela Covid-19 parece ser a fonte mais confiável para o acompanhamento da pandemia que ameaça a humanidade desde os meses finais de 2019.

O Brasil tinha, até o dia 16 de junho de 2020, 23,85 mortos por cem mil habitantes e, aparentemente, o país já está no ponto que as mortes diárias entram em decréscimo.

Só para comparação, na mesma data, os EUA tinham 36,86, a França 45,44, a Bélgica 86,69 e a Espanha 60,53 mortos por 100 mil habitantes.

Para melhor comparação estas estatísticas devem levar em conta as taxas em relação à população, uma vez que é ridículo comparar o Brasil, por exemplo, com a Suíça, países incomparáveis pela extensão territorial, população, riqueza, etc.

No início da pandemia as previsões de infectados e de óbitos, tanto para o Brasil como para outros países, foram extremamente controvertidas.

Estudo realizado pelo Imperial College, da Inglaterra, previu mortes no Brasil pela Covid-19 entre 127 e 542 mortos por 100 mil habitantes. Para não sermos nem otimistas nem pessimistas vamos adotar o valor médio da previsão, 334, que daria mais de 700 mil mortos no Brasil, dependendo das providências adotadas pelo país.

Infelizmente, este estudo realizado por esta universidade famosa por sua qualidade científica, gerou pânico e estimulou medidas radicais, no Brasil e no exterior, aqui provavelmente prematuras, por parte de nossos governadores e prefeitos.

As restrições radicais à mobilidade vêm sendo revistas, mas o estrago está feito, estimulado por grande parte da imprensa que se agarrou ao noticiário do pânico, que dizem se justificar por ser importante serviço público, mas, na verdade, adotando a política do “good news is no news” e do gosto popular pelos desastres que continua sempre pescando, com o maior afinco, a pior notícia possível.

A maioria dos órgãos de imprensa nem ao menos trata países com populações muito distintas de forma diferente, criando um ranking de número absoluto de mortos que prejudica uma melhor visão da realidade, tudo em nome da “ciência”.

Por outro lado, há radicais negadores da gravidade da pandemia que subestimaram o grau de mortalidade da Covid-19, como fez o deputado Osmar Terra, que previu em cerca de 2.000 o número total de mortes pela doença, já em muito ultrapassado.

Ficamos então com atuais 23 mortes documentadas por 100 mil habitantes, em meados de junho de 2020, contra a previsão média de 334 por 100 mil habitantes do Imperial College e o total de 1 por 100 mil habitantes de Osmar Terra.

Ambos erraram dramaticamente a previsão.

Entretanto, curiosamente, ambos oferecem a mesma desculpa para o equívoco: o isolamento social! Os ingleses, alguns governadores e a maior parte da imprensa atribuem a superestimação à redução de óbitos ocorridos em razão do isolamento.Mesmo que o número de mortes venha a triplicar, o que é improvável, chegaremos somente a um pouco mais da metade da previsão mínima do Imperial College para o Brasil.

Já os seguidores de Osmar Terra reputam que o número real ultrapassou bastante sua previsão por causa, justamente, do isolamento que amontoou infectados e suscetíveis, em razão do confinamento obrigatório que facilitou a propagação da doença.

A mesma política justifica, ironicamente, as duas previsões equivocadas, embora uma opinião seja unânime: o isolamento social nunca atingiu os índices desejados e anunciados pelos governos como ideais.

Vale a pena conferir o número de óbitos nos estados mais afetados e menos afetados pela pandemia, até agora. Óbitos em estados selecionados por volume de óbitos (22/6/202):

  • Mais de 50 mortes por 100 mil habitantes; Rio de Janeiro, Ceará, Pará, Amazonas, Roraima.
  • Menos de 5 mortes por 100 mil habitantes: Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Paraná, Mato Grosso do Sul.

Dá o que pensar, não é?

