Índia: primeiras, e impressionantes, impressões
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Índia: primeiras, e impressionantes, impressões

Redação

03 Fevereiro 2011 | 19h01

Minhas primeiras impressões foram as de uma Índia que havia lido por algum tempo em livros, revistas e afins. Como em qualquer país de terceiro mundo, pude constatar problemas estruturais básicos, como: saneamento básico, falta de moradia, muita gente sem acesso a uma educação de qualidade e muita pobreza. Alias, comparando com a pobreza que existe no Brasil, acho que aqui este assunto é muito mais assustador do que parece. É muita gente pobre por metro quadrado. Não que não exista tanta pobreza no Brasil, mas estamos falando de uma população 6 vezes maior, com uma economia menor do que a nossa. 

O inglês, pelo menos aqui, em Nova Délhi, a capital, é falado somente por pessoas que têm acesso a uma educação de qualidade. Pessoas de classe média para cima falam bem. Já as mais simples falam somente em hindi. Essa é uma realidade que desconhecia. Tinha ideia que o inglês era a segunda língua, mas que poderia ser falado pela maioria, algo que não é verdade.

Outro ponto que constatei, e isso é muito importante pelo menos para mim, é o estupefato e profundo sistema de casta que ainda existe na Índia. Muita gente fala, por aqui, que isto não existe mais, mas para nós que somos de fora, é muito fácil de perceber essa situação perene. Minha primeira impressão sobre isso foi onde estou morando, ou seja, numa homestay ou casa de família. Bem, lá tem três empregados domésticos vindos do Nepal. Nos primeiros dias, como chegava tarde, era o último a jantar. Percebia o tamanho cuidado desses três rapazes em não chegar perto da mesa de jantar, das cadeiras, inclusive de mim. Comecei a me questionar sobre esse comportamento. E em um dos dias até os convidei para comer comigo. O meu convite os deixou espantados, confusos e sem reação. Pensando lá com meus botões: “Será que é o maldito sistema de castas?” Logo, minha pergunta seria respondida.  

Num daqueles dias, cheguei um pouco mais tarde, por volta das 22h e levei um tremendo susto – os vi jantando. Eles estavam sentados bem longe da mesa, no chão gelado num dos dias de inverno daqui, comendo em tigelas de cachorro, uma comida muito parecida com lavagem, dada a porcos. Isto me deixou muito comovido e chocado. No dia posterior, para deixar claro à minha família aqui na Índia, que não acredita nessa segregação, fiz questão de chegar mais tarde e me juntei a eles e, numa experiência jamais vivida, jantamos juntos. Só não comi a mesma refeição. Hehehe. Eles ficaram estupefatos e não acreditavam naquele momento. Disseram para mim que era, para eles, um momento muito especial. A dona da homestay viu e ficou mais assustada ainda e, hesitante, nos desejou um “bom jantar”.  

Dias depois, ao questioná-los, percebi que são escravos domésticos vindos do Nepal. Além das péssimas condições, trabalham em média 18 horas por dia, sem feriado, sem fim de semana e sem férias. Cada ano tem direito de parar uns 15 a 20 dias para visitar seus parentes. O pior disso é saber que é uma prática normal das famílias de classe média e ricas manter esse tipo de escravidão em plena capital de um país. O salário deles é 100  dólares mensais.  

Depois de saber dessas informações, quase reportei essa situação para uma ONG Internacional dos Direitos Domésticos. Mas me lembrei, logo, daquele filme DogVille: quando os escravos são libertados, eles questionam “estamos livres, e agora o que faremos”. Tipo, mesmo que estamos nessas condições, é só isso que sabemos fazer. Como nos ressocializar se não temos qualificações para boas oportunidades de trabalho. Imagine num país como a Índia, onde a chance de você nascer pobre e morrer assim é altíssima.  

De positivo, aqui tem vários lugares antigos, históricos e legais para conhecer – um deles é o museu do Gandhi no local onde ele viveu seus últimos momentos. Outro é o Templo de Lotus, entre outros locais maravilhosos. No mais, essas foram minhas primeiras impressões daqui. Semana que vem, inicio algumas viagens para poder falar mais.

Abraços,

Alexandre Costa tem 30 anos, é consultor de TI e foi fazer um curso de inglês e também praticar yoga na Índia durante suas férias