 

A Obsessão pela Morte

Com a pandemia, as medidas restritivas e o noticiário, a perspectiva da morte passou a ocupar parte muito significativa da nossa realidade. Em especial o pânico de uma morte por asfixia, sem oportunidade de tratamento.

Yuval Noah Harari, historiador israelense, autor de vários best sellers, como “Sapiens”, argumenta que uma pandemia, embora nos faça confrontar a fragilidade de cada um, provavelmente não mudará a atitude humana moderna que vê o fim da vida não mais como inevitável, mas sim um problema técnico que pode ser solucionado pela ciência.

A expectativa de vida na Grécia antiga era de cerca de 35 anos. O mesmo, mais ou menos, na Idade Média. Isso não quer dizer que não houvesse gente que chegava aos 60 ou 70 anos. Até 1900 não era diferente. A morte para os antigos era um evento natural e cotidiano. Uma ferida superficial ou uma gripe facilmente poderiam levar à morte, mas atualmente a longevidade é largamente valorizada e alcançada em muitos países.

A sociedade atual – mais especialmente os “milênios”, assim chamados os nascidos no século XXI – não aceita a morte como um evento natural, em parte porque as novas gerações não passaram por experiências penosas como as grandes guerras e catástrofes mundiais (em especial no Brasil), e em parte em razão do avanço da ciência e da infraestrutura à disposição.

A morte antecipada, estúpida, por falta de saúde, de segurança ou de comida, é certamente muito indesejável, porque injusta. Mas a morte chegará algum dia para todos e pode não ser culpa direta de ninguém.

Por exemplo, consta que Ésquilo, dramaturgo grego, morreu em 456 AC devido à queda de uma tartaruga sobre sua cabeça, desprendida do bico de uma águia em pleno voo. Dizem que a águia confundiu sua cabeça com uma pedra lisa e dura e quis utilizá-la para quebrar o casco do animal, como as águias costumam fazer. Viver é arriscado.

Por sua proximidade com a morte, os indígenas americanos, por exemplo, tinham uma visão bem mais realista. Dizia o chefe Oglala Sioux, Cavalo Doido (Crazy Horse ou Tashunka Witko, na linguagem deles), antes de ir para as batalhas contra os exércitos da União no oeste americano: “Hoka Hey – Hoje é um bom dia para morrer”. E lá iam eles, munidos de lanças, enfrentar, sem esperança, os fuzis do exército azul.

Sócrates, o grande filósofo grego, que preferiu morrer a se contradizer, se despediu dos amigos antes de beber a cicuta mortal dizendo mais ou menos o seguinte: “A morte não pode ser ruim. Se nada houver depois dela, não podemos ficar tristes ou saudosos, porque não existiremos mais, mas se há vida após a morte, que bom seria” (pelo menos para as pessoas que não acreditam ou não têm medo do inferno).

A morte é vista de formas diferentes por culturas diferentes e em épocas diferentes. e há muita gente que prefere viver menos e mais intensamente. Conhecemos vários artistas, cientistas, militares, líderes revolucionários, entre outros, que preferiram viver menos, mas cumprir o que acreditavam ser sua missão. Houve época em que até morrer por amor era considerado poético.

Nos EUA morrem, por ano, 100 mil pessoas só de infecção hospitalar ou suas consequências. No Brasil morrem mais de 1,2 milhões de pessoas por ano, mais de 100 mil por mês de todas as causas. Os óbitos anuais por homicídio, cerca de 50 mil, provavelmente chegarão, em 2020, a valores pouco menores do que as mortes pela Covid-19.

A cada ano quantas são as crianças que morrem de diarreia e por falta de atendimento de saúde e de higiene? Ninguém passa o tempo todo nos telejornais falando disso e buscando formas de evitar essa tragédia mais do que anunciada.

Cuidar da pandemia, sim. Conscientizar a população é importante. A obsessão pelo sensacionalismo ou o oportunismo político não fazem bem para ninguém.

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